Capítulo 3 - Pov Princesa
Complexo da Penha, Rio de Janeiro.
Quinta, 15:30.
— Mandou me chamar, pai? — Falo entrando na sala e indo até ele.
— Sim, como que foi lá na faculdade? — ele diz depositando um beijo na minha bochecha
— Finalmente acabou. — Deixo minha bolsa em cima da mesa — Não aguentava mais esse problema que tu me arrumou — Digo enquanto sento na cadeira na frente dele.
— Reza pra nunca cair e não ter que me agradecer por ter cela especial — diz ele apontando pra mim — Lembra que eu não vou estar aqui pra sempre, Lorena
Eu levanto a cabeça do celular que tava mexendo e olho pra ele. Meu pai começou com esses papos estranhos desde o ocorrido com o Tio Nanau, amigo dele das antigas.
— Para de ficar falando essas coisas ruins. — Franzo a testa e ele balança a cabeça.
— Tava falando com o Jogador agora, eles tão precisando que uma ajuda minha lá no Alemão.
— ele fala apoiando a mão na mesa a sua frente — Recrutaram uns novos pra contenção deles e tão querendo um homem bom pra treinar os moleques.
— Me chamou aqui porque vai mandar o Dedé? — questiono passando a mão no nariz por causa do cheiro de droga no ambiente.
— Na verdade, eu tava pensando em mandar você — ele diz me olhando e eu me surpreendo — Você é a melhor atiradora que eu conheço. — ele justifica.
— Beleza, se é isso que você precisa de mim agora — dou de ombros — Quanto tempo vou ficar lá?
Treinar vapor não é bem o que eu tava pensando pra minha vida pós faculdade. Eu sinto que to pronta pra assumir responsabilidades maiores, mas não vou ficar batendo cabeça. Vou lá e vou fazer bem pra caralho, depois eu volto pra ajudar meu pai.
— Pensei em 2 meses — ele fala e eu arregalo os olhos desviando o olhar dele — Filha, isso não é só um favor pra eles, vai ser bom pra você conhecer a rotina de outro morro e voltar de cabeça fresca pra eu te passar o comando.
— Passar o comando? — Volto a olhar pra ele com uma sobrancelha erguida.
— Quando você voltar, vou passar a focar só nos assuntos da facção, enquanto você toma conta do nosso morro.
— Maomé sabe disso?
— Ele não tem que opinar porra nenhuma. — Meu pai pega o copo que está em cima da mesa — Tu é minha herdeira— ele diz apontando pra mim com a mesma mão que segura o copo.
— Ok, e quando eu vou? — Pergunto relaxando na cadeira que estou sentada
— Sábado. — Ele pontua tomando um gole da bebida.
Fico mais um tempinho ali na sala do meu pai conversando sobre o movimento do morro. Eu e meu pai temos formas de pensar na gestão muito diferentes.
Tem alguns anos que não vejo o Sábio e o Jogador, desde que a Tia Daiane faleceu não temos mais contato, mas mesmo de longe eu admiro demais o comando do Sábio. O cara faz uma gestão muito segura, ninguém mexe com eles. Eu acho que vai ser um pouco estranho ficar no morro deles, a gente se conhece desde sempre, mas hoje em dia somos praticamente estranhos.
Decido ir pra casa tomar um banho, tirar meu look advogada e voltar pro meu estilo original. Quando saio da sala do meu pai percebo que a Cecília tá fazendo a contabilidade acompanhada pelo Lilico, gerente da boca.
— Oie — digo entrando na sala
Cecília tira o rosto do computador e sorri pra mim. Lilico mantém a postura séria, acena a cabeça e continua contando o lucro da semana.
— Podemos dizer que já temos uma advogada? — Pergunta Cecília empolgada
— Agora falta só pegar a carteira da ordem. — digo sentando na quina da mesa com a bolsa apoiada no ombro. — Falta muito aí pra acabar?
— Não — ela pega o dinheiro que o Lilico acabou de conferir — Falta só separar o pagamento de uma carga que vai chegar amanhã.
Cecília tá no 6 período de contabilidade, tem o estágio assinado por uma empresa lá na pista, mas trabalha mesmo é aqui na boca, monitorando tudo que entra e sai. Ela faz tudo meio escondido, os pais dela são pastores na igreja aqui do morro, então todo dia acham que ela sai pra trabalhar na Barra da Tijuca enquanto busca uma forma de sair da nossa comunidade.
A verdade é que, assim como pra mim, pra Cecília é difícil demais se encaixar em uma realidade diferente dessa.
— Tá liberado, Lilico — viro falando com o gerente do lado da minha amiga — eu termino de ajudar ela aqui.
Lilico levanta colocando o celular no suporte da bermuda e pega o fuzil no cantinho da sala.
— Valeu aí, Princesa — ele faz o toque comigo — Qualquer coisa só acionar.
Eu e Cecília acompanhamos ele até a porta com o olhar. Depois eu levanto e vou até a porta pra ver se ele saiu mesmo.
— Euem, ele tá com um mau humor do cão hoje. — ela ri
— Ele tá assim pelo toco que tu deu nele. — eu falo sentando na cadeira que ele deixou livre.
— Tô maluca de pegar trafica não — ela balança a cabeça negando
— Falou a funcionária da boca — Olho pra ela e caímos na gargalhada
— Imagina o almoço de domingo pós culto — ela para de contar o dinheiro um segundo e encosta na cadeira — Pastor Cláudio, Pastora Sônia, a contadora e o gerente da boca comendo macarronada. — ela volta a mexer no dinheiro.
Eu tento imaginar uma situação pior e falho miseravelmente. Dou um sorriso e depois volto a ficar séria.
— Que foi dessa cara aí você também? — ela questiona enquanto vai me dando o dinheiro da carga pra eu segurar.
— Vou ficar dois meses fora do morro — Falo enquanto vou passando o elástico a cada 1000 reais que ela me dá.
— Ih que isso, vai me abandonar por quê? — Ela levanta uma sobrancelha me olhando.
— Vou passar um tempo ajudando lá no alemão.
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Sonho dos crias [M]
FanfictionE fé no pai, sei Que todo mal contra mim vai cair por terra Nós gosta da paz, mas não fugimos da guerra Paz, justiça e liberdade, fé nas crianças da favela Eu vivo a vida e amanhã não me interessa Lorena, vulgo Princesa, tá terminando a faculdade d...
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