Capítulo 6

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Capítulo 6 - Pov Jogador
Complexo do Alemão, Rio de janeiro
Sexta-feira

Ontem, depois que deixei o Lucas em casa, fui pro bar beber uma com os fiéis. Acabei chegando em casa lá pras 3h da manhã, mesmo tendo que acordar hoje às 6 horas pra ir pra boca.

— Qual tua idade, menor? – eu pergunto pro moleque que tá na minha frente.

— 18 — ele diz de pé com as mãos pra trás.

— E tá querendo essa oportunidade por que? Tu tá ligado que quanto mais tu sobe, maior é o tombo. — eu aponto pra ele com a mão que to segurando o baseado.

— Minha responsabilidade cuidar da minha coroa.  Não to iludido, to ciente da responsa que é tá no bonde de vocês. — Eu estreito os olhos pra ele, gostei da postura.

— Beleza, segunda começam os treinamentos — eu chego perto dele e aponto pro peito — Tô te dando essa oportunidade, tua conduta que vai mostrar se tu honra o bonde. Eu só cobro duas paradas: disciplina e lealdade.

— Eu não vou te decepcionar — ele diz olhando nos meus olhos e eu aceno com a cabeça indicando que ele tava liberado.

A manhã foi tranquila, comecei a recrutar uns vapor pro treinamento com a Princesa, isso vai dar um gás foda pra tropa. Sábio confia em mim pro recrutamento justamente por eu ser chato pra caralho com quem entra. Eu conversei com cada um, porque ganhar poder é foda pra caralho, é sinônimo de dinheiro e mulher, tudo que esses moleques querem. Mas toda essa visibilidade traz um peso, quanto mais você sobe, mais preso à favela tu fica, mais desgosto tu da pra tua família.

Mulher dessas da rua não vão pagar cadeia se tu cair, então não quero ninguém iludido trabalhando aqui. Pra entrar na tropa do Sábio tem que tá com a cabeça muito certo do proceder, pra depois não vir mãe bater na nossa porta dizendo que os filhos foram enganados. Vida no crime não é um morango não.

Hoje é sexta, to aqui na boca fechando os detalhes finais pro baile de amanhã com o Pikachu.

— Confirmou com o TZ da Coronel? — Pikachu pergunta

— Não, o mano teve um imprevisto, Oruam que vai vir — passo a mão no rosto — usa teu dom de fofoqueiro e divulga essa parada aí. 

Ele ri e levanta mandando um áudio no whatsapp enquanto vai em direção à frente da boca.

O Sábio tem um milhão de fitas pra resolver, então a organização dos bailes sempre fica por conta minha e do Pikachu. Pode parecer bobeira, mas é o ponto alto de lucro no movimento, o baile aqui é famosinho pra caralho, lota de Playboy e gente de outros morros, por isso a gestão de segurança tem que ser diferenciada.

Pego o meu radinho e aciono o Pretinho

Jogador: Colfoi, Pretinho, brota aqui na sala.

Nem cinco minutos depois ele entra na sala.

— Chamou, Jogador?

— Amanhã vai ter show do oruam no baile, quero uma contenção forte pro Sábio e alguns outros frentes que vão brotar.

— Vou dobrar o plantão, chefe

— Qualquer coisa, nós dá um pulo lá no armazém pra reforçar teu armamento. 

— Tá suave, amanhã vai ser só paz, confia — ele faz sinal de calma e eu confio, esse moleque é bom. — Mais alguma coisa?

— Não fica deixando piranha subir no camarote não — ele ri — tu tá ligado como o Sábio fica quando a Laís dá de maluca.

Ele me assegura a eficiência da segurança de amanhã e sai da sala.

Pouco tempo depois Pikachu volta pra sala e deita no sofazinho mexendo no celular

— O esquema das drogas já tá pronto pra amanhã, firma tá forte pra caralho. Acho que não falta mais nada.

Eu acabo lembrando que a Princesa também vai chegar amanhã.

— Coe, será que tua tia faz um corre pra mim lá na pista?

— Porra, jogador, botar minha tia de vapor de playboy é foda né — ele me zoa e eu reviro os olhos.

— Que vapor o que — eu suspiro — Queria que ela fosse ao mercado, a princesa vai chegar amanhã e não tem nada lá em casa — falo e ele me olha com aquela cara de filha da puta que ele tem.

— Ela vai po, só luxo pra tua hóspede — ele se levanta, eu dou o dinheiro pra ele e ele sai dando risadinha

Eu já disse, só não estouro a cabeça desse filha da puta porque ele é um bom gerente pro Sábio.

Saio da boca logo depois do Pikachu, encosto no muro do lado de fora vendo os moleques discutindo futebol. Coloco o meu boné pra trás e acendo um baseado.

Vejo a ruiva, que eu peguei outro dia, subindo em direção a boca e estreito os olhos. Essa daí tá querendo arrumar um problema comigo. Nunca veio na boca antes.

Ela cumprimenta os moleques da boca e pede um balão olhando pra minha cara. O vapor entrega a droga e espera o pagamento, ela olha pra ele e depois volta a olhar pra mim e finalmente paga.

— E aí, Jogador? — ela diz quando passa na minha frente.

— Fala aí — eu cumprimento de volta sem dar muita atenção.

Depois que ela se afasta descendo a rua, os vapores começam a comentar:

— Aí, Jogador, acho que ela tava querendo que tu bancasse a droga dela — um vapor diz rindo
— Essa daí tá querendo arrumar assunto comigo — eu nego a cabeça e dou um trago no baseado.

Po, eu fui filho do chefe e hoje sou sub, sei bem como é pegar essas minas aqui do morro. Quando eu era moleque dava moral pra umas malucas e que até brigavam na rua dizendo que eram minha fiel e os caralhos, hoje dou moral pra ninguém.

Eu não me iludo com nada a menos do que o relacionamento dos meus pais e o do Sábio.  Sou homem e pego quem rende pra mim, mas minha visão de futuro é construir família,uma parada séria só com quem fechar comigo de verdade. Por enquanto prefiro a putaria.

Sonho dos crias [M]Onde histórias criam vida. Descubra agora