Capítulo 89

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Capítulo 89 — Jogador

Toco a bola pro Lucas e ele chuta pro gol. A quadra da pracinha que eu mandei reformar ficou pronta e eu tinha prometido que traria ele aqui. 

— Acho que sou melhor com a esquerda, tio — diz, correndo pra pegar a bola.

— Tua esquerda tá braba mesmo, menor — incentivo.

Fui um moleque órfão de mãe, meu pai ficou fudido e cheio de problemas pra resolver, então eu sei a barra que o Lucas passa. A solidão bate toda hora, mesmo com uma porrada de gente em volta. O Sábio foi um pai pica, insubstituível, mas eu tento cumprir minha responsabilidade de padrinho e não deixar os k.o da vida afastar nós dois.

Minha mente tá longe, lá naquela porra de hospital, onde minha mulher tá internada há quase quinze dias já, mas meu compromisso com ele, eu tenho que cumprir antes de qualquer outro.

— Vou lá no gol e tu bate o pênalti, suave? — pergunto e ele concorda.

Olho pra fora da quadrinha e vejo a Laís sentada, tomando sorvete, Rapunzel também tá lá, mas conversa com Chocolate sobre algum assunto. A favela tá uma uva e nem isso permite que nossa mente pare de funcionar. Tá geral se dividindo pra deixar a penha forte também.

Ando até próximo ao gol e paro na linha, deixando meu chinelo do lado de fora da trave. Eu imagino que ele vá chutar na direita, mas ele dá uma paradinha e chuta na esquerda, fazendo o gol.

— Que isso, menor — eu sorrio, porque ele bateu bem demais, e calço meu chinelo de volta.

— Tempo passa e teu tio sempre um pato no gol, Lc — Pikachu diz, entrando na quadra pela portinha na lateral.

— Mas na linha eu destruía ele e teu pai — aponto pro meu amigo, fazendo meu sobrinho abrir um sorrisão.

— Cadê o Pedrinho? Tá brincando contigo hoje não? — o filho da puta pergunta e eu fuzilo ele como olhar. Óbvio que ele ia dar um jeito de entrar no assunto Samira careca.

— A mãe dele não deixou hoje, acho que ela tá doente — o moleque diz, dando de ombros, e eu prendo o riso, vendo a cara que o Pikachu faz.

— Tá doente nada, menor — digo pro Lucas — Tá ligado que aqui na favela tem regra, né? — pergunto e ele concorda — Então, ela fez coisa errada e teve o castigo dela.

— Foi tu que mandou dar o castigo, tio? — ele pergunta e eu olho de longe pra Laís, atracada no sorvete, maior barrigão, minha cunhada tá parecendo uma melancia.

A chance dela brigar comigo por eu tá entrando nesse assunto é grande, mas eu sou contra mentir pro menor, porque ele tá envolvido nessa vida querendo ou não, tem que começar a entender as paradas desde cedo.

— Tá perguntando isso por que? — respondo com outra pergunta, sentindo o olhar do Pikachu em mim.

— Os garotos maior do que eu lá da minha escola falaram que tu que manda na favela, por isso que eles não mexe comigo.

— É verdade, sou eu e Pikachu, por isso ninguém pode mexer contigo, teus tios que mandam.

— Meu pai mandava também, que eu sei — ele diz, tentando fazer embaixadinha com a bola e eu olho pro Pikachu, que nega com a cabeça, me alertando de um possível surto da Laís  — E os moleques falam da tia Princesa também.

— Ah é? — questiono, arrumando a brecha que eu queria.

— Falam o que da Princesa? — Pikachu indaga.

— Que ela é gostosa — eu cruzo os braços, vendo que é o Pikachu quem segura o riso agora — Mas eu não gosto quando falam isso dela não — diz franzindo a testa.

— Papo reto, deixa falarem isso da tua tia não — digo — Quando disserem isso e ela não tiver lá pra se defender, tu fala que teu tio vai passar com o carro preto — ele me olha, sem entender — Precisa entender não, menor, mais tarde tu vai saber, o importante é que eles vão parar de falar merda da tua tia.

Olho rápido pro Chocolate fazendo sinal pra mim e deixo os dois ali conversando. Ando até o meu soldado de confiança e ele aponta com a cabeça pra Rita, parada do outro lado do alambrado.

Rapunzel encara a mulher sem piscar e a Laís alisa a barriga, dividindo o olhar entre eu, Cecília e Rita.

A senhora vem andando rápido na minha direção e o Chocolate se coloca entre eu e ela.

— Deixa, Chocolate — digo, respirando fundo.

— Jogador — ela olha pras meninas, depois pra mim — Tem dias que os seus funcionários não me dão informação nenhuma sobre ela.

— Ordem minha, estado de saúde da minha mulher não é pauta de fofoca pra tá na boca do povo não — digo, cruzando os braços.

— Deixa eu conversar com você, ela não quis me ouvir, tava com raiva de mim, mas você vai me entender — diz me olhando nos olhos e eu estreito os meus, analisando a mulher.

— Rua não é lugar pra conversar — sou seco.

— Quando eu falei sobre o strogonoff, eu tava falando da sua mãe mesmo, sei que você pensou isso e é verdade, Daiane foi a única amiga de verdade que eu tive — ela citar o nome da minha mãe ao mesmo tempo que me balança, me deixa mais em alerta.​

— Leva ela pra boca, Chocolate — mantenho o olhar nela.

Não quero deixar o emocional me levar. Lorena optou por não ouvir a mulher antes da guerra, mas a possibilidade de eu tá cometendo uma injustiça com alguém que a minha mãe se importava não é uma atitude que eu gosto.

Vejo o Chocolate conduzir a moça e passo a mão no corte disfarçado do meu cabelo.

— Ouve a mulher, ela é uma mãe, não precisa acreditar, nem fazer nada, só ouve — Laís chama a minha atenção.

— Lorena não queria.

— Não é só sobre a Lorena, essa é a tua história também, se ela não quer ouvir, ela não ouve, mas tu tem direito de ouvir uma velha amiga da tua mãe — Rapunzel também dá força pra eu ir lá e ouvir o quer que essa velha tenha a dizer.

Se fosse só eu curioso, querendo saber mais sobre esse assunto, eu ia tentar deixar essa parada pra lá, mas elas também tão confiando na palavra da Rita e intuição feminina é uma parada que eu aprendi a respeitar.

Concordo com a cabeça e decido ir até lá​​, Pikachu me lança um olhar de apoio, mas continua dando a atenção que o Lucas precisa.

De moto, em dois minutos eu to na porta da boca, entro e encontro a mulher sentada no sofá​, me esperando.

— Vou te ouvir levando em consideração a amizade que tu diz que tinha com a minha mãe — tiro a Glock da cintura, coloco em cima da mesa e depois me sento na cadeira.

— Última coisa que eu quis na vida foi ter abandonado a Lorena criança na mão daquele monstro — ela começa engolindo o choro e se justificando.

— Essas desculpas tu guarda pra ela, eu não tenho direito de te perdoar, quem tem é ela​​. Quero saber onde meus pais tem envolvimento na tua história de vida e quais informações você pode me dar sobre o Capitão.

Sonho dos crias [M]Onde histórias criam vida. Descubra agora