A noite envolvia o quarto como um manto de tranquilidade, quebrada apenas pelo som suave da respiração de Irene e Antônio. A lua derramava sua luz sobre o casal, iluminando o momento de reconexão. Era a primeira vez em meses que podiam desfrutar um do outro sem pressa, sem interrupções, sem a sombra do passado recente pairando sobre eles.
Irene repousava com a cabeça no peito de Antônio, sentindo o calor que emanava dele e o ritmo constante de seu coração, que aos poucos se acalmava. Ainda havia um toque de euforia no ar, e cheiro de sexo no quarto, como se ambos tentassem prolongar aquele instante perfeito.
Um silêncio confortável reinava, mas Irene percebeu algo nos olhos de Antônio. Ele parecia distante, os pensamentos vagando para longe. Ela ergueu o olhar, estreitando os olhos com curiosidade.
- Que foi, Antônio? Tá tão calado... Que houve? Tá pensando no quê? Hum?
[• NOVA PRIMAVERA (MS), 1993 •]
Antônio encarava a esposa Irene, ao fundo do quarto azul ciano e listras brancas. Sentada na poltrona com o filho deles Daniel, ela era embalada pelo som suave da respiração do recém nascido que dormia tranquilo nos braços da mãe. A moça, um pouco inexperiente e insegura ainda, descobrira a pouco o que era ser mãe.
Antônio a encarava impressionado quando finalmente cederam à tensão que os envolvia. Haviam passado 50 dias desde o parto de Daniel, e a esposa parecia tomada por inseguranças. Sentia-se vulnerável, e provavelmente a culpa era sua. Vinha dando indiretas e dicas sobre o desejo de retomar a vida a dois. Mas, mesmo que a desejasse como mulher, o homem ainda lutava contra os próprios medos.
Naquela noite, o quarto estava iluminado apenas pela luz suave do abajur. Irene, vestindo uma camisola de tecido leve, aproximou-se de Antônio. Ele estava sentado na beira da cama, a cabeça baixa, parecendo perdido em pensamentos.
- Antônio... - chamou, hesitante, mas com a dor de quem já não conseguia esconder a própria tristeza. - O que há comigo? Por que você não me toca mais?
Ele ergueu os olhos, revelando algo que a surpreendeu: não era desdém, nem desinteresse. Era medo.
- Irene, não pense assim. Você é linda... sempre foi. - Ele suspirou, passando as mãos pelo rosto. - Mas eu... eu tenho medo.
Apesar de serem casados a poucos meses, eles não tinham o hábito de mentir um para o outro.
Ela franziu o cenho e se aproximou ainda mais, ajoelhando-se diante dele e segurando suas mãos.
- Medo de quê? Antônio, sou sua esposa. Você não precisa se afastar de mim.
Ele desviou o olhar, como se estivesse envergonhado.
- Quando Caio nasceu... - começou, com a voz carregada de lembranças dolorosas. - Ágatha morreu. Depois disso, nós nunca mais... nunca mais fomos marido e mulher de novo. Eu não tenho como saber sobre um depois que nunca vivi antes.
O silêncio que se seguiu foi cortante. Irene piscou, tentando absorver a revelação.
- E você acha que isso vai acontecer comigo? - perguntou, com a voz trêmula, mas firme.
Antônio finalmente olhou para ela, seus olhos brilhando com emoção.
- Você pode duvidar do que eu vou dizer mas... eu gosto muito de você Irene. Você me deu o que eu mais quis ter um dia. Eu não suportaria. Se alguma coisa acontecesse com você... Eu não sei o que faria.
Ela tocou seu rosto com delicadeza, forçando-o a encará-la.
- Antônio, olha para mim. Estou aqui. Estou bem. Nada vai acontecer comigo. Você precisa acreditar nisso. Também não tenho saber como o "depois" do resguardo funciona. É a minha primeira experiência também.
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Antorene: The After
FanfictionE se Irene decidisse fugir da polícia? E se fosse obrigada a deixar Antônio para trás? E se Antônio fosse condenado a pagar por todos os crimes que cometeu, preso dentro de seu próprio império? Sozinho, como sempre temeu estar, até mesmo durante as...
