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Capítulo 37 — Pov Lorena
Passei o domingo de preguiça, acordei com o rádio do Jogador apitando no nosso ouvido. Ele rolou pra fora da minha cama, disse que precisava ir na boca rapidinho, me deu um selinho, saiu do quarto e eu voltei a dormir.
Já é segunda, fiz todo o treinamento na parte da manhã e mandei o Hugo vir pra cá, hoje ele vai fazer a ronda comigo. Já rodou a fofoca que o Concha tinha andando armado comigo pela comunidade na sexta, então hoje eles estavam cheios de fogo no rabo querendo saber quem ia ser o próximo. Eu não aguento com esses meninos não.
Pego os dois fuzis e vou pra frente de casa, cumprimento os meninos da contenção e dou um fuzil pro Hugo. Ele tem qualidade pro corre, se treinar mais, vai ser um puta soldado e o melhor pra mim é que ele tem consciência disso, muito focado, não reclama um segundo, não se distrai, só tenta evoluir.
— Bora? — eu digo passando a bandoleira pelo pescoço com a mão direita enquanto seguro o fuzil pesado com a esquerda.
— Eu vi com o Concha os lugares que vocês já foram, pensei da gente ir por trás e parar mais ou menos onde vocês pararam também — ele diz apontando por trás da casa.
Gostei. Quis sair na frente e planejou a ronda.
— Boa. Vai ser isso então. — eu concordo e começo a andar.
Hugo vem do meu lado, um passo atrás e eu não preciso nem pedir postura. Anda todo marrentinho, parece um pitbullzinho de cara fechada e que porta fuzil há anos.
— Tu entrou no crime por quê? — Me viro pra olhar pra ele, mas em parar de andar.
— Sei lá, chefona. Era isso que eu queria desde menor, não sei explicar, mas é um bagulho que me chama — ele balança a cabeça prestando atenção no movimento da rua.
— Tu tem familiar envolvido?
— Meu pai era soldado do Nanau, mas eu nem conheci — ele me olha — Minha mãe fala que os vermes pegaram ele na covardia com ela grávida.
— Ela deve ficar com o coração na mão contigo então — paro na esquina olho pros lados e viro.
— Ela fica boladona, mas diz que eu sou meu pai todinho. — ele dá um sorrisinho.
Sempre que eu tiver um momento particular com os vapores quero ter uma conversa dessas. Acho que isso faz parte do treinamento que tô dando a eles, conhecer suas motivações é parte fundamental pra dominar a própria mente. Pra ter uma conduta fiel tem que tá muito ligado nos princípios que segue. Se um dos que eu to treinando trair o Sábio, eu vou considerar que falhei no treinamento deles.
— Eu entendo quando tu diz que o crime te chama, acontece comigo também — eu olho duas crianças com roupinha de escola ao longe — Eu tive a possibilidade de ser o que eu quisesse, mas tô aqui. Tu só não pode confundir isso com a emoção de ter a vida cara que o tráfico te proporciona.
— Tô ligado — ele concorda — tenho exemplo em casa de qual o fim dessa vida.
Depois de um tempo, olho meu apple watch e vejo que nós caminhamos mais uns dois quilômetros nessa, carregando fuzil e conversando. Hugo é mais fechado, me apresenta algumas pessoas, mas bem mais discreto.
— Fala aí, dona naná — ele passa o braço ao redor de um senhorinha e dá um beijo na cabeça dela.
— Oi, meu filho. Como está sua mãe?
— Tranquilona, graças a Deus.
— Quem é essa bonitona? — ela finge sussurrar pra ele enquanto olha pra mim e eu sorrio endireitando a bandoleira do fuzil.
— É a Princesa, minha chefe.
— Tudo bem com a senhora? — eu pergunto.
— Tudo ótimo, minha querida. É um prazer te conhecer — ela me dá um sorriso carinhoso e vira pro Hugo — Huguinho, preciso falar com seus patrões, tô querendo alugar a casa que era de Mayara, ela vai ficar em Minas de vez.
