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A vida de médica nem sempre é fácil. Abdiquei de muitos momentos para estar onde estou hoje. Noites sem dormir, plantões intermináveis e decisões de vida ou morte tornaram-se parte do meu cotidiano. Mas há algo que me mantém firme: a chance de salvar vidas e ver o brilho de gratidão nos olhos de quem acreditava que não tinha mais esperança.
Hoje, esse brilho está nos olhos da dona Maria, de 89 anos. Há semanas, todos acreditavam que ela não resistiria à cirurgia no coração. Era um quadro delicado, mas eu sabia que enquanto houvesse uma chance, por menor que fosse, valia a pena lutar. Agora, aqui estou eu, de pé ao lado do leito, examinando-a e conversando como se estivéssemos em um café da tarde, e não em um quarto de hospital.
— A senhora está cada vez melhor, dona Maria. Logo vai estar em casa reclamando do barulho dos vizinhos de novo — comentei com um sorriso, enquanto verificava seus sinais vitais.
Ela riu baixinho, a voz ainda frágil, mas cheia de vida.
— Vou te contar um segredo, doutora. Às vezes eu até gosto do barulho... me lembra que estou viva.
Fiquei em silêncio por um instante, absorvendo aquelas palavras simples, mas tão poderosas.
— A senhora é uma guerreira — respondi, sentindo o calor da admiração preencher meu peito.
— Guerreira mesmo é você, doutora. Ficar aqui cuidando de gente velha como eu, sem perder o sorriso... isso sim é coragem.
Sorri, embora sentisse o peso das noites em claro e das responsabilidades que carrego diariamente.
— Cuidar das pessoas me dá forças, dona Maria. É mais do que um trabalho, é uma missão.
Ela segurou minha mão com sua pele enrugada e olhar sereno.
— Que bom que Deus colocou você no meu caminho, doutora.
— E que bom que a senhora lutou para estar aqui hoje — falei com sinceridade.
Enquanto terminava o exame e ajustava os medicamentos, percebi algo precioso: não era só sobre salvar vidas, mas também sobre ser tocada por elas. Dona Maria tinha sobrevivido a algo que parecia impossível, mas, naquele momento, eu é que me sentia salva.
Cuidar é um privilégio, e cada vitória me lembra que, apesar de tudo, vale a pena continuar.
Pela madrugada, o hospital finalmente silenciou. Os monitores emitindo seus sons regulares e o clima de calma temporária me permitiram recostar em uma cadeira na sala de descanso. Com os olhos fechados, sonhei com gatinhos brincando sob o sol — uma paz rara em meio à rotina caótica da emergência.
Mas a tranquilidade durou pouco.
— Doutora! — A voz da enfermeira irrompeu pelo corredor, urgente e carregada de tensão.
Despertei num sobressalto, o coração disparado antes mesmo de entender o que acontecia. Levantei rapidamente, correndo ao encontro dela.
— O que houve? — perguntei, a adrenalina tomando conta.
— Uma paciente grávida... foi assaltada e baleada. Estão trazendo ela agora! — A pressa nas palavras da enfermeira refletia a gravidade da situação.
Corremos juntas para a sala de emergência. Em segundos, o ambiente antes silencioso virou um redemoinho de ação: vozes trocando instruções rápidas, materiais sendo preparados, monitores ligados. A paciente foi trazida na maca, pálida, com o rosto marcado pela dor. O sangue manchava a roupa e o lençol que a cobria.
