Rayssa Leal

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Cheguei no meu apartamento chutando a porta, bufando de raiva. Meu skate foi jogado no canto da sala com um baque seco, ecoando pela casa vazia. Meu capacete foi parar no sofá, e eu me joguei na poltrona, ainda com os punhos cerrados.

Mais uma competição. Mais uma final. Mais uma derrota.

E, como sempre, a vencedora era a mesma: Rayssa Leal.

Passei as mãos no rosto, tentando afastar a frustração que queimava dentro de mim. Não importava o quanto eu treinasse, quantas horas passasse aperfeiçoando minhas manobras, estudando cada detalhe, ajustando cada movimento. No fim, nunca era suficiente. Eu chegava até o pódio, mas nunca no lugar mais alto. E o pior? O motivo era sempre ela.

A fadinha do skate. A queridinha do Brasil. A intocável Rayssa Leal.

Eu odiava Rayssa.

Cada vez que ela pegava aquele troféu de primeiro lugar com um sorriso, eu sentia um gosto amargo na boca. Não era inveja—não exatamente—mas uma mistura de raiva, frustração e um pouco de ressentimento. O que ela tinha que eu não tinha?

Soltei um suspiro pesado e me inclinei para frente, os cotovelos apoiados nos joelhos. Peguei meu celular para ver os resultados oficiais, mesmo já sabendo que meu nome estaria abaixo do dela na tabela.

lugar – Rayssa Leal
lugar – S/N Andrade

Apertei os dentes. Mais uma vez.

Abri o Instagram e lá estava ela, postando vídeos da comemoração, cercada de repórteres e fãs. E nos comentários? Só elogios. "Rayssa é incrível", "Ela merece", "Ninguém supera a fadinha".

Rolei a tela com força. Até que vi um post que me fez parar.

"Parabéns para a S/N também! Ela andou muito bem hoje, mas infelizmente não foi suficiente."

"Infelizmente não foi suficiente."

Isso doeu mais do que qualquer tombo que já levei no skate.

Joguei o celular na mesa e me levantei, ainda sentindo meu corpo inteiro tensionado. Eu precisava fazer alguma coisa antes que essa raiva me consumisse. Peguei meu skate de onde tinha largado e saí do apartamento.

Eu ia treinar.

Se Rayssa achava que sempre ia ficar no topo, ela estava enganada.

• • •

Cheguei na pista de skate mais próxima e, mesmo sendo tarde, ainda tinha algumas pessoas ali. Coloquei meus fones de ouvido, aumentei o volume no máximo e comecei a andar.

Meu corpo se movia no automático. Ollies, flips, grinds... A cada manobra, eu descarregava um pouco da frustração. Mas não era suficiente. Nada parecia suficiente.

Depois de quase uma hora, parei para tomar um gole de água. Foi quando ouvi risadas atrás de mim.

Me virei, e meu coração parou por um segundo.

Rayssa.

Ela estava ali, rindo com alguns amigos, segurando o skate como se fosse uma extensão do próprio corpo. Como se tudo fosse fácil para ela.

Óbvio que ela estava feliz. Acabara de ganhar mais um título.

Ela me viu e acenou. Como se fôssemos amigas. Como se não fosse ela quem me tirava a vitória toda maldita vez.

Respirei fundo, tentando controlar minha irritação. Mas então, com aquele mesmo sorriso confiante, ela se aproximou.

treinando? – perguntou, parando ao meu lado.

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