[• CORUMBÁ (MS), 1984 •]
A sala estava mal iluminada, com apenas a luz de uma lâmpada pendurada no teto, oscilando como se prestes a se apagar. Irene, com apenas dez anos, estava sentada no chão, brincando com o anel que acabara de ganhar. Era um presente simples, mas significativo. Sua mãe, apesar das dificuldades, havia economizado o pouco que tinha para comprar aquele doce especial que trazia o anel de brinquedo. Seu sonho era um de brilhantes. Mas, aquele anel verde preso ao pacote de doce já era muito mais que a mãe pudesse dar.
― Gostou, minha filha? ― a mãe perguntou com um sorriso cansado, enquanto dobrava roupas no canto da sala.
Irene sorriu, os olhos brilhando de alegria.
― Gostei muito, mamãe! É o anel mais bonito do mundo!
A menina girava o anel nos dedos, imaginando histórias de princesas e castelos, até que a porta da sala foi aberta com um estrondo. Leonardo, o pai de Irene, entrou com passos firmes, o som de suas botas ecoando pelo chão de madeira.
― O que é isso? ― perguntou, a voz baixa, mas carregada de autoridade, enquanto olhava para o objeto na mão da filha.
― Um anel. ― respondeu, segurando o brinquedo com firmeza, como se soubesse que ele estava prestes a ser tirado dela.
Leonardo estreitou os olhos, caminhando até ela. ― Quem deu isso a você?
― A mamãe. ― Irene murmurou, olhando para a mãe, que abaixou os olhos, temendo a reação do marido.
Ele estendeu a mão.
― Me dê isso.
― Não, por favor! ― tentou proteger o anel, mas Leonardo o arrancou de suas mãos com um movimento brusco.
- Filha minha não usa essas coisas de vagabunda não. - encarou a esposa, ao fundo da sala.
Mais tarde, enquanto todos já dormiam, ele visitou o quarto da filha, como de costume, e a obrigou a olhar para ele.
― Você não entende, menina. Esse anel é mais importante do que você imagina. ― Ele segurou o objeto com firmeza, aproximando-se dela. ― Agora, coloque no dedo.
― Mas, você disse que... ― Irene começou, a voz trêmula. ― É melhor não usar.
Leonardo inclinou-se até ficar na altura da menina, os olhos frios cravados nos dela.
― Eu disse para colocar. Não me faça repetir.
Com lágrimas nos olhos, Irene pegou o anel e deslizou-o no dedo anelar. Ele era pequeno demais, apertando sua pele, mas ela não ousou reclamar.
Leonardo deu um sorriso sombrio, um sorriso que fazia o estômago de Irene revirar.
― Muito bem. Agora você é minha esposa.
― Esposa? ― A palavra saiu em um sussurro, o peso dela esmagador para a mente de uma criança.
Leonardo segurou o queixo de Irene com força, obrigando-a a encará-lo.
― Sim. A partir de agora, você pertence a mim. E não se atreva a tirar esse anel. Nunca. Entendeu?
Irene assentiu, o medo fazia as lágrimas escorrendo silenciosamente pelo rosto.
Mais tarde, sozinha em seu quarto, ela tentou tirar o anel. Puxava e puxava, mas ele parecia preso ao dedo, como uma corrente.
― Por favor, saia... ― ela sussurrava, os olhos fixos no brinquedo que agora parecia amaldiçoado.
Ela chorou em silêncio, escondendo o rosto no travesseiro, sentindo-se presa a algo que não entendia completamente, mas sabia que era errado. O anel, que antes simbolizava alegria e amor, agora era um lembrete cruel daquilo que seu pai havia lhe tirado: sua inocência, sua liberdade, e a capacidade de amar alguém um dia.
[• NOVA PRIMAVERA (MS), 2024 •]
Irene tremia enquanto olhava novamente para o bilhete. Suas mãos mal conseguiam segurar o papel, que parecia pesar uma tonelada. Ao lado do bilhete, repousava o pequeno anel de brinquedo. O objeto simples, colorido, trazia consigo um peso esmagador. Irene sentiu seu estômago revirar e o gosto amargo da memória lhe invadiu a boca.
Como poderia esquecer daquele dia?
Como poderia se livrar do passado doentio ao qual fazia parte?
