Capítulo 87

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Capítulo 87 — Jogador

— Qual é o do papo, Pretinho? — chego perto dele, que me cumprimenta depois de trocar o baseado de mão.

— Se liga nessa parada aqui — diz, tirando o celular do bolso e me mostrando uma foto.

Pego do celular dele e dou zoom, vendo o filho da puta do Capitão sentado numa cadeira de bar, com uma mulher do lado dele e algumas garrafas de cerveja na mesa.

— Onde? — pergunto sem olhar pra ele.

— Nova Holanda — diz o que eu já tava imaginando.

— Fael tá arrumando ideia pra vida dele — balanço a cabeça, prestando atenção nos detalhes da foto.

Po, eu não tava no momento de invadir comunidade inimiga, acabei de assumir meu morro e ainda não consegui deixar tudo do jeito que eu quero, fora que tenho que ajudar o Leão na Penha, mas vou atropelar quem tiver entre eu e o Capitão.

— Quem mandou?

— Moleque lá da NH — Pretinho diz e eu olho pra ele, questionando — Tá querendo pular, mandou o papo que o Fael tá fora de si.

— Não gosto dessa porra — penso na conduta do cara, não me agrada traição não, provei desse veneno já — Qual é desse menor?

— Menor parece ser fechamento, mas tô palmeando tudo — Pretinho diz — Ele tem uma irmã, dezesseis anos, e o Fael tá querendo colocar ela no porte a todo custo, aí o cara quer sair da favela pra proteger a mina. Foi isso que ele me falou e já tô ligado que essa história é verdade.

Fael tem uma porrada de mulher e ainda quer arrumar mais na rua. Fora que essa parada de forçar mina a ficar contigo é feio pra caralho. Eu nasci tendo condição na favela, mas já tomei não também e segui o baile, porque isso não mata homem nenhum. Agora, uma porrada de mulher morre em favela aí por não querer ficar com os caras que tão de frente. Não aceito na minha favela, esses marmanjos devem tudo ser filhos de chocadeira. Eu não tenho irmã, mas penso logo na minha mãe.

— Quero mais fotos — entrego o celular pra ele — Mais foto, do dia a dia do filho da puta e o moleque vai ter lugar pra ir com a família dele.

— Vou passar a visão pra ele

Ouço meu rádio apitar com o Fiel avisando que a moto nova que comprei pra Lorena.

— Vai me falando. Não quero tomar nenhum atitude agora, mas deixa eles achar que tamo de bobeira, deixa achar, que quando ele menos pensar eu coloco um bonde inteiro pra enguiçar eles — digo pro Pretinho — Mandei o papo pro Fael daquela vez, falei pra ele não se meter nessa história que o Capitão é um filho da puta, ele não quis escutar, vai ficar fudido igual.

— Tô correndo atrás dessa história de polícia que tá fechando com o Capitão, tu pediu, mas tá difícil — diz e dá outro trago no baseado.

— Kekel falou umas paradas sobre os polícia que tão lá com a Princesa no hospital que tão martelando a minha mente — aponto pra minha cabeça.

— Ela ouviu alguma coisa? — ele questiona.

— Quando ela chegou, o assunto acabou, mas ela ouviu o cara citar o Capitão quando ela tava entrando no quarto — passo a mão no cavanhaque e com a outra, tiro a chave da moto do bolso.

— Tá mandado, ein, chefão? Citando o filho da puta pra que? — Pretinho franze a testa.

— Tô achando também — concordo — Vou meter o pé, qualquer parada, quero saber — faço toque de mão com ele e subo na moto.

Minutos depois já tô na porta de casa, estaciono e desço da moto, mas antes de entrar na garagem pra ver a moto nova, encontro a Samira no portão.

Olho pra cara do Fiel esperando ele me explicar o porquê dela tá sentada no portão da minha casa essa hora da noite.

— Tava explicando namoral pra dona aí que o patrão não tava em casa, mas ela fez questão de ficar — ele me olha nos olhos e eu já sei que alguma coisa deu errado.

— Tá precisando de alguma coisa, Samira? —encosto no muro e olho pra mulher — Voz dos meus soldados, são a minha voz.

— Não, Jogador, não era nada demais — ela levanta — Só vim ver como você tá, tá sozinho aí agora, sem ninguém, muito ruim essa vida que tu leva.

— Tava preocupada — rio —Tu já conheceu alguém tão preocupada com o próximo assim, Fiel? — pergunto pro meu soldado que ri também.

— Primeira vez, Patrão — diz segurando o fuzil.

— Manda o papo reto, Samira — cruzo os braços — Já tô ligado na tua maldade, até parar minha mulher no meio da rua tu já parou...

— Ela entendeu tudo errado e foi passar a história dela pra você — rebate e eu nego com a cabeça, só rindo mesmo, porque a filha da puta perdeu o juízo.

— Princesa não precisa me contar nada não, Samira. Ela é dona dessa porra aqui tanto quanto eu, tem permissão pra resolver da forma que ela achar melhor — digo, sem mover um músculo — só que o que mais tem nessa favela é olho e ouvido meu. Então eu quero saber que caralho tu tá fazendo sentada na porta da minha casa. É assunto o que tu quer? Quer que os outros passe aqui e veja tu sentada aí? Tá querendo ser motivo de fofoca com meu nome? — mantenho o tom e estreito os olhos — Tu é X9, Samira?

— Claro que não, Jogador! Eu nasci e fui criada aqui, sei muito bem o que acontece com X9 nessa favela, só tava preocupada com você e com a sua família — ela só responde o que convém.

— Tá querendo assunto então. Tá querendo pagar de amante e arrumar uma condição que eu não tô afim de te dar. Mas vou dar motivo pro assunto que tu tanto quer arrumar — descruzo os braços e olho pro Fiel — Pode mandar passar a zero, tá perturbando meu juízo já, tem otario aqui não.

— Que isso? Eu tenho filho, sou direita — ela abre bem os olhos, assustada, e passa a mão nos fios de cabelo — Te juro, Jogador, eu só entendi errado, achei que tu tava me notando.

— Te notei, po. Tô dando o que tu tanto quer, atenção. É pra deixar carequinha, Fiel — entro na garagem, ouvindo os gritos dela do lado de fora, mas não dou atenção.

Tô cheio de problema na cabeça, minha mulher internada, dois morros pra administrar, caçando o filho da puta do meu sogro e padrinho que quer me matar... Não vou ficar agindo na paciência com mulher no meu pé.

Eu mesmo já tinha cortado essa aproximação dela, depois que me passaram a visão que ela tinha atravessado o caminho da Lorena, minha paciência zerou.

Eu sou bom pra caralho quando posso, mas não sou otário, nem moleque, sou bandido e se a violência for o único caminho pra conquistar respeito, vai ser dessa forma mermo.

Sonho dos crias [M]Onde histórias criam vida. Descubra agora