Capítulo 57 — Lorena
Penúltimo dia do ano, incrível pensar que do Natal até o réveillon minha vida virou de cabeça pra baixo. Eu achei que ter vindo ajudar no treinamento do alemão tinha sido a maior reviravolta que eu ia enfrentar.
Meu corpo tá pedindo arrego, mas não posso parar. Respiro fundo, com a cabeça deitada no peito do Jogador. Sinto a bochecha dele colada na minha testa e a mão passando pelos meus fios de cabelo. É muito bom sentir isso de novo, uma calmaria em meio ao caos que é a nossa vida. Nós somos o ponto de paz um do outro.
— Cadê meu anel? — ele passa o polegar por cima do meu dedo anelar.
— Tá guardado em casa.
— É pra usar, Lorena. — ele desencosta a cabeça da minha e eu ergo o olhar pra ele — Queria te falar uma parada. Eu e Sábio não te chamamos pra vir dar o treinamento aqui. Teu pai ligou, pedindo que a gente te recebesse porque achava que o sub dele tinha pulado.
— É óbvio que isso era mentira também — eu rio.
Mentira do meu pai nem me surpreende mais.
— O que me deixa mais chateada é que nós dois ficamos juntos, conversamos pra caralho, e você não me disse — falo baixo — nem pensou em me dizer.
Sinceramente, nem tenho mais forças pra brigar e espernear. Foi errado pra caralho, se não fosse pela atual situação, eu ia virar um bicho aqui.
— Ele mandou um papo que tava tentando te proteger e nós aqui pensamos o mesmo, tá ligado?
— Matheus, eu não preciso desse tipo de proteção — olho nos olhos dele — Me ofende você pensar que eu preciso de alguém que me defenda fisicamente. Eu preciso de alguém que acredite em mim. Tu não pensou que eu ia ficar puta pra caralho quando eu descobrisse?
— Pensei, loirinha — ele passa a mão no meu rosto — Te juro que pensei pra caralho, mas teu pai vinha com um papo de que lá tava tudo uma merda, que tava afastando quem poderia te ajudar a reerguer o morro se fosse preciso.
— Por isso ele mandou o Dedé pro Paraguai.
— Esse é o papo, po. Não quero te esconder mais nada.
— E eu achando que tava fazendo um trabalho fundamental aqui — rio sem humor e nego com a cabeça.
— E tava, tá doida? Não entendia como em um momento de crise ele poderia afastar a atiradora mais braba, mas não dava pra reclamar, po. Você aqui fortalecia o nosso morro pra caralho.
— Para, Matheus.
— É sério, porra. Teus moleques tão voando e tu salvou a minha vida, salvou carga e descobriu o pm x9. Capitão é burro pra caralho, ele tá muito fodido agora que nós tá junto, gostosa — ele tenta me beijar, mas eu desvio.
— Sai, tô chateada com você.
— Faz isso não, loirinha. Seu marido tá precisando de um carinho — diz, fazendo beicinho.
— Marido nada — abraço o corpo forte dele e ele ri de lado, porque sabe como me dobrar.
Eu tô chateada, mas preciso muito desse contato com ele. Aqui, com ele, é o lugar que eu reorganizo as ideias e nós dois desunidos é ponto positivo pro meu pai. Não to afim de facilitar a vida daquele velho escroto.
Beijo o maxilar dele e depois deixo um selinho na boca.
— Hoje vou reorganizar as funções do morro — ele diz e eu volto a olhar pra ele — Queria que tu fosse frente, junto comigo, mas to ligado que tu não vai aceitar.
— A única função que eu quero agora é acabar com a graça do meu pai — passo a mão nos cordões de ouro que ele usa.
— Quero você do meu lado nessa nova fase, eu nunca conquistei porra nenhuma fora da visão do meu irmão.
— Eu tô aqui — ele olha pra mim — diria Filipe Ret, separados somo fortes, juntos imbatíveis.
— Te amo — ele me diz, sério.
