Capítulo 84

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Capítulo 84 — Jogador

— Eu não tenho o que fazer mais, no momento, tudo o que eu podia fazer pelo senhor Denilson está feito, mas o depoimento dos policiais vai ter um peso forte na decisão do juiz — a doutora diz, enquanto eu vejo pelo celular a foto da minha sobrinha na ultra que a Laís me mandou — o delegado deu o flagrante e o Juiz optou pela prisão preventiva.

— Qual teu nome mesmo? — Desvio minha atenção do celular pra mulher morena na minha frente e o Dom me encara.

— Talita — ela diz, endireitando a postura, para perceber meu tom sério e eu acendo um baseado.

— Doutora Talita, pelo valor que a facção tá pagando pro seu escritório — aponto pra ela, usando a mesma mão que seguro o baseado — não vai adiantar me mandar papinho de que já fez o que podia e os caralho, acabou de falar aí que vai depender dos verme, então é neles que nos vai. Nós bota o bonde na pista e atropela quem tiver na frente.

— Assim o senhor vai piorar um milhão de vezes o julgamento, vão saber que o Denilson é peça importante pra vocês — ela diz segurando a bolsa e me olhando nos olhos.

Irmão, parece gastação o nível de pica que eu tenho pra resolver. Minha mulher mal e longe de mim, mas não posso abandonar o Dedé que é irmão e caiu na intenção de proteger ela.

Coloco a porra da cabeça pra funcionar, mas não vem solução pra nenhum dos problemas. Minha cara tá na porra de todos os jornais e eu nao posso tem pensar em colocar a cara pra fora do morro por agora.

— Vai atrás dos polícia então, vê quanto que vale o silêncio deles — dou mais um trago —  sei lá, qualquer parada que te ajude a fechar uma pena boa pro mano.

— Tu vai ter que arrumar um jeito, doutora — Dom diz, pela primeira vez desde que entrou nessa sala. Tô ligado que ele também não sabe o que fazer, por isso não fala nada.

— E minha mulher? — pergunto com uma saudade fodida no peito.

Papo reto, só Deus sabe o que eu sofri sem ela ​nessa última semana​​. Tô acostumado a ter ela ali, colocando minha cabeça no lugar, e é difícil pra caralho ficar focado em ver ela bem, sem ela aqui.

— Vai ser muito dificil, Jogador, quero te deixar ciente da gravidade das acusações que envolvem a Lorena, inclusive o assassinato de um policial — diz e eu já sei que ela tá falando do arrombado do Mendonça — testemunha reconheceu você e ela.

— A recepcionista — falo o óbvio e ela concorda, enquando eu troco olhares com o Dom.

— Vou trabalhar toda a defesa baseada numa possível coação por parte do Capitão para que ela desempenhasse funções relacionadas ao tráfico, apelar pro diploma da Lorena e pra representação dela no caso do Marlon, mas vai ser dificil o júri engolir isso, porque as provas são muitas, o Capitão não entregou apenas as fotos, foi um dossiê completo, Jogador  — diz e eu encho meu pulmão de ar, depois solto devagar, imaginando as formas que eu vou poder matar o Capitão quando isso tudo acabar.

É imoral como alguém pode ser tão filho da puta assim. Caralho, se eu amo meus sobrinhos pra caralho, mato e morro por eles, não imagino o amor que vou sentir quando eu tiver um filho.

Eu já sabia que a vaidade de um homem pode fazer ele agir contra quem correu do lado dele a vida inteira, mas ver alguém fazendo de tudo pra acabar com a vida da própria filha é a pior coisa que o mundo do crime já me apresentou.

— Vou entrar em contato com vocês nos próximos dias pra dizer se teve alguma evolução no processo de visitação hospitalar para a Lorena — A advogada diz e eu passo a mão no rosto, concordando.

Observo ela sair da sala, enquanto Dom gira o anel no dedo mindinho.

— Tá ligado​ que eu não vou deixar ela ser presa, né? E nem vem pedir caralho de calma nenhuma não.

— Tô ligado — ele desvia o olhar de mim e bate com os dedos na mesa — Só que ela tá precisando de cuidado de saúde, po. Melhor presa do que outro destino.

Papo reto, nem cogito essa possibilidade, não tem a menor condição de eu perder outra pessoa importante na vida.

— O que tá fudendo tudo é o filho da puta do Capitão dando informação pra caralho pra polícia, duvido nada daqui a pouco bater uma operação aqui.

— Sei não, tamo muito forte — Dom nega com a cabeça, mas sabe que existe a possibilidade.

— Preparado nós tá pra caralho, disposição não falta, mas pra eles, se cair um ou dois do nosso lado, já lucro — digo, passando a mão nos meus cordões.

— To colocando uma tropa na pista pra ir atrás do filha da puta que tá intermediando essa parada, essas informações já estavam no gatilho pra quando a gente invadisse — ele diz, acendendo mais um baseado, já perdi a conta de quantos foram desde que a gente começou essa conversa.

— Vai adianta porra nenhuma — coloco Whsikey no copo que tá na minha frente — Eu matei o Mendonca, BW matou o filho da puta do Rodrigues, Lorena passou o BW, Raquel e Maomé, mas a gente continua se fudendo mais e mais. Essa putaria só vai acabar quando alguém plantar uma bala no meio da testa do Capitão — dou um gole da bebida e sinto ela descer queimando minha garganta.

— O que me deixa puto é que nós chegamos perto — ele diz e pega a garrafa, enchendo o copo dele também.

—- Mas eu te mandei o papo, já tava ligado que ela ia falhar, conheço a mulher que eu tenho — ele ri.

— Esse tá quase virando teu bordão — diz e eu rio também — o que não muda eu ter achado  uma péssima ideia tu ter trancado ela desde o ínicio.

— Ela é foda pra caralho e eu não duvidaria da capacidade dela em acabar com aquele velho, mas ela me pediu, Dom. Mais de uma vez ela me falou que não queria ser ela a matar ele. Lorena é fora de série como atiradora, eu sou bom traficando e ela é boa matando, nós se completa, o que eu já vi essa mulher fazer é sacanagem, salvou minha vida e os caralhos, mas ela é humana, porra, ninguém ia querer fazer uma merda dessa — olho nos olhos dele e ele assente, porque sabe que eu tô certo.

— Ela vai te esculachar pra caralho quando voltar.

— Vai esculachar tu também — aponto pra ele — Tu foi conivente. Bom pra mim, tô doido pra amizade entre vocês acabar mesmo.

— Tu é doente, caralho — ele ri e nega com a cabeca — Quero tua mulher não, porra​​, não mais — A última parte da frase não me surpreende. Que ele tinha maldade nela antes eu já tava​ ligado, já falei que um homem conhece a maldade do outro e ela é perfeita, quem não teve, por um segundo que seja, maldade nela ou é bem casado ou é maluco.

Ouço alguém bater na porta e mando entrar. Kemily aparece pela fresta, segurando um fuzil na frente do corpo.

— Manda o papo, Kekel — olho pro Dom e depois pra ela.

— Queria conversar contigo, tive uma ideia — diz, abrindo um pouco mais a porta.
 

Sonho dos crias [M]Onde histórias criam vida. Descubra agora