— Ih, dona naná, aquela casa é muito grande, vai ser dificil arrumar alguém aqui da favela, dependendo de quanto ela quiser no aluguel — Hugo diz.
— Por isso queria falar com o Sábio ou com o Jogador, vai que eles conhecem alguém que queira.
— Onde é a casa? — eu pergunto de intrometida.
— Duas quadras da boca principal — Hugo explica.
Eles terminam de conversar e continuamos na ronda. Fico com esse lance da casa na mente, tem uns dias que venho pensando sobre isso, na verdade, morar com alguém que tu fica é um passo pro precipício. As coisas vão acabar acontecendo rápido demais entre eu e Jogador. Não quero que a gente erre, acho que espaço é importante pra gente não confundir as coisas.
Tá anoitecendo, nós entramos num beco com uma escadaria e descemos, mas eu escuto um choro baixinho vindo de uma viela à minha direita. Paro de andar e faço sinal de silêncio pro Hugo que encosta do meu lado.
Olho pra dentro da viela e não vejo ninguém, então entro e me encosto no muro de um barraco na frente de onde vem o choro. Percebo a janela aberta e olho pela fresta.
— Caralho — Hugo sussurra.
A cena que eu vejo nunca mais vai sair da minha mente, uma garotinha de 7 ou 8 anos chorando e pedindo pro pai parar de tocar nela. Ele não respeita, segura ela em seu colo, manda ela calar a boca e força um beijo.
Fico enjoada pra caralho, mas não espero mais nada acontecer, vou na direção do barraco, Hugo dá dois chutes e a porta de madeira velha abre. Eu entro na casa, vejo uma arma em cima do móvel da sala, então tiro minha glock da cintura e acerto dois tiros na coxa do cara que solta a menina. A única coisa que eu penso é em não traumatizar mais essa criança, um tiro de fuzil tão perto ia detonar a perna dele.
A menina corre e encosta no canto da parede, enquanto o cara grita segurando a perna machucada.
Hugo vai com tudo pra cima dele, tira ele de cima do sofá e vai arrastando pra fora do barraco apontando o bico do fuzil
Nem dez segundos depois, o meu radinho começa a apitar, indicando que ouviram o barulho de tiro. Eu ando pra fora e entrego a pistola pro Hugo que começa uma sequência de chutes na cara do pedófilo filho da puta.
Radinho: Ai, Sábio, VG na voz, ouvi barulho de tiro de pistola aqui no meu posto.
Sábio: Qual o papo?
Pego o radinho indo até a menininha chorando.
Princesa: Fui eu, filho da puta aqui abusando de criança.
Sábio: Tô indo pessoalmente cobrar.
Eu agacho na frente da criança e limpo o rostinho dela cheio de lágrimas.
— Qual o seu nome? — pergunto olhando ela nos olhos.
— Maya — ela diz entre os soluços.
— Eu sou a Princesa. Aquele homem é seu pai? — ela concorda com a cabeça — ele não vai fazer mais nada contigo não, tá bem?
Ela se acalma aos poucos, mesmo sendo mulher, tento não tocar muito nela.
— Maya, sua mãe mora com vocês?
— Ela foi embora — vejo uma lágrima escorrer no rostinho dela e ela passa a mão pra tirar os cachinhos de cabelo do rosto.
Mesmo eu tentando ser posturada, aquilo me abala. Uma menininha sem mãe e machucada pela pessoa que deveria defender ela do mundo. Só consigo pensar na sorte que tenho por ser filha de um homem tão foda como meu pai.
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Sonho dos crias [M]
FanfictionE fé no pai, sei Que todo mal contra mim vai cair por terra Nós gosta da paz, mas não fugimos da guerra Paz, justiça e liberdade, fé nas crianças da favela Eu vivo a vida e amanhã não me interessa Lorena, vulgo Princesa, tá terminando a faculdade d...
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