Capítulo 113

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Capítulo 113 — Lorena

Os dois dias em Cabo Frio foram bons pra colocar a minha cabeça no lugar e arrumar fôlego pra conseguir gerir dois complexos enquanto o Matheus tá viajando. Ele precisa que eu firme aqui, ele e o nosso filho precisam, então é o que eu vou fazer.

Encontrei com uma médica obstetra, e consegui ouvir o coração do bebê pela primeira vez. Acho que foi aí que a minha ficha caiu. Eu vou ser mãe. Foi incrível, a Cecília tava comigo, toda animada e fazendo ligação de vídeo com o Matheus. Era eu chorando aqui no Brasil e ele chorando no Paraguai, igual dois frouxos que somos.

A doutora tirou todas as minhas dúvidas, principalmente sobre o problema do fígado. Nós montamos um jeito de juntas fazer com que a gravidez seja leve e segura.

— Tem como você largar esse fuzil? — Dedé chegou do meu lado, enquanto eu olhava a movimentação no campinho na Penha.

— Eu to bem, cara — rebato rindo, porque é a milésima vez que ele me fala isso.

— Teu marido vai arrumar um jeito de me matar lá do Paraguai, se um desses fofoqueiros que ele colocou no teu pé abrir o bico que tu tá pegando peso — ele encosta na parede e olha pra alguns soldados do Alemão que estão aqui na Penha hoje — Não faz mal essa porra não?

— Mal faz eu ficar desarmada, Denilson — endireito o fuzil no braço — Já te falei, a médica disse que tá tudo normal, só não abusar.

Finjo que não ouvi a reclamação dele que veio em seguida. Jogador tá viajando, mas deixou os discípulos dele aqui, controlando cada passo. O rádio do Dedé toca do meu lado e eu volto minha atenção pra ele. Não entendo muito da conversa, mas ouço ele dizer que estamos indo pra boca.

— Acho que tu vai querer resolver isso — Me avisa, guardando o rádio na cintura.

— O que? — franzo a testa.

— Funcionário teu batendo na mulher.

(...)

Entro na salinha da boca, já livre do fuzil que deixei do lado de fora. Respiro fundo e passo o olhar pelo ambiente, encontrando uma menina de cabelo preto no ombro sentada, com copo na mão e cabeça baixa.

— Tira ele daqui — mando, quando vejo o soldado de pé, no meio da sala, e Concha obedece.

Reconheci o rosto dele, faz parte de um bonde que veio de outra comunidade pra fortalecer a Penha depois da tomada. No momento em que a Penha voltou pro domínio da facção, eu fui baleada e presa, então não estava aqui pra distinguir quem eu podia confiar ou não, por isso a mão de obra do movimento ficou enfraquecida, obrigando o Leão e o Jogador a procurarem apoio vindo de outros lugares.

— Deixa eu conversar com ela — olho pro Dedé e ele concorda, saindo da salinha.

Caminho até o sofázinho, agachando bem na frente dela. Foi impossível não pensar que, quando eu tiver um barrigão, esse movimento vai ser impossível.

— Você, eu não conheço — franzi o nariz chocado com as marcas no braço dela — E você, me conhece?

Ela levantou o olhar pela primeira vez e eu pude sentir a dor através dos olhos dela. Tinha medo ali, mas também tinha raiva. E eu entendi, sabia como era ser violentada por quem você ama, o contexto era bem diferente com o Capitão, entretanto eu acho que a dor é igual.

— Princesa — ela disse baixo e eu concordei.

— O pessoal me chama assim. Qual o seu nome? — pergunto, estudando mais as marcas que se estendiam até o rosto.

Sonho dos crias [M]Onde histórias criam vida. Descubra agora