Não vou mentir, talvez devesse estar mais focados nos problemas a minha frente, tentar prever os passos de um inimigo que nem ao menos conhecia, porém tudo parecia muito distante depois do gesto de Heitor, o horário do fim das aulas se aproximava e para todos os aspectos estava "estudando", logo precisaria voltar para casa no horário correto, com isso precisava descer para acompanhar a saída dos alunos, com um longo beijo me despeço de um carente Heitor que já reclamava de saudades.
Desço o colina na direção da escola quase saltitando para alcançar o pátio da escola poucos minutos antes do necessário, assim que o sinal toca um mar de adolescentes invade o local, entre eles encontro uma Abigail muito surpresa com a minha presença.
-Meu anjo, como assim? -questiona ela se aproximando para um abraço.- Eu não te vi na escola, fiquei morrendo de medo que nossa visita à igreja tivesse te causado problemas, o que está fazendo aqui fora?
-Pode ficar tranquila, acho que não pioraram nada, é só que...- Me contenho por um instante, não podia dizer a verdade, ao menos não inteira.
-Ora, vamos, no caminho você me conta.- afirma ela me empurrando ladeira abaixo. -Aliás, ainda não perguntei sobre ontem, o que seu pai achou da atuação do Bern...
A garota que até o momento parecia entusiasmada para de forma brusca, o motivo era óbvio, a indisposição que o nome Bernardo trazia entre nós. Naquele momento sou capaz de perceber algo que talvez antes não pudesse, Bernardo era amigo de Abigail e não seria capaz de mudar isso, da mesma que éramos próximos apesar de tudo, exigir algo dela seria como pedir pra sufocar parte de si mesma, seria egoísmo.
-Abigail, está tudo bem, você e o Bernardo são amigos, não precisa medir palavras comigo ao falar dele. O que vocês fizeram foi errado, mas estamos do mesmo lado, eu só espero que os mesmos erros não se repitam.- afirmo me permitindo aquilo finalmente, o perdão. Aquelas palavras parecem quebrar um grande muro que havia entre nós, Abigail se permite um suspiro antes de me abraçar.
-Obrigado.- diz, no tom da mais honesta gratidão.
Dali em diante a conversa se torna mais acolhedora e animada, de modo que não preciso me explicar sobre a falta na escola, afinal haviam outros assuntos mais interessantes aos olhos de Abigail, a qual ficara boquiaberta ao descobrir que realmente haviam acreditado na "habilidade" de falar em línguas de Bernardo.
Algumas quadras antes de chegar em casa nos e dali em diante sigo sozinho. Mesmo tendo passado a manhã inteira ao lado de Heitor tudo o que queria era um motivo pra sair de casa mais tarde para encontrá-lo, de qualquer forma sabia que seria impossível, ainda estava de castigo e precisava me contentar por hora com o que tinha (e rezar pra que não descobrissem como havia matado aula).
Assim que passo pela porta ouço o som das panelas batendo, um sinal de que o almoço ainda não estava pronto, sendo assim decido subir e trocar de roupa antes de tudo, mesmo algumas horas depois ainda sentia os efeitos da corrida até a casa de Heitor deixando minha pele grudenta. Ao subir as escadas tenho minha atenção sequestrada no assunto a alguns de distância, uma discussão acalorada parece acontecer no escritório de pastor.
-Senhor, eu não estou louca, eu sei o que vi. Não estou louca, aquilo não era humano.- ouço Damares argumentar com sua voz áspera e persuasiva.
Ouvir aquilo faz meu coração parar por um instante, estavam falando de Heitor e meus maiores medos se tornavam realidade, a missionária havia descoberto a verdade afinal, Cassandra tinha razão todo esse tempo, a vida de Heitor corria perigo e precisava alertá-los o quanto antes, com tudo arruinado restava apenas espionar em busca de mais alguma informação, nesse momento a voz de minha mãe soa do andar de baixo, arruinando meus planos.
-Gabriel? Já chegou?- pergunta incerta, amaldiçoo baixinho enquanto espero, talvez fosse ignorado, mas é inútil, no escritório estão tão silenciosos quanto eu. -Gabriel?
-Só vou trocar de roupa e já desço.- respondo finalmente, dou um passo em frente e só naquele momento percebo o quanto estou tremendo, lutar havia sido inútil e estava prestes a perder tudo, enquanto passo em frente a porta do escritório a discussão volta a acontecer.
