Pedido: Emyyysouza
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Ponto de vista de S/N
A manhã estava tranquila no vestiário vazio do Real Madrid, o que era raro, considerando o ritmo intenso da temporada. Eu gostava de chegar mais cedo para me preparar com calma, amarrar minha chuteira sem pressa e organizar meus pensamentos antes de encarar o treino. Enquanto guardava minhas coisas no armário, distraída, senti braços envolvendo minha cintura. Meu corpo automaticamente ficou tenso, mas antes que pudesse reagir, uma voz familiar me provocou:
— Que é, amor? Não reconhece mais o meu toque?
Suspirei, metade aliviada e metade irritada. Minha vontade naquele momento era de virar e dar um sermão, mas, ao mesmo tempo, era impossível ignorar a risada leve de Carla.
— Carla, você quer me matar do coração? — perguntei, virando para encará-la. Ela estava com aquele sorriso convencido que sempre fazia meu coração vacilar, mesmo quando eu queria bancar a séria.
— Achei que você estava precisando de um susto pra acordar — respondeu, despreocupada, dando de ombros enquanto se apoiava no armário ao meu lado.
Nós estávamos juntas há oito meses, mas, dentro de campo, as coisas eram bem diferentes. A torcida tinha decidido criar uma rivalidade entre nós, algo que começou como uma brincadeira, mas acabou virando combustível. Sempre que estávamos no campo, a disputa pela posição deixava tudo mais intenso.
— Você sabe que eu odeio quando faz isso — falei, fingindo um tom mais sério enquanto ajustava minha chuteira novamente.
— Não odeia nada — Carla rebateu, inclinando-se para roubar um beijo rápido antes de se afastar com um sorriso travesso. — Mas agora que você está acordada, vamos ver quem vai brilhar no treino de hoje.
— Isso não é justo — murmurei, rindo de leve. — Você sabe que eu não pego leve.
Ela deu de ombros, já saindo em direção ao campo.
— Nem eu. Por isso que a torcida nos adora.
Suspirei novamente, pegando minha garrafa d’água e seguindo para o campo. Jogar no Real Madrid era um sonho realizado, mas disputar a mesma posição com minha namorada tornava tudo mais complicado. Fora do campo, éramos só Carla e S/N, duas pessoas tentando fazer um relacionamento funcionar no meio da loucura. Dentro de campo, porém, éramos rivais alimentando uma narrativa que o público amava.
E, no fundo, acho que ambos os lados me desafiavam de maneiras que eu nunca imaginaria.
Assim que cheguei ao campo, vi que algumas das nossas companheiras já haviam chegado. Carla estava no centro do gramado, conversando animadamente com a capitã, como se nada tivesse acontecido no vestiário. Eu me limitei a ocupar meu espaço na lateral, começando meu aquecimento, mas não pude deixar de sentir os olhares curiosos que às vezes nossas interações despertavam.
— S/N, você e a Carla vivem se provocando, né? — comentou Sofia, uma das meio-campistas, com um sorriso descontraído enquanto se aproximava.
— Acha que é só provocação? — rebati, tentando manter a expressão neutra.
— Sei lá... Às vezes parece que tem mais coisa aí. — Ela deu de ombros. — Mas talvez eu esteja viajando. É que vocês têm uma dinâmica... diferente.
Diferente era um eufemismo. Carla e eu tínhamos uma química natural, algo que ninguém conseguia ignorar. Dentro de campo, a rivalidade parecia até teatral, quase como se fosse ensaiada. Fora dele, no entanto, era algo que nos conectava de uma maneira única. Mas a verdade é que ninguém ali sabia do nosso relacionamento — e era melhor assim.
