Capítulo 110 — Jogador
— O que é isso? — pergunto, olhando o sapato minúsculo dentro da caixinha
— Um sapatinho de bebê do Fluminense — encolhe os ombros.
Meu mundo para e meu coração bate acelerado. Tento pensar no porquê ela estaria me dando um sapatinho de neném, se não fosse porque estamos esperando um.
— Tá de sacanagem? — Meu olho arde e meu peito dói, de amor. Eu nem tava ligado que amar dói — Eu vou ser pai?
— Vai. Você vai ser pai — ela passa a mão no nariz avermelhado e a minha ficha cai quando as palavras saem da boca da mulher da minha vida.
Um bebê metade eu e metade ela.
— Caralho, eu vou ser pai — viro o corpo dela de frente pro meu, aprendendo no meu colo e choro. — Puta que pariu, eu vou ser pai. Nós vamos ter um bebê.
É a sensação mais inexplicável e forte que já senti. O misto de todos os melhores sentimentos dentro de mim e um medo do caralho.
Vim de uma família pica e quero que uma mais foda ainda saia de mim, esse é o meu sonho e sempre foi. Dinheiro, poder, comando... Nada disso nunca chegou aos pés da minha vontade de ser pai.
E mesmo assim, nunca pensei que fosse me sentir tão completo de novo, porque quem eu mais amava não tá mais aqui do meu lado, mas a Lorena mudou tudo, tudo pra melhor.
— Vamos ter um bebê, amor — diz, chorando junto comigo.
— Obrigado — respiro sentindo o cheiro dela no pescoço já molhado pelas minhas lágrimas — Obrigado por me escolher, obrigado por ter voltado, obrigado por me dar um filho. Caralho, tu tá me dando um filho, tem noção da ligação que a gente tem agora? — Levanto a cabeça pra olhar nos olhos dela — Nós é pra sempre, família. É a porra do meu maior sonho, tu tá realizando o meu maior sonho.
— Só podia ser você — ela passa a mão no meu rosto e eu aliso a barriga que vai crescer nos próximos meses.
Moleque, só passa minha cabeça mil formas dela grávida, toda linda, carregando o meu filho. Não tem jeito disso não ser perfeito.
— Te escolhi e te escolheria mil vezes — diz e eu beijo as mãos dela — Eu não sei nada sobre ter família, não sei o que é ser ou ter uma boa mãe, mas você sabe e eu preciso que você me ensine a construir uma família e a manter ela bem, segura, feliz e amada — chora, preocupada e eu entendo.
Lorena não é igual a mim. Eu tive pais fodas, que dentro das limitações deles, me deram o melhor. Ela tem uma mãe que precisou abandonar ela e o pai mais filho da puta do mundo. Eu entendo ela estar com medo.
— Você vai ser a melhor mãe do mundo, porque você é incrível — seguro o rosto dela com a duas mãos — Você é a mulher mais perfeita que eu poderia ter encontrado pra ser a mãe dos meus filhos, você é uma amiga foda, uma namorada foda, uma instrutora foda... Só ver o quanto esses moleques aí fora te admiram — aponto pra janela — Kemilly falta beijar o chão que tu pisa, Concha e Pit a mesma coisa.
— Mas é diferente, não é igual ensinar a pegar numa arma, tem que educar, formar como pessoa — ela nega com a cabeça — Eu não tenho capacidade pra isso, eu não tenho essas referência.
— Não é verdade, linda — Limpo as lágrimas que escorrem no rosto de Princesa dela — Você não ensinou só a trocar tiro... Ensinou a ter responsabilidade, lealdade, postura, visão... E você é a porra da ídola deles, mesmo com as cobranças, com os esporros. Concha é a prova viva dessa parada, tu ouviu o moleque, deu carinho, deu limite, coisa que ele nunca teve... Tu vai ser uma boa mãe, a mais gostosa na reunião de pais — aperto a bunda gostosa dela e ela ri.
— Os outros pais vão adorar uma bandida procurada como mãe do amiguinho dos filhos deles— ela solta uma risada gostosa e joga a cabeça pra trás.
Essa cena me causa um alívio do caralho... Tudo o que eu quero é ela feliz com essa gravidez, o resto eu corro atrás, viro o mundo de cabeça pra baixo pra fazer as coisas funcionarem.
Eu sou feliz pra caralho quando ela ri pra mim e já consigo imaginar ela rindo com o nosso filho no colo.
