Capítulo 90 - Rita

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Capítulo 90 - Flashback - POV RITA

Complexo do Alemão, Janeiro de 1998.

Eu dançava no ritmo do MC Marcinho e sentia o suor escorrendo pelas minhas costas. O Bala, dono daqui do Complexo, tinha fechado um paredão de som pro baile e as meninas da escola me arrastaram pra cá, por ser meu aniversário de dezesseis anos.

Fazia dois meses que eu e minha mãe tínhamos chegado no morro, nós morávamos na Zona norte do rio mesmo, mas depois que meu pai meteu o pé ficou difícil para ela sustentar nós dua​​s na pista.

Lá​ pelas duas da manhã, uma mão cutucou meu ombro e eu sorri ao me virar ​dando de cara com a Daiane. Eu fazia unha pelo morro, pra ajudar minha mãe com as contas de casa, e a Dai era minha cliente.

- Feliz aniversário​ ​- ela sorriu e me abraçou, sem largar a mão do namorado que conversava com um outro cara, de costas pra gente.

- Obrigada - agradeci, prestando atenção nos olhos castanhos claros dela e os cabelos pretos enrolados, que brilhavam com as luzes do baile - Já sabe​ quando o bebê vai nascer? - Desço o olhar pra barriga dela - Essa barriguinha não para de crescer.

Daiane era mais velha que eu, já tinha um filho, um menininho muito fofo de dois ou três anos chamado Maurício. Morava com o pai das crianças, todo mundo chamava ele de Nanal, mas pra ela era Leo, e eu sabia que ele era importante no tráfico, tava sempre do lado do Bala​ e todo mundo respeitava.

- Março - ela sorri e acaricia a barriga de fora - Meu Mateus vai ser ariano - diz próximo ao meu ouvido pra eu conseguir entender.

- Apresenta não, Daiane? - o cara que conversava com o Nanal entrou no nosso diálogo e olhou pra mim.​

Ele era lindo, acho que era o cara mais lindo do baile todo. Eu conseguia ver as meninas que estudavam comigo se mordendo porque ele tava falando comigo, dando atenção pra mim.

- Ela é um bebe pra você, João - Daiane negou com a cabeça e o Nanau abraçou ela por trás, passando a mão na barriga dela.​

- To só sendo simpático - ele pegou a minha mão e passou o dedão, acariciando ela e me olhando nos olhos- Prazer, sou o Capitão.

- Rita - respondi com meu nome e ele se afastou, sem desfazer o contato visual comigo.

- Bora subir lá, Bala liberou o camarote pra nós - Nanal chamou, entrelaçando os dedos nos da Daiane.
- Vamo com a gente, hoje é seu aniversário, merece ser bem tratada - Daiane esticou a outra mão pra mim - Chama suas amigas.

Depois desse dia, eu passei a frequentar os lugares que eles iam. Minha mãe arrumou um emprego em São Paulo, teve que se mudar e não conseguiu me levar. Todo mês ela mandava um dinheirinho pra mim e eu complementava fazendo as unhas, ela foi uma boa mãe, não deixou faltar nada pra mim, mas eu acabei ficando muito solta pela favela.

Conforme a gravidez da Daiane evoluia, ela frequentava menos os bailes e encontros. O Nanal também aparecia pouco, tava sempre se dividindo entre o tráfico e a família, porque nesse meio tempo o Bala acabou sendo preso e deixando a responsabilidade toda pra ele.

Com as obrigações do Nanal, eu ia muito até a casa da Daiane, fazia companhia a ela e ajudava a cuidar do Maurício, que era calmo, mas dava trabalho como qualquer criança. Ela me contava os detalhes de como ficou com o marido e eu idealizava encontrar alguém que me amasse do jeito que os dois se amavam. Daiane tinha idade de ser minha irmã mais velha e tentava de todo jeito colocar juízo na minha mente​.

Mas eu tava na rua o tempo todo, não tinha nada que me segurasse em casa,​ ninguém​ me impôs limites, quando não tinha nada pra fazer no Alemão, eu arrumava um jeito de ir pra Penha. Sempre via o Capitão por lá, lindo como sempre e me dava a maior condição​, me levava em casa tarde da noite e me ouvia, dizia que entendia a falta que eu sentia da minha mãe, porque ele cresceu muito sozinho também.

Sonho dos crias [M]Onde histórias criam vida. Descubra agora