— também te amo, muito — sorrio pra ele — Preciso levantar, vida. tenho que ir lá no barraco.
— Caralho — ele passa a mão no rosto, já percebi que ele tem essa mania — E se essa filha da puta tiver grávida mesmo?
— Acho que não tá, porque eu bati muito nela, ela teria dito isso antes, se fosse verdade — digo me sentando na cama.
— Ainda pode ser filho do Pikachu, essa criança.
— Cara — levanto, calçando meu chinelo — Só queria saber a motivação do Capitão, pra fazer isso tudo com a gente.
— Nada vai justificar — Matheus pega o celular na cabeceira.
— Não, não vai justificar, mas vai responder uma porrada de dúvida na minha mente — falo e vou pro banheiro tomar um banho.
(...)
— Bom dia, flor do dia — entro no barraco e vejo a Raquel deitada chorando no sofá velho — Ué, tá chorando por quê, linda?
— Você é um mostro, Lorena.
— Eu sou um monstro? Eu sou boazinha, tô te dando chance de voltar atrás e me falar a verdade. — tiro a glock da parte de trás da minha cintura — Sabe quem é um monstro? Um cara que, na covardia, tirou um pai de uma família com a mulher grávida. Sabe de quem eu tô falando, né? Eu, no caso, tô fazendo justiça.
— Deus vai te castigar — ela me diz com ódio.
— Não fala o nome de Deus, Raquel. Ele não aprova os mentirosos — digo e ela começa a chorar mais.
Não tá grávida porra nenhuma, pra chorar assim quando eu falo em mentira, só pode ser isso.
— Você é mentirosa, Raquel? — Passo o cano da arma no rosto dela — Teu tempo tá acabando, você não vai querer que eu gaste meu dinheiro comprando vinte testes de gravidez pros vinte darem negativo no final.
— Eu não sabia que ele ia matar o Sábio. Ele só me disse que ia dar um jeito do Alemão ficar com você e com o BW pra gente viver feliz na Penha, mas com você no caminho era difícil, disse que você não ia me aceitar.
— E você, nascida e criada na favela, não sabia como se tira um morro da mão do dono — eu sorrio — Já disse que Deus não gosta dos mentirosos.
Menina de dezenove anos acha que vai me manipular. Sei que meu pai é um merda, pode ter tentando enganar ela, mas duvido que ela tenha se enganado.
— Sabe quando eu percebi a ambição em você? — pergunto e ela chora, negando — Show do Oruam, você querendo gravar stories e peitando o soldado do Sábio. Quem te colocou no seu lugar foi a Laís, uma verdadeira primeira dama, coisa que você nunca vai ser, porque a sua ambição te cegou.
— Eu sou primeira dama da Penha — ela diz e eu rio, incrédula com o quão maluca ela é.
— Então me diz, primeira dama — eu debocho — a senhora tá carregando um herdeiro? — agarro o queixo dela, olhando nos olhos vermelhos de tanto tapa que eu dei na cara dela ontem.
Ela só nega com a cabeça e me olha com raiva.
— Foi o que eu imaginei. Só não vou mandar te colocar no pneu, por consideração aos seus pais, eles não merecem perder uma filha sem ter um corpo pra velar.
Levanto do sofá, viro o rosto e dou dois tiros no peito dela.
Concha abre a porta do barraco e olha pra mim, esperando alguma ordem.
— Manda o papo de que esse é o resumo de quem trai o Alemão. Quero que chegue no meu pai e que ele saiba que fui eu quem fiz. Não gosta de ficar me mandando recadinho? Ta aí a resposta pra esse velho.
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Sonho dos crias [M]
FanfictionE fé no pai, sei Que todo mal contra mim vai cair por terra Nós gosta da paz, mas não fugimos da guerra Paz, justiça e liberdade, fé nas crianças da favela Eu vivo a vida e amanhã não me interessa Lorena, vulgo Princesa, tá terminando a faculdade d...
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