— Vai ter terror nenhum. Nós vamos ser os pais mais picas, trabalho de escola vai ser só na nossa casa — beijo o pescoço e o rosto dela — Eu vou ser pai, caralho. É o herdeiro do nosso império — Levanto no impulso com ela no colo.
— Fala baixo — tenta tapar a minha boca, rindo — Ninguém pode saber, Matheus. Por enquanto é perigoso.
— Lorena, agora muda tudo, eu vou colocar a porra desse mundo abaixo pelo meu filho. Ninguém vai chegar nem perto dele — Coloco ela no chão e ajoelho na sua frente, ficando cara a cara com a barriga.
— Não dá pra proteger de tudo, você sabe. Nós dois somos o crime, foi irresponsabilidade nossa engravidar agora, tá tudo bagunçado ainda — ouço ela dizer, enquanto fecho os olhos e encosto a minha testa na barriga dela.
É o meu bebê que tá aqui dentro. Faz cinco minutos que eu sei da existência dele ou dela e já amo mais a vida dele do que a minha.
— Se for preciso eu construo uma fortaleza ao redor de vocês, mas a nossa vida vai ser boa, vai ser feliz e vai ser longa — digo baixo, mentalizando o que quero pra nós — Deus é quem sabe a hora e se ele mandou é porque tá nos planos dele — beijo sua pele macia.
— Te amo — passa a mão no meu cabelo e eu levanto, passando a mão por dentro do cabelo dela.
Dou um selinho na boca linda e vermelhinha, depois aprofundo o beijo. Minha língua explora a boca com um gostinho refrescante.
— Você é a mulher da minha vida. Tu vai casar comigo e geral vai saber que somos o casal mais foda que o Rio de Janeiro já conheceu — ela me olha de novo — Olha pra mim, tá ligada que tudo o que eu aviso que vou fazer, eu faço, né?
— Eu arrumei um pai convencido pro meu filho — revira os olhos, toda engraçadinha.
Caralho, como eu amo essa mulher...
— Te mandei o papo de que eu sou Jogador e se eu chuto pro gol, eu acerto, porra — implico mais um pouco e ela gargalha — Mas se liga, tô te dando a minha palavra que nós não vamos cair pra nenhum dos dois destinos que tamo acostumado nessa vida. Tô te dando a minha palavra que não vamos cair, vamos criar nosso filho na melhor das estruturas, juntos e bem.
— Tem um monte de filho da puta aí fora querendo nos derrubar, tem gente que tá anos-luz na nossa frente — ela me olha e com toda a sinceridade do mundo, expõe os medos que ela tem. Eu amo isso, porque a intimidade que a gente tem é fora do comum — Nós estamos começando ainda, não era a hora, amor.
— Tem razão, po. Vai ser difícil pra caralho, não vai ter vida fácil e vai depender de disposição e correria. Nós dois dando o nosso máximo pra fazer funcionar. Não tô te prometendo vida fácil, tô te prometendo que vamos vencer, independente da dificuldade. Confia no teu marido, porra.
— Agora vai se achar no direito de se intitular meu marido — remunga, toda perfeita, me fazendo feliz pra caralho.
— Teu marido e pai do teu filho. Quis ficar longe de mim, te peguei de jeito e te meti logo um filho. Vai ser minha, sim. Quero que se foda — ela tenta segurar o riso, mas não consegue e eu sorrio com o jeito dela — Tá de quanto tempo, sabe? Tu descobriu como? Caralho, eu tenho tanta pergunta.
— Na UPA, naquele dia do desmaio, a doutora disse que estava com cinco semanas, exatamente quando a Daiane nasceu — sorri — Eu tô em negação até agora... Não acredito que vou ser mãe. Mãe, Matheus. Tem noção disso? Eu não sei nem por onde começar... O que a gente faz agora?
— Também não sei, mas a gente vai descobrir. Só sei que agora não existe mais decisão minha, nem decisão sua... Qualquer decisão agora precisa ser nossa, pensando no nosso filho — respondo.
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Sonho dos crias [M]
FanfictionE fé no pai, sei Que todo mal contra mim vai cair por terra Nós gosta da paz, mas não fugimos da guerra Paz, justiça e liberdade, fé nas crianças da favela Eu vivo a vida e amanhã não me interessa Lorena, vulgo Princesa, tá terminando a faculdade d...
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