Enxergar a verdade era doloroso, nunca havia amado Heitor e tudo o que acontecera no final das contas não passava de manipulação, ele nunca sentira nada por mim, meu corpo e meus sentimentos eram uma diversão para seu modo demoníaco de ser, eu, fraco e humano tinha sido meramente usado, essa era a verdade... Mas por que doía tanto? Meus pais haviam me salvado, eles me amavam, amavam tanto que quase me queimaram em um incêndio, eles queriam me proteger e pra isso iriam matar Abigail. O amor e a proteção dos meus pais tinha um sabor amargo e ácido que queimava ao mínimo contato. Meu peito doía enquanto o coração bombeava vidro pelas minhas veias, estilhaços da relação que havíamos construído mesmo que em sonho, tudo não passava de uma mentira, eu sabia quem estava mentindo e esse alguém não era Heitor.
-É enlouquecedor, não é?- surge uma voz em minha mente, estar acompanhando em meus pensamentos me assusta, abro os olhos sobressaltado vasculhando o recinto, em meu quarto, sentado na cadeira da escrivaninha está um homem sorridente, tem cabelos escuros e um terno absolutamente preto, bem amarrado com uma gravata de vermelho intenso como sangue. O homem aparentava ter quarenta e poucos anos, e se mantinha numa postura elegante e pouco humana, porém em todo seu ser são os olhos que se destacam, vermelhos e brilhantes como os de Heitor, minha única alegria é descobrir que estou novamente vestido, trajando roupas escuras, permaneço em silêncio e ele continua.- Me refiro a dor da traição, em um minuto tudo parece bem e no outro... Sofrimento, desgraça e miséria. Oh sim, a miséria emocional, passar anos devotando sua vida às pessoas que ama e considera pra que tudo seja em vão, basta um "erro" e você se torna o inimigo.
Não precisava nomeá-lo, não haviam dúvidas sobre sua identidade, tampouco queria defender meus pais, porém um ressentimento surge em minha mente, uma dor que não eram minha e ainda assim se destilava como veneno.
-Por que você nunca veio ver o Heitor? Ele é seu filho!- exclamo indignado.
-Sim, claro que é. Eu aposto que minha presença faria muito bem em sua vida, o Diabo em pessoa não causaria nenhum problema, agradeço a oferta mas ele já sofre demais sem mim.
-Eu não acredito em você!- retruco, me pondo de pé, isso faz seus olhos faiscarem, quase como se aquilo servisse de entretenimento ao homem.
-Com certeza não acredita, afinal eu sou o Diabo, Lúcifer, Satã, talvez devesse me chamar de sogro, acho que funcionaria melhor, mas enfim, realmente não entendo o que meu filho viu em você, um garoto completamente normal e sem nada impressionante além de...- começa o homem, deveria ter mais respeito ou medo por quem ele era, porém não consigo, sua atitude é irritante.
-Quem é você pra falar...- me intrometo, porém sou calado quando ele retoma o assunto.
-Cale a boca! É exatamente sobre isso que estou falando, está chateado comigo e nem entende o que está acontecendo, não sabe quem sou eu.- estou ressentido, mas permaneço quieto, sabia que tentar revidar seria inútil.- Provavelmente ouviu muitas mentiras sobre mim, afinal estão sempre me culpando por coisas que não fiz.
O homem se levanta da cadeira e organiza seu terno para retomar seu monólogo.
-"Oh, como o Diabo é manipulador e traiçoeiro, eu não queria fazer isso, o Demônio me influenciou". Esse é o problema, a culpa nunca é deles, pessoas fazem as maiores atrocidades possíveis, elas matam, agridem, traem e no fim colocam a culpa da miséria humana advinha em quem? Em mim! O meu trabalho não é fazer um Zé ninguém trair a namorada com a vizinha, não sou um diabrete medíocre qualquer!
-Qual é o seu trabalho então?- questiono desconfiado, não conseguia confiar no homem de olhos ferventes.
-Eu sou o lado feio da justiça, todos amam a famigerada "justiça divina", mas só lembram dela na hora de receber os louros, nessas horas é de Deus que se lembram, mas é quando pessoas fazem coisas ruins, quem pune elas? Essa é a minha parte do trabalho,- o homem abre um largo sorriso, contente com o que diria a seguir.- Deus recompensa, eu me vingo.
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Meu Demônio (Romance Gay)
RomanceGabriel prometeu a si mesmo nunca se apaixonar, o que as pessoas diriam se descobrissem que o filho do pastor é gay? Apenas a idéia de prejudicar seu pai o fazia estremecer. O tímido rapaz passa seus dias focado, deixando sua vida de lado enquanto...