Capítulo 22 — Lorena
Cpx do Alemão, Rio de Janeiro.
Segunda, 8h.
Hoje acordei cedo achando que teria que levar a Cecília na Penha, mas acabou que o Jogador mandou o Pretinho levar e eu só mandei mensagem avisando ao BW, pra ninguém estranhar a chegada deles lá. O Comando do Sábio é aliado ao do meu pai, mas mesmo assim geral fica de olho numa moto estranha chegando na comunidade. Assim pude tomar um café reforçado pra iniciar a segunda semana de treinamentos, acho que hoje já consigo colocar uma Pistola na mão desses meninos.
BW não para de mandar mensagem, me chamando pra sair com ele, mas sinceramente tô sem vontade. Sempre deixei claro que era só pegar e acabou. Eu quando fico com muita vontade de uma pessoa, perco o tesão em gera. É duro mas é a verdade, enfim a ficante fiel que deu dois beijinhos e já perdeu a vontade de outros homens.
Jogador não era um problema que eu queria arrumar agora, mas eu não tenho vergonha na cara. Ele me provoca e eu caio no papinho dele, caio consciente de que tô caindo.
Paro minha moto no campo e os meninos já estão me esperando, muito comprometidos esses meus filhotes.
— Bom dia, queridinhos — eu digo animada, mas eles murmuram uma resposta com cara de cansados — resenha de quem ontem?
— Aniversário do mano Hugo — concha responde apontando pro menino sentado no chão.
Eu ando até a mesa onde já estão os armamentos e pego uma glock, ando até o Hugo e ofereço a arma pra ele.
— Bora, então tu vai ser o primeiro — ele levanta num pulo e começamos o treinamento do dia.
O treinamento foi bom, eles são interessados, sabem que eu tenho total aval pra mandar embora quem eu quiser, então se esforçam pra aprender. Sou chata e criteriosa, fico em cima pra tudo sair perfeito. O que eu quero que eles entendam é que num confronto, o inimigo não vai querer saber se tu é iniciante ou não, por isso não aceito nada a menos que excelência. Eu honro a vida dos que escolhem entrar pra essa jornada, não quero deixar nenhuma família desamparada por causa de despreparo.
O campinho que a gente usa é meio afastado do resto da comunidade, é uma área tipo mata do complexo, então os tiros não alarmam muito os moradores. Existem algumas garrafas improvisadas como alvo e bonecos de pano imitando pessoas, dá pra fazer uma simulação maneirinha.
— Aí quem aqui tem ficha limpa? — eu pergunto — Tô pensando mais pra frente a gente ir num paintball, pra treinar e dar uma descontraída, o que vocês acham?
— Lá na pista, Princesa? — um vapor pergunta — é que tem uns irmãos fichados aqui.
— Seria maneiro, mas não vamos arriscar colocar a tropa na pista. Vou pensar nessa parada aí melhor.
Eles ficam animados, às vezes esqueço que eles têm 18 ou 19 anos, muitos tiveram suas adolescências trabalhando pro tráfico, então ir no paintball ou qualquer outra diversão tá muito longe da realidade de alguns.
— Bora levar esse armamento pra casinha, depois nós vamos comemorar o aniversário do Hugo lá no restaurante da tia Jô — eu digo e eles começam a pegar o armamento.
— Hoje é na conta da mais braba — Jorginho diz e eu rio
— Aproveita que hoje eu tô de bom humor, não é sempre que dou essas graças não.
Pego meu celular e abro no whatsapp
Whatsapp on
Princesa: Tá onde? Chama Sábio e Pikachu pra almoçar na Tia Jô. (12:15)
Eu coloco o meu celular no bolso saindo do campinho e andando até o barraco onde fica o armamento. Do lado de fora do barraco tem soldado armado até os dentes pra fazer a segurança do local, isso aqui é o coração do comando. Lògico que não é todo o armamento que fica concentrado aqui, com certeza tem outro locais estratégicos, mas ainda demanda muito cuidado.
— Fala aí — eu digo pro soldado que eu ainda não conheço na porta — Vim deixar umas armas aí.
— Fica à vontade ai, teu passe é livre.
Eu pego a chave e abro a porta entrando sendo seguida pelos meninos que organizam as armas de acordo com o modelo. Primeira aula já começando a dar retorno.
Sinto meu celular no bolso vibrando e pego vendo mensagem do Jogador.
Jogador: combinado, loirinha.
Rio do apelidinho bobo que ele fica me chamando e respondo com uma figurinha
— Rindo pro celular aí, chefia? — Concha me alfineta.
— Tá querendo me zoar dentro de uma sala cheia de armas? — Pergunto com uma sobrancelha erguida.
— É vai na paz irmão fica com Deus — outro vapor canta fazendo todo mundo rir.
(...)
— Vai chegar mais alguém, meninos? — Tia jô pergunta juntando as mesas e os vapores olham pra mim.
— Vai sim, tia, Sábio, Jogador e Pikachu. — Digo me sentando.
— Só diretoria almoçando com nós, tamo forte — Teteu sussurra cutucando outro vapor e eu nego com a cabeça rindo.
Eu acho muito engraçado como quem tá de frente de uma favela é colocado como Deus, até porque é meio isso mesmo quando o assunto é crime. Mas como eu fui criada entre vários deles, se tornou algo comum pra mim e posso até ver o outro lado da moeda, o que tiveram que abrir mão pra chegar onde estão e por incrível que pareça, quanto mais frio você se torna, mais eu vejo a humanidade nessa pessoa.
Todo mundo olha o Sábio e o Jogador como invencíveis, fenômenos do crime e eles realmente são, mas eu consigo ver a quantidade de porrada que a vida deu neles pra que aprendessem a ser mais fortes. Será que vale a pena? Será que é necessário?
Não conhecer a minha mãe e a morte de uma pessoa que era importante pra mim foram os maiores traumas que já carreguei, não se compara ao que a maioria que tá ao meu redor já passou e isso me faz pensar se um dia serei tão forte e poderosa quanto eles.
— Eai, rapaziada — Ouço Sábio dizendo e olho pra trás.
Pikachu dá um beijo na testa da Tia Jô e Jogador vem andando em direção a nossa mesa.
Os vapores cumprimentam os três com o maior respeito do mundo.
— Aproveitando que os meninos já chegaram, todo mundo vai querer o prato do dia? — Tia jô pergunta e todo mundo concorda
— Trás umas 4 garrafas de refri, tia — Jogador fala enquanto senta
— Ai tia, pode caprichar no feijão — Concha fala.
— Qual foi, Princesa deixou vocês com fome? — Sábio pergunta querendo saber mais sobre o treinamento.
— Esse daí só vive com fome, patrão.
— O vulgo não nega.
— Qual a história do teu vulgo, concha? — eu pergunto.
— É da época da escola, tava com fome e comi dez conchas de feijão na hora da merenda, aí os moleques começaram a me chamar assim. — ele diz dando de ombros
Todo mundo na mesa ri do jeito dele de contar. Esse menino é uma figura.
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nota da autora:
oi, povo! batemos 1k de views, vou tentar postar mais dois capítulos hoje pra vocês 🫶🏼
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Sonho dos crias [M]
FanfictionE fé no pai, sei Que todo mal contra mim vai cair por terra Nós gosta da paz, mas não fugimos da guerra Paz, justiça e liberdade, fé nas crianças da favela Eu vivo a vida e amanhã não me interessa Lorena, vulgo Princesa, tá terminando a faculdade d...
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