Como?
Ela respirou fundo, mas a imagem de sua infância voltou com uma força cruel. Lembrou-se do dia em que sua mãe, com um sorriso doce, lhe deu aquele anel como brinde de um doce que comprara com sacrifício. Foi uma das poucas vezes em que Irene sentiu a leveza de ser apenas uma criança. Mas essa lembrança logo foi contaminada pelo olhar frio e insensível de seu pai.
Ele a forçou a colocar aquele mesmo anel, num ato distorcido que chamou de "casamento". Irene estremeceu ao recordar as palavras dele, o aperto cruel em seu ombro, o tom de voz que a fez sentir-se sufocada, presa em uma situação que ela não entendia completamente, mas que sabia ser errada.
Agora, anos depois, aquele anel voltava a aparecer, como um fantasma que ela tentou esquecer. Mas o que realmente a fez entrar em pânico foi o bilhete que acompanhava o objeto:
"Saia de casa agora. Não avise ninguém. Vá sozinha ao lugar onde você aceitou um novo enlace matrimonial sem desfazer o antigo. Apenas você. Não tente chamar ajuda. Sua filha está comigo, e só você pode salvá-la."
A última frase fez o mundo de Irene desabar. Aruna, sua filha, seu maior amor, estava em perigo. Ela segurou o bilhete com força, as lágrimas começando a escorrer por seu rosto.
― Quem faria isso? ― sussurrou para si mesma, a voz carregada de desespero. ― Quem sabe sobre o meu passado? Quem saberia tanto sobre esse maldito anel?
Ela olhou para o sofá, onde Antônio, seu marido, dormia profundamente. Ele não sabia nada sobre o bilhete ou o anel. Ele não sabia que o passado de Irene tinha voltado para assombrá-los.
― Eu não posso contar a ele... ― ela murmurou, o coração apertado. ― Não posso colocá-lo em risco. Não posso arriscar Aruna.
Irene caminhou até a mesa da cozinha, onde colocou o anel cuidadosamente, como se ele pudesse explodir a qualquer momento. Ela sabia que Antônio entenderia ao vê-lo. Saberia que algo estava errado, que ela havia ido fazer algo importante.
― Me perdoe, Antônio... ― ela disse baixinho, a voz embargada. ― É a única maneira de salvar nossa filha.
Ela respirou fundo, pegou o bilhete novamente e saiu de casa às pressas, sentindo o coração disparar a cada passo. A noite estava fria, e Irene se sentia pequena e desprotegida, como a menina que um dia foi.
O endereço indicado no bilhete a levou até a fazenda onde ela e Antônio haviam se casado anos atrás. Era o local onde tinham prometido um futuro juntos, onde ela acreditou que poderia finalmente ser feliz. Agora, aquele lugar parecia sombrio, uma lembrança distorcida de dias melhores.
Ao chegar, Irene parou em frente à entrada da sede da cooperativa. A lua cheia iluminava o terreno, e o silêncio da madrugada parecia gritar em seus ouvidos. Ela apertou as mãos contra o peito, tentando controlar a respiração.
― Estou aqui... ― ela disse para si mesma, tentando reunir coragem. ― Estou aqui, Aruna. Mamãe vai te salvar.
Ela deu um passo para dentro do salão principal, o coração batendo tão forte que parecia ecoar pelas paredes. Então, viu uma figura na penumbra.
― Quem está aí? ― Irene perguntou, a voz trêmula.
A pessoa deu um passo à frente, saindo das sombras. Quando Irene reconheceu quem era, seu corpo inteiro ficou paralisado.
― Você? Não pode ser...
O choque em sua voz ecoou pelo espaço vazio. Irene encarou a pessoa, incapaz de acreditar no que via. O passado e o presente pareciam se fundir em um só momento, e ela soube que estava diante da resposta para todos os seus medos.
Mas também soube, com uma certeza esmagadora, que aquela noite estava longe de acabar.
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Antorene: The After
FanfictionE se Irene decidisse fugir da polícia? E se fosse obrigada a deixar Antônio para trás? E se Antônio fosse condenado a pagar por todos os crimes que cometeu, preso dentro de seu próprio império? Sozinho, como sempre temeu estar, até mesmo durante as...
