51- O Filho Do Diabo

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-O Heitor é filho do Diabo, se ele entrar na igreja ele morre!- afirma Cassandra do outro lado da linha, ouço a mulher chorando. Porém naquele ponto já não conseguia prestar atenção naquilo, minha mente começava a entrar em curto circuito.

Como aquilo era possível? Podia não ser verdade, mas o que sua mãe ganharia com aquilo? Apenas seguro o telefone sem reação.

-Gabriel, eu te imploro, se você o ama, não deixe nada de ruim acontecer com meu filho.- suplica ela, e nesse momento meu coração pára, desligo o telefone.

Heitor surge subindo os degraus da igreja, diante meus olhos pensamentos passam como flashs, o garoto entra pela porta e seu corpo imediatamente explode em chamas, lhe consumindo. Precisava evitar isso, fosse verdade essa história de sua mãe ou não.

Sem perder mais nenhum segundo disparo na direção de Heitor, ao me ver sorri e antes que eu possa fazer algo ele se aproxima.

-Não!- exclamo em uma tentativa jogando meu corpo contra o dele.

Os segundos seguintes são aterrorizantes, fico estático esperando pelo fogo, mas nada acontece, o garoto me abraça, estava certo de uma coisa: havia evitado o pior.

Meu olhos encaram o chão, não! Eu não tinha chegado a tempo, sob meus pés encontrava o piso da igreja. Cassandra havia mentido pra mim? Encaro Heitor sem graça, não sabia o quão estranho podia ter sido aquela situação para ele.

-Sabe, por um minuto pensei que você fosse pegar fogo.- digo rindo, diferente de mim vejo o rosto de Heitor ficar pálido, aquilo havia lhe afetado, minha mente tentava organizar nas peças mas era inútil, talvez sua mãe não estivesse mentindo afinal mas isso era algo que não iria insistir ali.- Enfim, seja bem-vindo.

-Obrigado.- diz sorrindo, juntos seguimos pelo corredor da igreja, porém antes que possamos nos sentar vejo meu pai se aproximar. Ele agarra meu braço com força, ao perceber aquilo Heitor lhe encara irritado, se o homem não me soltasse em breve provavelmente iria apanhar.

-O que esse garoto está fazendo aqui?- indaga em quase sussurros, furioso.

-Ele veio para o culto.- digo ácido.

-Mas ele é filho daquela...- começa porém lhe interrompo.

-Não importa de quem ele é filho! Essa é a casa de Deus, não a sua, se Ele o aceitou aqui e se o Heitor quis vir, não é você quem vai decidir isso, então largue o meu braço e vá fazer o seu trabalho.- digo, o homem então dá um passo para trás, em seu rosto vejo um tom sutilmente mais ameno.

Depois disso tomamos nosso lugar no banco enquanto o pastor segue para dar início ao culto, sorridente ao meu lado Heitor tenta seguir o ritmo do restante da igreja, o que era um pouco complicado por ser sua primeira vez, rimos em alguns momentos.

Cerca de uma hora depois o culto acaba, muitos dos membros ainda permaneciam nos corredores em círculos de conversa.

-Me espere na saída da igreja.- digo a Heitor, ele assente. Parto por entre as pessoas até chegar no pastor que terminava de guardar suas coisas.

-Pai, eu estou indo pra rua conversar com o Heitor. Posso voltar um pouco tarde mas não se preocupe.- informo sério, o homem me encara por longos segundos.

-Se você acha que mudei minha opinião sobre ele por uma noite está muito enganado, você ainda está proibido de frequentar a casa dele.- diz rígido, me preparo para discutir mas ele levanta a mão.- Porém, hoje seu amigo demonstrou boa fé vindo ao culto. Volte antes de meia-noite.

Sorrio, não havia ido até ele buscando permissão, apenas estava informando o que iria fazer, porém aquilo não deixava de ser um avanço, volto até Heitor.

-Vamos?- convido, ele assente e juntos seguimos pela praça.

A cidade naquela noite estava calma e silenciosa, apenas alguns grupos de adolescentes em bares e lanchonetes aqui e ali.

