Capítulo 109

557 48 6
                                        

Ficamos em silêncio por um tempo. Mas depois veio aquela tristeza estranha que me cutucava e me dizia rindo da minha cara que sou algo que nem deveria existi, uma coisa que se resultou de um erro de dois seres diferentes. Mas eu respondia que já estou cansada de saber disso, e que nada pode me tirar da cabeça que vou atrás daquela mulher. Por isso limpei meu rosto disfarçadamente e me encostei na parede encolhendo minhas pernas e abaixando a cabeça sobre os braços. Eu ainda tinha algumas lágrimas no meu rosto e fiz isso pra ele não perceber minha fraqueza, mas não tive como esconder porque ele se arredou até ficar do meu lado e puxou meu braço me abraçando, aí que não tive como esconder mais meu choro que se tornou alto e eu soluçava agoniada com essa dor que eu queria poder tirar de mim com minhas próprias mãos. Apertei sua blusa nas minhas mãos e tentei respirar fundo e me acalmar, mas minha respiração estava falhando por causa dos soluços e eu continuei chorando sem conseguir parar me apertando contra seu peito em uma forma de me sentir segura com ele aqui comigo me apoiando do jeito dele.
-não precisa chorar por causa disso, não é fim do mundo
-mas é... Nojo de mim mesma... E-eu não queria ser filha de duas criaturas diferentes, é horrível... Eu me sinto uma aberração
Ainda chorava contando isso de olhos fechados e tentando respirar normalmente. Mas essa coisa parece tirar todas as minhas forças e parece que está me consumindo se alimentando do meu sofrimento. Eu queria poder acabar com isso, mas não sei como.
-você não é uma aberração, somos iguais porque eu já fui humano, e quando me tornei nisso eu acho que ficou uma parte da minha vida antiga comigo, não é tão ruim assim...
-é sim jass, eu não queria ter nenhuma parte humana dentro de mim, mas eu tenho, e é culpa do meu pai
Rosnei apertando sua blusa ainda mais parando de chorar e apertando minha mandíbula até senti gosto do sangue que saia da minha língua. Agora veio a raiva me regenerando do que a aquela tristeza me causou, eu só quero que uma coisa aconteça... Preciso esfregar o cadáver daquela mulher na cara dele e dizer que eu não quero nunca mais que ele apareça na minha frente por esconder tal coisa de mim por tanto tempo.
-tá então vamos pensar, se você não tivesse esse lado humano, ficaria todo o tempo naquele estado que você está em "modo predatório" não ia mais parar um segundos sem está suja de sangue, seria uma verdadeira aberração... Queria ser assim?
Pensei um pouco e limpei minha bochecha pensando no que responder. As duas coisas são como minhas duas personalidades, meus dois lados, um controlado e calmo e outro descontrolado e predatório. Mas se for pra escolher, eu preferia ser totalmente igual a meu pai do que ser metade humana.
É uma vergonha tudo isso, seria muito mais fácil e menos complicado.
-eu preferia ser uma aberração assim como meu pai
Falei séria respirando fundo depois me aconchegando no seu peito esticando minhas pernas passando elas por debaixo do lençol puxando ele até meus ombros. Decidi parar de falar nisso porque queria descansar um pouco, quero está bem disposta amanhã porque tenho muita coisa pra fazer. E dessa vez sem interrupções.
-não posso ir com você não é?
Perguntou baixo fazendo uma voz doce e fofa soprando na minha bochecha, continuei com os olhos fechados e fingi não ter escutado e que já estava dormindo. Ele não falou mais nada e depois suspirou mexendo no meu cabelo fazendo carinho, eu gostava quando ele ficava assim, só queria que ficasse pra sempre.

—————

Acordei desconfortável com o rosto no colchão que era meio áspero me incomodando muito, havia bagunçado o lençol e eu estava desembrulhada das coxas pra baixo. Ajeitei minha saia e puxei o lençol de volta rolando até ficar em outra parte da cama. Mas não sei o que aconteceu que eu acabei caindo de lá batendo minha cabeça com força no chão e meus braços também, fiquei lá mesmo pensando se levantava ou não de tanta raiva do meu próprio corpo que não soube perceber que estava do lado que jass costuma ficar na cama. Que merda...
-oque aconteceu? Você caiu?
Escutei sua voz e abri os bem devagar colocando minhas mãos sobre a testa tampando minha visão e respirei fundo antes de responder morrendo de raiva.
-não, eu gosto de me jogar no chão quando acordo
-ata... Eu pensei que tivesse caído
Gozou voltando a sua posição na cama puxando o lençol que eu trouxe comigo quando cair. Tive que levantar de lá arrumando meu cabelo e minha roupa esfregando meus olhos antes de voltar pra cama. Puxei o lençol dele e o apertei na minha mão pra ele não tentar me arrancar de novo, queria poder descansar mais um pouco. Pela claridade do dia pelas janelas, ainda está muito cedo.
Seu braço envolveu minha cintura e ele me cobriu mais ainda passando o lençol pelo meu braço e minhas costas que estavam descobertas, senti uma segurança e confiança estranha nele nesse momento. Como se fosse aquele jass que eu tinha acabado de conhecer e que eu podia chamar de amigo, eu queria poder ficar aqui pra sempre.
-não quer mais ir atrás da sua mãe?
Ai droga!
-merda me solta, eu tinha me esquecido!
Pedi levantando seu braço de cima de mim e me pus de pé rápido demais e minha cabeça girou e tive que me apoiar na cama de novo para recuperar o equilíbrio. Depois corri até o seu guarda roupas e procurei aquela blusa que estava ontem que acho que ele guardou aqui de novo. Achei!
-pra quê que eu fui falar? Você não passa mais tempo comigo
Parei e olhei pra ele com o braço enfiado pela metade na manga da blusa, fique observando sua expressão triste e quase pude ver que ele queria chorar. Mas eu não respondi nada e rolei os olhos fingindo falta de paciência com ele.
Não tenho tempo pra isso.
-oque eu tenho que resolver é uma coisa muito importante, e você trate de não me seguir
Falava caminhando para a porta arrumando a blusa no meu corpo e colocando o capuz, mas quando estendi a mão pra girar a maçaneta, eu tropecei e me segurei na porta antes de cair de cara no chão porque minha perna foi congelada e eu fiquei nessa posição até olhar pra ele vendo que ele tinha feito de propósito. Depois abri a porta lançando-lhe um olhar sério e agora sem paciência mesmo.
-fica?
Ele congelou meu corpo inteiro agora e eu fiquei o encarando com raiva porque ele era mais uma das interrupções que estavam no meu caminho me atrapalhando. E eu não queria deixar isso acontecer. Mas ele mesmo me soltou e olhou pra baixo fazendo uma expressão triste de cachorro sem dono, mas ignorei e arrumei meu capuz batendo a porta atrás de mim com um pouco de raiva enquanto marchava pela floresta. Sei que é arriscado demais andar pela cidade de dia, mas eu não quero esperar mais.

Uma garota sozinha na floresta Histórias para pegar e não largar. Descubra agora