Capítulo 39 — Pov Lorena
Maya segura minha mão ainda e eu levanto saindo do quartinho com ela.
— A avó da menina tá aí, patrão — um soldado fala com o Sábio quando chegamos na sala.
Do lado de fora da casa, uma senhora negra com os cabelos presos num rabo baixo chora descontroladamente e um funcionário do Sábio segura seus braços para que ela não caia. Eu imagino que já tenham contado a ela o que aconteceu, já que o choro dela é tão forte que ela nem nos vê chegando perto.
A menina solta a minha mão e corre até a avó, as duas se abraçam e choram juntas. É uma cena forte pra caralho, eu engulo em seco, tentando mensurar a dor das duas, mas não consigo nem chegar perto. Como mensurar a dor dessa vó?
— Me desculpa, minha filha — Dona Neide grita abraçada à neta — Meu Deus, por que permitiu isso, Senhor?
A culpa que ela sente corrói, e eu posso ver isso com meus próprios olhos, no fundo são sempre as mulheres que se sentem culpadas. Eu me sinto culpada por não ter chegado antes e não ter evitado pelo menos um segundo de sofrimento.
A culpa é dele. Quem ia desconfiar do próprio pai? Ainda mais num lugar onde as regras são tão severas quanto a estupro.
— Eu não sabia, juro que não sabia — ela soluça de chorar olhando pro Sábio em súplica.
— O único culpado disso é ele — Sábio chega perto dela — Vamo dar todo o suporte que a senhora precisar, fica na paz.
— Eles são meus amigos, vovó — Maya diz passando a mão no rosto da dona neide pra limpar as lágrimas — Eles vão me proteger agora.
Eu não consigo lidar com tanta inocência, ela sabe que foi ruim o que o pai fez, invadiu o espaço dela, causou sensações ruins, mas não imagina o que ele roubaria dela se eu não tivesse aparecido.
— A Maya vai ter acompanhamento psicológico, faço questão — digo engolindo em seco — Vai ficar tudo bem, tenho certeza que com a senhora cuidando dela, vai ficar tudo bem.
Dona Neide é uma senhora bem simples, mas que ama a neta com todo o coração e não tem nada no mundo que pague isso.
— Brigada por tudo — ela olha pra mim e pega minha mão — eu não tenho como te agradecer, que Deus lhe pague.
— Não fiz nada além da minha obrigação, dona Neide — eu seguro firme a mão da senhorinha — Depois vou passar lá na sua casa pra ver como vocês estão.
— Fiel, acompanha elas até em casa — Ouço o Jogador falar pro Soldado que apoiava a senhora quando viemos aqui pra fora — Vê se tão precisando de alguma coisa.
As duas vão subindo a escadaria e eu solto o ar que tava preso no meu peito, encostando a cabeça no braço do Jogador que olha pra elas também. A carga mental desse dia vale mais que dez invasões.
A gente tenta se confortar quando a vida é cruel com algum envolvido, no fundo a gente sabe ser cruel também, mas esse tipo de covardia com inocente, é pesado demais.
— Vai pra casa, loirinha — Jogador fala baixo pra mim enquanto Sábio conversa com outros funcionários.
— Não — desencosto a cabeça do seu braço — quero ver o fim desse arrombado.
Nós subimos a escadaria e eu monto na garupa da moto do Jogador, já que tava a pé com o Hugo na hora que ouvi o choro da Maya.
Tento não pensar naquela cena o tempo inteiro, mas não consigo ser fria a esse ponto. A guerra me comove bem menos.
Jogador estaciona a moto num lugar no alto do complexo, a vista daqui é surreal, bate um vento friozinho e alguns soldados tão ali. Eu desço da moto com meu fuzil nas costas e o Matheus me entrega a arma que eu coloquei na mão do Hugo mais cedo.
Vou andando na direção dos pneus, colocando a arma presa no short. O filho da puta tá amarrado e todo arrebentado, cara destruída, mal consegue abrir os olhos, mas tem força pra me xingar quando me vê.
Cada xingamento que ele fala é uma madeirada a mais que o Pretinho dá nele. Nem tento gastar saliva, não tenho forças pra responder, só quero ver ele bem fodido pra conseguir lidar com o ódio que os dois tiros que eu dei não foram capazes de matar.
Não preciso pensar muito pra saber que, enquanto eu tava com a Maya, esse arrombado recebeu todo o tratamento que gente do tipo dele merece, não sei nem como ainda tá vivo.
— Ae menor — Sábio chama um vapor que tá assistindo tudo ao lado do Hugo — Grava essa porra ai — ele aponta na direção do pretinho e de outros soldados que tiram a camisa e colocam no rosto pra esconder a identidade nas imagens.
O vapor tira o celular do bolso, chega perto e começa a filmar o show. Pretinho anda até ele e fala em direção a câmera.
— Aí, tropa do Sábio na voz. Destino de filho da puta pedófilo é um só aqui no morro. A lei tá aí pra ser seguida, tá ligado? Quem não respeitar mulher e criança, não vai ter segundo papo, o fim é esse aqui.
Um dos soldados, com uma peixeira, acerta o pau do desgraçado que grita enquanto o sangue espirra. Na sequência, os pneus são empilhados em volta do corpo amarrado, ainda vivo, e o próprio Pretinho taca fogo.
Eu não desvio o olhar nem um segundo, acompanho ele agonizar enquanto o cheiro de carne queimada sobe, embrulhando meu estômago, mas não sinto remorso algum. Vejo ele apagar quando o fogo aumenta, não sei se morreu ou se a dor foi insuportável. Só sei que a justiça segundo as nossas regras, é igual cachaça, a gente pensa que só um golinho vai matar a vontade, mas nunca é suficiente. Por mais sofrida que seja, parece pouco perto do que ele teve coragem de fazer com a própria filha.
O que resta pra mim agora é pedir que Deus me perdoe, porque meu coração não tem um pingo de misericórdia hoje.
— Gravei, patrão — O vapor fala pro Sábio.
— Manda pra geral, quero deixar de exemplo. Mexeu com criança, nós mandamos pro inferno.
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Sonho dos crias [M]
Fiksyen PeminatE fé no pai, sei Que todo mal contra mim vai cair por terra Nós gosta da paz, mas não fugimos da guerra Paz, justiça e liberdade, fé nas crianças da favela Eu vivo a vida e amanhã não me interessa Lorena, vulgo Princesa, tá terminando a faculdade d...
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