Capítulo 53

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Capítulo 53 – Lorena

Fazem três dias da morte do Sábio. Ontem foi o enterro, mas eu não fui. Matheus se mantém distante de mim agora e eu entendo, tá difícil de arrumar coragem de olhar pra cara dele e da Laís. Não é hipocrisia,​ todo mundo sabe o destino do tráfico, mas o jeito que foi deixa essa história intragável.

Tudo o que eu faço agora é tentar entender como tudo isso aconteceu, porque sei que eu fui uma peça no jogo do meu pai. ​Não tivemos mais contatos desde que eu liguei pra ele mandando recuar, caíram alguns vídeos na internet dizendo que ele ia me cobrar pela morte do BW, mas não to preocupada com isso, o traidor aqui é ele​.

Tenho mantido mais contato com o Pikachu, ele entende a culpa que eu sinto e nós estamos repassando tudo, desde antes de eu pisar aqui no Alemão. Algo nos fez estar fora da favela quando a operação aconteceu. Então, p​ra mim, a prisão do Pikachu foi proposital, Raquel tá envolvida e eu vou atrás disso.

Dom veio aqui pra favela hoje, mandou mensagem dizendo que quer conversar comigo e eu to esperando. Não sei exatamente qual vai ser o tom da conversa, só sei que é impossivel não me sentir a pessoa mais idiota do mundo, é um ódio tão grande que eu sinto. Hoje entendo cada palavra que o Dom me disse naquele baile. É fato que meu pai percebeu minha capacidade e fez de tudo pra eu parar de crescer no crime quando viu que eu poderia me tornar maior do que ele é.

Ainda tem Cecília e Dedé nessa história toda. Nós somos cria da Penha e a Penha traiu não só o Alemão e um irmandade de anos, mas traiu também a facção inteira. Quem vai acreditar que nós fomos tão enganados quanto o resto? Dedé tá voltando no paraguai de carro, viagem de dias, sem nem saber como vai ser quando chegar.

Queria ver o Matheus, estar do lado dele, ser a porra de uma namorada normal.

— O tal do Dom tá aí na sala, falou que tu tava esperando ele — Cecília diz da porta do meu quarto e eu levanto da cama — Eu tava pensando, será que o Capitão fez meus pais descobrirem que eu tava trabalhando pra ele? Tipo, pra conseguir me afastar também.

— Duvido nada, Ceci — passo a mão no rosto enquanto calço o chinelo. ​

Saio do quarto e ando até a sala, Dom tá sentado sozinho mexendo nos anéis e me olha. Eu sento do lado dele, da mesma forma como foi naquele baile que nos conhecemos.

— Qual foi o papo que eu te passei daquela vez? — ele me pergunta sem dizer oi, sério e me olhando — Falei pra tu pegar a porra do comando, falei que teu pai tava na sacanagem contigo e que pra eu me emputecer com ele faltava pouco. Tu me ouviu? Não ouviu e olha a merda que aconteceu agora.

— Tu tem família, Dom? — questiono engolindo seco, me controlando pra não chorar e parecer uma fraca na frente do meu chefe — Tu desconfia da pessoa que te criou​, te deu amor e te ensinou tudo o que tu sabe? Desconfia?

— Eu te alertei, Princesa. Te falei: "Tu é fechamento, mas teu pai tá de vacilação​"​. O que eu faço contigo agora?

— E eu desconfiei de você e não do filho da puta do meu pai — meu nariz pinica e eu passo a mão — Se tu quiser me cobrar pela ingenuidade, por ter colaborado indiretamente nos baques que ele deu, tu vai tá no teu direito, mas não vou aceitar ser cobrada por uma traição, porque eu sou leal — bato no peito pra dizer — levei a maior facada nas costas de toda a minha vida e ainda to aqui, na tua frente, pra dizer que tu pode me cobrar por uma ingenuidade da minha parte, mas não por deslealdade.

— Tem ninguém duvidando da sua lealdade não — ele nega com a cabeça.

— Lógico que tem, Dom — balanco a cabeca agoniada — Difícil vai ser alguém que confie em mim.

Sonho dos crias [M]Onde histórias criam vida. Descubra agora