Capítulo 59 — Lorena
Desmonto a M4 e olho as partes em cima da mesa. Depois que saí do barraco, fui pessoalmente falar com os pais da Raquel. Seu João tem um mercadinho aqui no morro, batalhou a beça pra sustentar a esposa e a filha.
Pra mim não é fácil tirar a vida de alguém que eu tenho plena compreensão de quem seja. Eu sei que ela no meu lugar, faria até pior comigo, mas minha mente não tá lidando bem com tudo isso. A morte do BW e da Raquel pesam na minha consciência.
Pode parecer hipocrisia me solidarizar com a dor dos pais quando eu quem matei a filha deles, mas eu sinto esse peso. Fico pensando se eu sou realmente o monstro que ela disse que eu sou. Porque se eu for, tenho que aprender a lidar com isso.
Peço que Deus me perdoe, mas essa é a única forma que eu sei de me proteger e proteger o meus. Eu tive oportunidade escolher outra vida pra mim, mas a minha realidade atual tá totalmente distante do Direito, medida protetiva e embasamento jurídico não vão me proteger da crueldade do meu próprio pai, só bala mesmo.
Monto pela quarta vez essa mesma arma na minha frente. Faço isso pra tentar concentrar a minha mente em alguma coisa que não seja o inferno que está assombrando minha cabeça.
Coloco a M4 no lugar que eu peguei e passo o olhar pelas outras armas no barraco. O Sábio deixou uma herança muito maior do que eu imagino que tenha na Penha, a missão do Dedé no Paraguai foi interrompida e a compra que meu pai pretendia fazer não deu certo quando os fornecedores souberam que ele tinha pulado. Nosso principal homem de carga é o Leão, mas ninguém queria fazer negócio com um desertor.
Concha abre a porta do barraco e me olha com a testa franzida, percebo um fuzil nas costas dele e dou um sorriso discreto.
— Eai, como foi lá na boca? — eu pergunto.
— Tô no bonde do chefe agora. Eu, Hugo e Mtzinho.
— Ah, meus bebezinhos tão crescendo — digo alargando meu sorriso — Com grandes poderes vem grandes responsabilidades.
— Ih qual foi, chefona? Fala isso não que sempre quem fala isso no Homem Aranha morre— eu rio feliz porque ele pegou a referência.
— Qual o problema? — ele permanece sério, diferente do que ele é normalmente — Veio aqui me chamar?
— Vim — ele coça a cabeça — Po, Patrão ouviu umas conversas do teu pai aí, ficou de cabeça quente, bebeu umas e agora ninguém consegue segurar o cara em casa.
— Vocês são frouxos, porra. Seis caras não conseguem segurar um?
— O chefão parece um tanque, Patroa
Pego a minha Glock em cima da mesa e vou saindo do barraco até a minha moto, cumprimento os seguranças do barraco e saio rumo a casa do Jogador.
Chocolate respira fundo quando me vê e eu nego com a cabeça pra ele.
— O que foi que o Capitão disse? — Pergunto pro Chocolate, mas olhando o Pretinho na porta tentando convencer o Matheus no papo.
— Melhor nem repetir, depois tu ouve.
Ando até a porta e o Matheus dá dois passos pra trás, eu passo pelo Pretinho, entro e bato a porta, cruzando os braços. Analiso ele por uns três segundo, os olhos estão vermelhos e o rosto tá diferente. Ele tá bêbado, provavelmente Capitão tocou na ferida.
— Amor — chego devagar mais perto dele — tá fazendo o que?
— Tô indo na Penha dar um tiro na cara do fodido do seu pai — ele aponta pra fora e diz puto — O Filha da puta te chamou de piranha, xingou minha mãe de vagabunda e tirou meu pai pra merda, porra. Se eu não for lá dar o pau que ele merece, eu sou um otário mermo. Não fica dizendo que eu sou moleque? Eu vou estourar a cara dele pra provar que eu sou homem pra caralho.
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Sonho dos crias [M]
FanfictionE fé no pai, sei Que todo mal contra mim vai cair por terra Nós gosta da paz, mas não fugimos da guerra Paz, justiça e liberdade, fé nas crianças da favela Eu vivo a vida e amanhã não me interessa Lorena, vulgo Princesa, tá terminando a faculdade d...
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