O dia escolar passa rápido e sem grandes fatos relevantes, a curiosidade de Heitor era evidente, mas sabia respeitar meu tempo e por isso não investia buscando adiantar o assunto que viria mais tarde naquele dia. Mesmo no recreio quando ficamos a sós na sala, nesses poucos minutos de relativa privacidade tudo o que me interessava era confortar o garoto. Havíamos decidido ficar e lutar, mas sabia que o clima devia estar ruim em sua casa, Cassandra provavelmente faria dos próximos dias um lembrete um lembrete de sua desobediência.
No fim das aulas nos despedimos com a promessa de um reencontro mais tarde naquele dia, dali em diante sigo acompanhado de uma saltitante Abigail.
-Vocês podem chegar na biblioteca por volta das seis horas da noite, ela fica aberta até às seis e meia, mas já conversei com Bernardo e ele vai segurar as portas até um pouco mais tarde se precisarem.
-Certo.- digo, um pouco tenso. Mesmo perdoando o acontecido em nossa última visita à biblioteca ainda tremia com as lembranças, a garota parece perceber.
-Não precisa ficar assim, só o Bernardo vai estar lá, eu não vou e ele vai estar vigiando o andar de baixo pra que ninguém suba, vai dar tudo certo.- garante ela segurando minha mão, mesmo um tanto receoso acabo concordando.
Quando finalmente chego em casa encontro o lugar um tanto vazio, apenas minha mãe está, a qual informa que o restante está fora à trabalho. Enquanto almoçamos sinto o impulso de pedir para ir até a biblioteca, estava ansioso mas precisava seguir o plano, no livro havia um cartão de entrega que venceria hoje, precisava esperar até o último momento, gerar uma sensação de urgência.
A espera é longa até finalmente chegar a hora, faltavam quinze minutos para as seis horas quando desço as escadas para abordar minha mãe, em minha mão trazia o grande livro.
-Mãe.- chamo, tentando me conter, queria parecer apressado e não falso.
-O que foi, filho?- pergunta ela saindo da cozinha enquanto secava as mãos em um pano de prato.
-Então, eu sei estou de castigo, mas na semana passada peguei esse livro na biblioteca pública, mas acabei esquecendo de devolver e hoje é o último dia do prazo, posso ir lá, prometo que não vou demorar.- explico, soando chateado com a situação. A mulher a minha frente encara a situação com consternação, seus olhos estão cheios de dúvida, provavelmente temendo a reação do meu pai, caso chegasse em casa e não estivesse ali.
-Querido, tem certeza de que não pode esperar até amanhã, ou talvez até seu pai chegar?- argumenta, sem jeito.
-Eu não queria ficar devendo isso pra eles, é uma responsabilidade, e não posso esperar, daqui a mais ou menos uma hora a biblioteca fecha.- retruco, buscando por piedade, por fim ela suspira.
-Tudo bem, pode ir, mas não demore muito, ou irei contar pro seu pai.- diz ela, me aproximo e lhe dou um beijo na bochecha, para em seguida seguir na direção da porta.
-Obrigado, mãe, você é a melhor!
A biblioteca não ficava muito longe de casa, precisava apenas cruzar a praça para alcançar o edifício histórico de madeira finamente esculpido, o qual há muito tempo fôra um hotel. Agora que tinha vencido o primeiro obstáculo sentia meu estômago borbulhar, ansioso, me perguntava se Heitor já estaria lá.
Assim que entro dou de cara com Bernardo, o qual prontamente se aproxima, seu rosto tem um sorriso desconfortável.
-Boa noite.- digo, mais apressado que o normal, como se as palavras escapulissem da minha boca.
-Boa noite, Abigail me contou que precisavam de um espaço, pode ir para o andar de cima, assim que o seu boy chegar mando ele pra lá também.- avisa, prontamente, com um aceno de cabeça me dirijo às escadas, estou prestes a subir quando ouço-o chamando novamente.- Ei, espera!
Me viro, conhecendo o garoto podia esperar qualquer coisa, receoso, decido ouvir.
-Olha, me desculpe, de verdade, sei que agi mal com você e seu namorado quando estiveram aqui, não devia ter feito aquilo, espionado a privacidade de vocês, mas eu e Abigail estávamos tão empolgados com aquela amizade, éramos como fogo e gasolina, voláteis e explosivos, não medi as consequências dos meus atos e ultrapassei seus limites, sinto muito por isso.
Ouvir aquilo me surpreende, esperava qualquer coisa de Bernardo, menos isso, já havia superado aquilo em partes, mas receber aquelas palavras me agrada.
-Acho que está tudo bem, o que está feito não tem como mudarmos, além disso acho que também fui mais grosso do que deveria, no fundo acho que sentia ciúmes de você com a Abigail, estava acostumado com a exclusividade e acabei sendo egoísta.- admito pela primeira vez a verdade em palavras.
-Amigos?- pergunta ele, estendendo a mão, a qual aperto em concordância.
-Amigos.
-Agora suba, seu boy já deve estar chegando.- afirma sorridente.
Parto escada acima, ali ando até a sala no fim do corredor, o clube do livro. Ao entrar observo o local, ele parecia igual ao que me lembrava, a temática infantil e pedagógica, pufes espalhados sobre o chão lustrado de madeira. Busco um livro qualquer na prateleira colada à parede e me sento, não tinha intenção de ler nada, apenas entreter a mente enquanto esperava.
Era um livro grosso, de capa vermelha, Battle Royale, já havia ouvido falar mas nunca lêra, talvez o levasse quando fosse para casa. O tempo passava e a noite soava quente e crepitante, no ar havia um cheiro de lenha, lenha seca recém jogada na fogueira... Fogueira... Fogo!
Minha mente demora a entender o que está acontecendo, quando meus olhos se levantam do livro vejo a fumaça se acumulando próxima ao teto, nesse instante a urgência e o pânico tomam conta de mim, corro na direção da porta, abrindo-a, nesse momento o fogo que vinha do corredor vomita calor cômodo adentro ferindo os braços que coloco afrente do corpo, o prédio de madeira repleto de livros queima como o combustível perfeito, aquele caminho era impossível, sigo até a janela, mas logo percebo que era inútil, a tranca velha estava enferrujada, inútil.
O fogo se alastrava e a fumaça se tornava cada vez mais densa, minha mente perdia o foco a cada segundo, até finalmente cair no chão, as últimas coisas que me lembro a partir dali são um grito grave chamando meu nome e uma silhueta sobrehumana, de grandes chifres curvados e pele vermelha que vinha em minha direção, a partir dali tudo o que vejo é escuridão.
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Meu Demônio (Romance Gay)
RomanceGabriel prometeu a si mesmo nunca se apaixonar, o que as pessoas diriam se descobrissem que o filho do pastor é gay? Apenas a idéia de prejudicar seu pai o fazia estremecer. O tímido rapaz passa seus dias focado, deixando sua vida de lado enquanto...