Epílogo I

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Epílogo I - Jogador

Dos sons mais fodas que já ouvi na minha vida, pouca coisa se compara ao som da respiração da minha filha dormindo calminha no meu peito.

Reparo em todo pequeno movimento dela, a boquinha entreaberta soltando o ar, a mãozinha fechada parada ao lado do nome dela tatuado no meu peito e a expressão relaxada.

Não liguei em passar noites em claro no começo, nem trocar fralda, porque eu dou um valor do caralho pra esses pequenos momentos.

Maria Luiza mudou a minha forma de ver o mundo. Mudou tudo em 11 meses de vida, com cada "papa" que ela tá aprendendo a falar, com sorrisinho banguela que dá toda vez que eu chego em casa...

É uma sorte do caralho ser pai dela. É uma sorte do caralho ter passado por cima de tudo pra viver esse momento agora.

— Patrão! — ouço o concha me chamar, do lado de fora da porta.

A voz alta faz a Malu se mexer no meu colo e eu levanto devagar, andando até a porta.

— Já falei pra vocês falar baixo, caralho — reclamo olhando pros três soldados na minha porta — Se acordasse a minha filha, eu ia encher vocês de bala.

— Foi mal, patrão — Pit sussurra e segura o ombro do Concha, olhando a menininha no meu colo — Tá tudo pronto lá pra quando tu der a ordem. Rapaziada do Coreano tá na pista já.

— Valeu, em meia hora tô saindo — suspiro e coloco as mãos nas costas da minha filha — Vocês três ficam, já é? Prioridade é minha mulher e minha filha, eu me viro lá com os que eu selecionei.

— Atividade máxima na proteção da nossa rainha e da princesinha — Concha fala e os outros dois concordam — Vamo ficar aqui na porta esperando

Volto pra dentro de casa e Lorena desce as escadas me olhando com atenção.

Mais uma das paradas que não canso na minha nova vida: ter a mulher mais linda da porra do mundo inteiro só pra mim. O cabelo voltou a ser loiro depois que a gravidez acabou, mas ainda mais curto do que na primeira vez que ela pintou, deixando ela com uma cara de mulherão.

Não teve filho da puta nenhum que fizesse eu desistir dessa mulher. O tempo que eu fiquei separado dela foi o pior da minha vida e não quero aquela sensação nunca mais.

Ser mãe tem curado cada marca que a trajetória difícil deixou na minha mulher. Não é porque é minha filha não, mas Maria Luiza tem esse poder.

— Deixa eu colocar ela no cercadinho pra você se arrumar — vem andando até mim, estendendo o braço e eu nego com a cabeça.

— Não... — Aperto levemente o corpinho da malu contra meu peito — quero ficar com ela só mais um pouquinho.

— O Coreano já saiu, amor... — toca meu braço e me olha de baixo pra cima, nós dois falando baixo.

— Ele vai entender — seguro a bebê e olho de volta pra Lorena — Geral sabe que essa é a primeira vez que eu vou sair em missão depois que a Malu nasceu. Porra, eu só não pensei que ia ser difícil pra caralho fazer isso.

— Nós vamos estar aqui quando você voltar.

— Mas ela é bebê, Lorena, dois dias ela esquece que eu existo.

— Matheus, pelo amor de Deus, não vou deixar nossa filha esquecer de você — franze a testa — Você pode ligar de chamada de vídeo.

— Não é a merma coisa.

— Lógico que não é, mas quando mais rápido você for, mais rápido você volta — passa a mão no cabelinho da Malu que fica caindo na testa — Digão precisa da gente.

Suspiro e concordo. Minha mente não dá paz pra mim nem por um minuto pensando nessa porra. Tudo o que aconteceu com ele colocou nosso mundo de cabeça pra baixo de novo.

Tô preocupado pra caralho com ele.

— O que tu tá indo fazer é parte do que a gente quer ensinar pra Maria Luiza. A gente não deixa família e amigo pra trás, é lealdade acima de tudo.

— Eu tô ligado, vou até o fim do mundo encontrar ele — explico — É só que eu já tô com saudade. Como que pode isso? Chega a dar uma dor no peito.

O rosto da minha mulher se ilumina e ela sorri.

— É que vocês tem uma relação linda, você e ela... Eu carreguei por nove meses e pari uma mini você.

Sorrio também e cheiro seu cabelinho fino, sentindo o aroma de shampoo de bebê.

— Você me deu vida, loira. Sem vocês, eu não sou nada — nego, sentindo um nó na garganta.

— E nós não somos nada sem você. Ela vai ter muito orgulho do pai que tem — passa a mão nas minhas costas.

Eu coloco a bebê no colo da minha loira e subo pra me arrumar rápido. Tudo já tá pronto, mala no carro, só falta me vestir. Camisa, Calça e Tênis.

A glock na mesa de cabeceira vai pra minha cintura e eu faço uma checklist mental pra ver se tô esquecendo alguma coisa.

Nós vamos começar a missão por São Paulo, lugar mais óbvio pro paradeiro do Digão, por concentrar a maior quantidade de inimigos da nossa facção.

Mas a minha intuição tá gritando dizendo que não é lá que ele tá. O foda é que não temos nenhuma pista. Não recebemos ligação, mensagem, negociação... Nada.

Bufo e amarro o tênis, depois desço as escadas, pronto pra ir.

Lorena tá em pé, de frente pra mesa, olhando uma submetralhadora de perto. Nunca vou me acostumar com todas as faces dessa mulher.

O short curto marca a bunda e o início das coxas grossas. Depois que virou mãe, ela ficou 300x mais gostosa.

Agarro a mão por trás, passando o braço por sua cintura, e cheiro o pescoço.

— Gostosa pra caralho — sussurro e vejo ela sorrir — Mantém tua postura de mulher casada enquanto eu tô fora, tá ouvindo? Se não eu volto, pra te lembrar quem é teu marido.

— Volta logo ou eu não prometo nada — provoca, sabendo brincar comigo.

— Já foi o tempo que eu ficava puto com esse papinho, hoje tu é minha e não tem negociação.

Viro ela de frente pra mim e beijo a boca mais gostosa que eu já beijei. Nosso beijo não muda nunca, sempre parece com aquele primeiro que demos no baile. Intenso e cheio de sentimento.

Ela brinca com a minha língua e arranha o meu pescoço.

— Te amo pra caralho — falo, segurando o rosto dela com as duas mãos.

— Te amo mais.

— Qualquer parada tu liga pra mim, valeu?

— Valeu. Mas tua mulher sabe se cuidar sozinha. — encosta o indicador no meu peito — e tu vê se liga também, que eu vou te resgatar.

— Me respeita, porra. Quem foi presa e precisou de resgate foi tu — deixo um monte de beijo na bochecha, pescoço e clavícula dela.

Olho a minha filha ainda dormindo calmamente no cercadinho e agradeço a Deus por isso, me despedir dela acordada seria pior.

É ruim deixar elas aqui, mas um dia Maria Luiza vai entender. Eu não abro mão de retribuir com lealdade quem me trata com lealdade, e parte do sonho que tô vivendo só é realidade porque Digão e Coreano tiveram por mim quando eu precisei.

— Vou lá — digo pra Lorena pela última vez e deixo um selinho na sua boca.

— Avisa quando chegar — ela me abraça forte — Não esquece quem tu é e que eu te amo demais.

Concordo com a cabeça e me viro na direção da porta.

Tô indo te buscar, meu parceiro.

Sonho dos crias [M]Onde histórias criam vida. Descubra agora