— Irene La Selva, mulher de 49 anos, aparentemente uma tentativa de suicídio. Seu corpo se manteve preso ao carro, já que a paciente não se lembrou de tirar o cinto de segurança. Algumas lesões aparentes pelo corpo, uma laceração na perna esquerda, arranhados na cabeça e inchaço preocupante na caixa torácica.
As informações são dadas, enquanto a blusa azul bebê da esposa de Antônio La Selva é cortada ao meio, deixando aparente, apenas um sutiã branco de renda.
— Preparar aparelhagem para reanimação. Carrega em 100. Isso. Se afasta. Vamos Irene. Vamos. Carrega em 200. Se afasta. Você precisa voltar, Irene, ainda é tão jovem. Precisa. Última tentativa, carrega em 300. Afastar. Pronto. Já temos sinal vital. Por favor, levem-na para a sala de cirurgia imediatamente. Corre.
O silêncio e a penumbra da sala de cirurgia deixam o ambiente frio. O corpo de tipo físico invejável da mulher está sobre a mesa e pelo menos três médicos se empenham arduamente para controlar o sangramento interno presente no tórax dela.
— Ela está estável. — Anuncia, vitorioso. — Podemos fechar. — Observa os batimentos enquanto um som diferente toma a sala e passa a ser totalmente perceptível, aos ouvidos preocupados e pacientes de todos os presentes.
— Espera. — Se atentou. — Eu ouvi um batimento fetal? — Reagiu incrédulo.
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Irene acorda algum tempo depois. Sente um pouco de dor ao tentar se mexer e esbarrar nos fios que cobrem toda a região de seus seios. Tem maus jeitos por todo o corpo e quase um apagão dos fatos que a trouxeram até a situação que se encontra. Não é capaz de se lembrar de muitas coisas. Mas, sente a falta de Antônio, assim que abre os olhos e não o encontra.
— Você acordou. Se acalme, está tudo bem agora. Por favor, não se esqueça de respirar. Seus batimentos estão um pouco acelerados. Creio que a sua ansiedade em querer saber o que aconteceu não seja mais importante do que a sua melhora. — Alertou. — Você passou por muitas coisas hoje. Precisa descansar agora. Eu vou pedir um calmante pra você.
Ela encara a estranha que mexe em seu soro com desdenho. Como ela poderia saber o que seria melhor para ela? Por que não esclarecer de uma vez o que aconteceu? Por que não havia sequer um rosto conhecido naquela maldita sala para que ela pudesse finalmente se acalmar como queriam tanto? Teriam desistido dela? Será mesmo que não havia ninguém do seu círculo social ou familiar capaz de acompanhá-la nesse momento tão difícil?
Alguns flashes ficam mais fortes e os borrões somem das suas malditas lembranças do início da noite. Agora ela sabia exatamente porque estava ali, tão coberta de aparelhos. Antes mesmo que perguntasse a alguém, já tinha as respostas. Será que eles sabiam que o que houve não foi um acidente e sim uma tentativa de resolver tudo, de uma vez por todas? Por que estragaram todas as suas chances de morrer? Por que não a deixaram naquele penhasco que significa muito mais que um lugar perigoso? Por quê?
— Por que vocês me salvaram? — Indagou finalmente, ainda com a voz entorpecida pelo período final de anestesia. — Eu me lembro perfeitamente que não queria estar aqui. Podem me dizer porque não me deixaram morrer? — Questionou, incrédula.
— Você merece viver.
— Mas eu não quero. Não faz sentido. Eu perdi tudo o que eu tinha. Eu não sei o que vai ser daqui pra frente. Por que vocês não me deixaram naquele maldito penhasco até que eu desse meu último suspiro e pudesse encontrar finalmente meu filho de novo? Por que?
— Irene?! — Analisou. — Faz muito tempo que ela acordou? — Arregalou seus olhos com a ponta dos dedos, sem ao menos pedir permissão.
— Alguns minutos, doutor. Ela está muito agitada. Não acha melhor aplicar um calmante leve na veia dela? Algo que a faça descansar por ao menos duas horas? — Sugeriu, a tal metida de branco que continuava insistindo em cuidar de sua vida. A vida que ela nem se quer queria mais ter.
— Claro. Nós podemos. Vou pedir algo que não a fragilize ainda mais. Principalmente porque por um nobre milagre conseguimos salvar os dois.
— Espera. Eu não quero tomar nada. Estou bem. Posso perfeitamente me acalmar sozinha. — exitou antes de perguntar. — Você disse que conseguiu salvar os dois? Eu provoquei algum acidente? Machuquei alguém além de mim mesma quando arremessei o meu carro? Tinha alguém comigo no momento do acidente? Eu não consigo me lembrar. — Fechou os olhos, confusa.
— Fique tranquila Dona Irene, você e seu filho estão bem. O perigo já passou.
— Filho? Que filho? Por acaso você não sabe que o Daniel morreu há oito meses? Aqui mesmo, nesse hospital?
— Eu não me refiro ao Daniel e sim ao filho que a senhora está esperando. Você não sabia que estava grávida? — Atirou a notícia como se estivesse dando um furo no jornal nacional. E pelo visto, estava. Um furo de reportagem que só surpreendia uma única pessoa: A ela, a mãe de uma suposta criança que ela nem sabia que existia.
— Grávida? — Reagiu, boquiaberta.
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Antorene: The After
FanfictionE se Irene decidisse fugir da polícia? E se fosse obrigada a deixar Antônio para trás? E se Antônio fosse condenado a pagar por todos os crimes que cometeu, preso dentro de seu próprio império? Sozinho, como sempre temeu estar, até mesmo durante as...