-Damares, você não pode dizer que o garoto não é humano porque é gay e fala em línguas estranhas, o que precisamos é descobrir como ele fez isso.- rebate meu pai retomando o assunto, sem pensar abro a porta instintivamente, aquilo faz o pastor erguer os olhos lentamente, Damares nem ao menos se dá ao trabalho de me encarar. -Precisa de algo, filho?
-Eu...- começo mas minha boca fica seca e tento formular qualquer palavra que seja, porém logo desisto, apenas desisto com um trêmulo...- Não.
-Tudo bem,- diz suspirando enquanto cruza os dedos.- Feche a porta quando sair.
Chegar até meu quarto se torna uma tarefa difícil, meu coração saltava disforme enquanto perdia o controle sobre quaisquer sentidos, meu estômago girava como se estivesse prestes a vomitar, fora de foco troco de roupa alisando os tecidos na tentativa de me orientar, é inútil, esfrego os olhos ainda sem sucesso.
Busco o telefone em minha mochila para chamar Heitor, porém logo hesito, o que eu diria se fosse capaz de elaborar algo? Ouvira a segunda parte da conversa, tudo poderia ser sobre Bernardo afinal, um gay falando em línguas estranhas, minto tentando me acalmar, não estávamos em perigo, não podíamos estar. Alguns minutos se passam nesse processo, pois sou novamente requisitado por minha mãe para o almoço, levanto de minha cama, a qual nem ao menos lembrava de ter sentado e vou.
Mesmo aéreo sentia que tinha uma missão a cumprir, por mais que a presença de Damares me desagradasse precisava descobrir se meus medos eram ou não reais. Me forço a descer as escadas e sento à mesa agindo com a naturalidade que consigo reunir. A refeição parecia agradavelmente silenciosa levando em consideração a presença de Damares, até que por fim o silêncio é quebrado por um pigarro do pastor.
-Então, sua amiga comentou algo sobre o culto de ontem?- pergunta ele, sem grande ânimo ou interesse eminente.
-Não muito, acho que ela não está acostumada a dinâmica dos cultos.- invento, até porque não havia passado o dia na escola para me aprofundar sobre os pensamentos dela.
-E o... "amigo" dela, o que disse?- questiona novamente, a palavra "amigo" sai de sua boca de forma áspera e ofensiva, por mais que tentasse disfarçar era inútil, o desprezo de sua voz era tangível.
-Eu não sei, pai, ele não estuda com a gente.- digo me controlando para não ser grosso, estava ali para reunir informações e explodir colocaria tudo a perder.- Até onde eu sei ele trabalha na biblioteca pública.
-Hum.- diz ele, indiferente, voltando ao silêncio.
Alguns minutos se passam aproximando a refeição do fim, relutando me obrigo a falar finalmente.
-Então Damares, o que achou do meu amigo, Heitor?- indago fingindo desinteresse, aquela pergunta faz com que todos parem de comer, uma interação entre nós sem hostilidade parece tão estranha para eles quanto pra nós ao que parece.
-Ele é grosso, e foi ignorante comigo, me chamou de lado só pra me ameaçar.- choraminga ela, ultrajada.
-Como assim?- pergunto fingindo surpresa.
-Ele me mandou parar de ser rude com você, inaceitável!- exclama ela, preciso lutar com meus sentimentos para não esboçar um sorriso de alívio, aquela não parecia a reação de alguém que teria visto Heitor em sua verdadeira forma, me forço a ter um comportamento contido.
-Acho que ele não precisa me defender e nem arranjar briga com vocês, o que acontece em casa fica em casa, não precisam criar caso com Heitor.- digo, meu comentário gera uma expressão de concordância em meu pai, ele não gostava de escândalos e queria evitá-los, no fim das contas a verdade era outra, tudo o que queria era tirar o foco de Heitor, não queria que nada acontecesse e ele. Com isso a conversa se dá por encerrada e logo o almoço acaba e com isso subo para o meu quarto.
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Meu Demônio (Romance Gay)
RomansaGabriel prometeu a si mesmo nunca se apaixonar, o que as pessoas diriam se descobrissem que o filho do pastor é gay? Apenas a idéia de prejudicar seu pai o fazia estremecer. O tímido rapaz passa seus dias focado, deixando sua vida de lado enquanto...