Capítulo 93

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Capítulo 93 — Lorena

Ouço a porta do banheiro trancar e olho pra fora do quarto, mas o corredor está completamente vazio. Parece um hospital fantasma. Logo após os primeiros tiros, as pessoas correram pra fora dessa ala.

— Como vamos sair? — pergunto já no corredor, com a arma em punho.

— Vamos atravessar a enfermaria, deixei uma bolsa com radinho lá no balcão, depois vamos descer pela escada de emergência e sair por lá — Kemilly responde correndo.

— Sai da janela, Rapunzel — Peço porque a vejo próximo ao vidro que mostra a parte da frente do hospital.

— Eles estão subindo pela frente — se refere a segurança do hospital e policiais.

— Vamos sair por trás — Kemilly pega o rádio de dentro da bolsa e voltamos a correr em direção à escada.

Sinto o vento gelado dos ar condicionados baterem no meu corpo, protegido apenas por aquela camisola fininha. Meus pelos se arrepiam.

— 01, na escuta? — ouço ela dizer no rádio — Vamos pras escadas.

Rádio: Copiado, vamo começar daqui — estremeço por causa daquela voz, a que era a minha favorita.

— Começar o que? — pergunto, ainda andando rápido.

— Eles vão fazer uma bagunça lá na frente enquanto a gente sai por trás — Cecília responde, focada em olhar pros lados.

Nós alcançamos a porta corta-fogo e o número três pintado nela indica que estamos no terceiro andar.

Kemilly abre a porta, nós entramos e ouvimos duas vozes nos lances de escada a baixo. Paro, encostando na parede, logo na curva que divide o terceiro e o quarto lance.

Procuro controlar minha respiração e faço sinal de silêncio para que não nos escutem. Espero eles darem mais dois passos. Vejo a ponta do fuzil aparecer e me coloco à frente del​es, acertando um tiro na testa de cada um, antes que eles nos vissem. Os caras tão de fuzil, nós estamos de pistola, o nível de loucura é muito grande. Só tem um jeito de dar certo, sem machucar ninguém: perfeição.

Depois que eu falhei em atirar no Capitão, essa é a primeira vez que pego numa arma novamente e não vou aceitar errar outra vez. Aquela foi minha cota da vida inteira, nunca mais vou deixar alguém se ferir por erro meu, nem eu, nem ninguém.

— Vamos descer mais rápido. Você consegue? — Kemilly pergunta, tomando a frente, e eu concordo — cobre as nossas costas, Rapunzel.

A adrenalina está alta, então eu consigo fazer coisas impensáveis para uma pessoa que esteve entre a vida e a morte no último mês.

Enquanto estamos descendo, começo a ouvir uma troca intensa de tiros do lado de fora do hospital.. Imagino que seja a tropa do Jogador, isso faz meu coração acelerar e eu me sinto viva novamente.

A guerra é o ápice da existência, em nenhum outro momento a vida é tão importante.

A descida até o final da escada é rápida, mas atravessar a porta se torna missão impossível quando eu abro e dou de cara com quatro PMs de fuzil. Recuo um pouco, mas acerto o braço de um, mesmo que a briga continue desleal.

— Bora, Princesinha, se entrega, caralho — um homem grita e eu sinto as minhas mãos suarem — Teu cerco está fechado, em dois minutos vai ter polícia descendo a escada. Sai dessa porra logo e a gente conversa.

—Não sai — Kemilly ordena baixo, porém firme — A ajuda tá vindo, não sai.

— A gente precisa ganhar tempo — Digo e coloco só​​ o rosto pra fora. Reconheço uma policial que fez minha segurança lá no quarto dias atrás ​e retorno a me proteger, antes que o tiro venha — Policial Daniela, minhas amigas fizeram um favorzão pra você — grito, para ela ouvir — O Guimarães não vai olhar mais pra sua bunda, agora você pode largar seu posto pra tomar um cafézinho em paz, sem ser assediada.

— Você tá em desvantagem, Lorena, não é um bom momento para usar o seu deboche — presto atenção nas palavras dela, mas olho pra Kemilly, que tenta contato via celular com os nossos — Bora, bota a cara logo, você não é fodona?

— Não sou burra, sei que dessa vez, se eu cair, não vou pra cadeia, vou para ​​o cemitério — mantenho o diálogo​, nervosa, porque sei que eles estão dando passos lentos em direção a porta.

— Achei que tu era mais disposição, pelo o que o povo fala — olho pra Cecília, ela respira fundo, encostada do outro do batente da porta, e depois pra Kemilly, digitando no celular.

— Você não faz ideia do que eu sou. Vou te dar a oportunidade de recuar, diz pro teu superior que eu sumi. É isso ou nã​o vai ter nenhum de vocês pra prestar depoimento sobr​​e a minha fuga mais tarde.

— Tu vai se fuder, sua piranha — um terceiro homem grita.

— Pra que o xingamento? Com esse tempinho de conversa eu já consegui estressar vocês? — pergunto​, ainda encostada na parede, sem fazer contato visual com eles.

— Tem ninguém estressado aqui nã​o​, loirinha, mas tá geral querendo voltar pra casa, sai dessa porra, seja mulher, vamos acabar com isso — um homem diz, mas não reconheco a voz.

— Dani — chamo a policial — diz pra ele que eu não gosto que me chamem de loirinha, fico sensível.

— É o Jogador — um dos caras fala por cima do som dos tiro que estão cada vez mais próximos.'​

— Não fala o nome dele — coloco a cara, dando dois tiros, eles atingem o peito e o braço do cara.

Mas, eu entendo, naquele momento, que ele não estava constatando que eu não gostava de ser chamada de loirinha por causa do Jogador. Ele disse aquele nome porque o Matheus estava chegando e mandando tiro pra dentro dos babacas.

Matheus me vê, nossos olhares se cruzaram e o meu coração ficou espremidinho.

A bandoleira do fuzil atravessa seu peito, a testa franzida revela a tensão do momento e os olhos mel me causam calma e tristeza, na mesma medida. Minha relação com ele sempre foi assim, uma dicotomia de sentimentos.

Acho que eu só percebi o quanto estou magoada com ele aqui e agora, cara a cara.

— Vamos, amiga — Cecília me​ tira do transe e me puxa pelo braço.
 
Olho para o lado e vejo Leão e Chocolate, logo atrás do Matheus, trocando tiro com os policiais.​

— Mas eles...

— Eles vêm atrás — Kemilly grita e saímos correndo, tentando desviar dos estilhacos e tiros.

Divido minha atenção entre o caminho que tenho pela frente até a porta dos fundos e o confronto atrás de mim. Um dos policiais percebe que estamos fugindo e tenta virar para a nossa direção, sem ficar vulnerável, mas num descuido, Matheus atira de fuzil, explodindo a cabeça do cara.

Ele me olha de novo, dessa vez consegue ter uma visão completa do meu corpo e, em segundos, parece estudar meus detalhes pra se certificar que não falta nenhum pedaço de mim.

Cecília é a primeira a alcançar o lado de fora do hospital, eu não olho novamente pra trás, porque sei que ele está protegendo a minha retaguarda. Sinto meus pés doerem, acho que pisei em algum caco de vidro, mas não paro de correr.​

— Você vai naquele — Kemilly aponta pro carro prata e eu vejo Pretinho no volante, enquanto corremos.

— Vocês vão separadas de mim por quê? — pergunto, ofegante.

— Lorena, só segue a porra do noso plano — Cecília grita, meio desesperada e estressada, entrando num carro preto logo a frente.

Eu obedeco.

Sonho dos crias [M]Onde histórias criam vida. Descubra agora