Sempre que olhava para Heitor encontrava seus olhos brilhantes me encarando, mas ao ser retribuído ele desviava fitando o chão. Enquanto isso apenas seguia ao seu lado, sabia de coisas que antes eram um mistério e que agora começavam a fazer sentido, o corte brilhante no rosto do garoto, seus olhos vermelhos, a cauda que ele tinha em nosso sonho... Detalhes que me convenciam da revelação de Cassandra.

-Aonde você quer ir?- indaga ele quebrando o silêncio, o garoto encarava a rua perdido.

-Podemos ir no Tio Torra, é um bom lugar pra conversar.- digo já deduzindo o que estava por vir, ele percebe isso e me encara, apenas sorrio sem jeito.

Seguimos em silêncio por mais alguns metros, Heitor suspira.

-Gabriel, você estava falando sério quando disse que não importava de quem eu era filho?- questiono, sinto o garoto prender sua respiração, eu não estava muito diferente, meu coração batia acelerado, aquela era a confirmação de tudo, encaro o vazio e continuo andando, Heitor se retrai, parecia envergonhado.

Chegamos a cafeteria, o lugar estava tão vazio quanto era de costume, enquanto observo tudo o garoto toma frente e ocupa uma mesa ao fundo, me junto a ele.

Heitor se encolhia em sua cadeira, seus segredos lhe diminuíam ao ponto de ser visível, o garoto encarava a mesa tristonho, enquanto isso por dentro tentava me decidir, suspiro.

-Então, filho do Diabo?- indago começando aquela complicada conversa, o menino me encara surpreso.

-Como você... Como ficou sabendo?- indaga.

-Sua mãe ligou pra mim, ela achou que você morreria se entrasse na igreja e me implorou pra te salvar.- conto, vejo seu rosto corar.

-Eu não tinha pensado nisso, essa idéia de ser meio demônio é nova pra mim.- diz desconfortável.

-Quando ficou sabendo?- questiono preocupado.

-No dia do jantar... Quando chegamos em casa minha mãe estava muito exaltada, me disse que eu estava de te ver, eu perguntei por quê, ela disse que não poderia namorar um filho de um pastor, perguntei por quê não, ela se negou a resposta, insisti e ela acabou gritando comigo toda a verdade.- diz Heitor com lágrimas começando a vir aos seus olhos, ponho minha mão sobre a sua, o garoto me encara surpreso.

-Então foi por isso que você sumiu?- indago percebendo a opção, ele assente com a cabeça.

-Eu fiquei com vergonha, e medo também, me desculpe por não responder suas mensagens, achei que não seria certo te enganar, então hoje de manhã decidi fingir que nada estava acontecendo, por algum motivo pensei que daria certo.

-É cá estamos nós.- digo sério assimilando o que Heitor dizia.

-Estamos.- confirma sem jeito,- Eu sei que deve estar pensando um monte de coisas e se quiser terminar comigo, tudo bem, sou filho do Diabo, não é algo aceitável, mas antes eu precisava ser sincero com você.

Solto sua mão e me afasto um pouco, ouvir aquilo de sua boca era completamente horrível, diante dele percebo a verdade.

-Sabe que apreciei cada segundo com você enquanto era humano, não é mesmo? Mas isso que acabou de me dizer muda tudo.- digo, Heitor assente cabisbaixo.

-Tudo bem.- afirma.

-Você não me deixa outra escolha,- digo cruzando os dedos.- Sou obrigado a namorar o filho do Diabo.

Com essa última frase o garoto me encara atônito, em meio ao seu espanto um sorriso nasce. A verdade no fim das contas era que eu não me importava com o que Heitor era, lhe amava de qualquer jeito, era apaixonado por sua essência. O homem começa a enxugar os olhos.

-Obrigado.- diz emotivo, sorrio.

-Se você é realmente um demônio, então é Meu Demônio.

Heitor estende a mão e entralaça seus dedos com os meus, então puxa seu braço para perto de si e dá um beijo na parte da minha mão.

-Te amo.- diz ele, e naquele momento tudo era perfeito, mais uma vez, havia paz entre nós.



Meu Demônio (Romance Gay)Onde histórias criam vida. Descubra agora