Flávia Saraiva

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Flávia Saraiva narrando

Eu sempre achei que fosse algo passageiro. Sabe, aquelas pessoas que aparecem na sua vida e somem do nada, tipo brisa de praia? Mas não, com S/N era diferente. Toda vez que eu olhava pela janela do meu apartamento no Rio, lá estava ela, pontual, a cada quinze dias. Sempre segurando um buquê de flores na mão direita e um livro na esquerda. Nunca repetia os gêneros: drama, suspense, poesia, até ficção científica já apareceu. Ela sempre tinha algo novo para me oferecer, e isso me intrigava de um jeito que eu nunca confessei a ninguém.

Eu morava em um prédio simples na Zona Sul, nada muito chamativo. Mesmo assim, ela me achava ali, na minha bolha de rotina e treinos. S/N não era como as outras fãs que ficavam horas na porta, esperando tirar uma foto ou arrancar alguma palavra minha. Ela era discreta, um mistério que aparecia e sumia sem fazer alarde. A parte mais curiosa? Ela nunca falou nada. Nem um "oi", nem um "tudo bem?". Nada. Só aquele sorriso, um sorriso que parecia carregar histórias que eu jamais teria acesso.

No início, confesso que fiquei desconfiada. Vai saber, né? A gente vive em um mundo onde nem sempre dá pra confiar. Mas ela nunca ultrapassava o limite. Eu descia, abria os braços pra aquele abraço que já virou rotina, e ela me entregava as flores e o livro como se fosse um ritual sagrado. No final, ela dava um sorriso tímido, balançava a cabeça e ia embora. E eu ficava ali, parada na calçada, olhando enquanto ela virava a esquina, me perguntando quem era essa mulher tão diferente.

Era engraçado porque, mesmo sem falar, ela dizia muito. Cada buquê parecia escolhido com um cuidado imenso. Rosas amarelas, girassóis, até lírios – que eu nem sabia que gostava até ela me dar. E os livros? Sempre vinham com uma dedicatória escrita à mão. A letra dela era redondinha, perfeitinha, e as palavras sempre tocavam algo dentro de mim. Era como se ela soubesse exatamente o que eu precisava ouvir.

"Para os dias difíceis, lembre-se que até as maiores tempestades terminam em arco-íris."
"Flávia, você é inspiração, mas não esqueça de cuidar da pessoa por trás da ginasta."
Era surreal.

Uma vez, eu tentei puxar assunto. “Você quer subir pra tomar um café?” perguntei, meio sem jeito. Ela arregalou os olhos, deu um passo pra trás e balançou a cabeça rapidamente, como se a ideia fosse absurda. Não insisti. Só ri e falei: “Tá bom, fica pra próxima.” Ela sorriu daquele jeito dela e foi embora, como sempre.

No fundo, acho que comecei a esperar por ela. Não era só pelas flores ou pelos livros – era por ela. Pela presença calma, pela forma como o mundo parecia parar quando ela estava ali, mesmo que por poucos minutos. Eu sentia que ela tinha algo especial, algo que a fazia diferente de qualquer pessoa que eu já tinha conhecido.

Um dia, resolvi perguntar ao porteiro, o seu Zé, se ele sabia algo mais sobre ela.
"Ah, dona Flávia, essa moça é um anjo, sabia? Nunca vi pessoa tão educada. Ela sempre pergunta se pode esperar aqui na portaria antes de você descer. Não incomoda ninguém."
Ela já falou alguma coisa contigo?
"Não, nunca. Mas sabe o que eu reparei? Ela tem um caderninho que carrega às vezes, tá sempre escrevendo nele enquanto espera."
Um caderninho? Aquilo me deixou ainda mais curiosa.

Na próxima vez que ela apareceu, não consegui segurar minha curiosidade. Quando ela me entregou o livro – um de poesia dessa vez –, perguntei apontando para o caderninho que ela segurava junto às flores:
"É aí que você escreve essas coisas bonitas pra mim?"
Ela me olhou surpresa, meio sem jeito, e segurou o caderno mais firme contra o peito. Depois, abriu um sorriso, mas não disse nada. Como sempre.

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