Por Que Me Salvou?

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IRENE ON:
O quarto do hospital estava silencioso, exceto pelo leve som de Aruna dormindo no berço ao lado da cama. Meu corpo ainda estava fraco, mas minha mente estava alerta, absorvendo cada detalhe daquele momento. As paredes brancas pareciam sufocantes, mas o som ritmado do monitor cardíaco trazia um tipo estranho de conforto. Eu estava viva. E minha filha também. Depois de tudo o que passei nos últimos meses, o medo constante, enquanto vivia a melhor espera da minha vida ao lado de Antônio, minha mente confusa diante de tantas coisas. A minha certeza de que iria morrer, já não me dava mais esperança. Eu esperava constantemente pelo dia em que Damião me mataria. E enquanto esperava, só imaginava um jeito de vê-la, pelo menos uma vez. Essa é a única imagem que eu queria ter.

- Ah filha... - Sussurrei, o peito ainda pesado por tudo o que passamos. - Você é tão linda minha filha. - Admirei. - Eu nunca iria conseguir te deixar. Nunca.

A porta se abriu lentamente, Petra e Luigi entraram, hesitantes. Seus olhos estavam carregados de preocupação e cansaço, mas também de alívio ao me ver acordada. Ela parecia ter envelhecido anos em questão de horas. Todos estavam assim. Todos temeram junto comigo. Ele, me encarava descrente.

- Mãe... - ela começou, a voz trêmula.

Estendi a mão para ela, ignorando a dor que isso me causava, já que ainda estava ligada a muitos aparelhos que monitoravam a todo momento a minha saúde. Todos estavam atentos, depois de tudo o que passei.

- Estou bem, minha filha - respondi, tentando oferecer o máximo de firmeza na voz. - Venha cá.

Ela atravessou o quarto rapidamente e me envolveu em um abraço apertado. Um abraço tão bom que parecia um abrigo. A pessoa a quem eu havia escolhido para ser mãe no meu lugar caso tudo desse errado. Alguém em quem eu confio com tudo o que tenho.

- Eu achei que... - começou, mas sua voz falhou, e ela engoliu as palavras.

Apertei-a com mais força, ignorando o ardor no peito.

- Eu sei, querida - sussurrei, acariciando seus cabelos. - Mas estamos aqui, e Aruna está bem. Isso é o que importa agora.

Ela se afastou, enxugando as lágrimas antes de olhar para o bercinho, encarando o marido em seguida, enquanto mostrava com orgulho a irmã, que dormia de forma serena ao meu lado.

- Ela é tão pequenininha - disse, um sorriso suave surgindo em seus lábios. - E tão linda.

- Irene, ainda bem que tudo acabou bem não é? Você e a bambina estão a salvo. É bom te ver bem. Sorriu, ao tocar uma de minhas mãos.

Observei Petra e Luigi enquanto se inclinavam para olhar Aruna. A ternura em seus olhos fez meu coração apertar. Apesar de tudo o que passamos, estávamos ali, juntos. Foi então que senti um peso diferente no peito, algo que precisava ser dito.

- Petra, tem algo que preciso saber - comecei, minha voz séria.

Ela se virou para mim, surpresa.

- O que foi?

Respirei fundo.

- Seu irmão, Caio... - fiz uma pausa, sentindo o peso das palavras. - Ele está bem?

Os olhos dela se arregalaram, refletindo choque e incredulidade.

- Caio? - Ela balbuciou, como se o nome fosse um sussurro proibido. - Eu não sei, mas acredito que o ferimento no pé já esteja sendo observado mãe, fica tranquila.

Assenti lentamente, sentindo lágrimas arderem em meus olhos.

- Ele arriscou tudo para nos tirar daquela cabana. E mesmo quando levou um tiro no pé, ele não recuou. Não fosse por ele e Antônio, eu e Aruna não estaríamos aqui agora. - Reconheci. - Petra, eu devo a minha vida a ele. - Encarei minha caçula, emocionada. - E a dela também.

Petra se sentou ao meu lado, tentando processar o que eu havia dito.

- Eu sempre soube que Caio tinha um bom coração, mesmo com tudo o que aconteceu entre vocês. - ela murmurou, mais para si mesma do que para mim. - Mas, saber que ele salvou a sua vida, te carregando nos braços mesmo que isso custava a dele... Foi surpreendente até para mim.

Segurei sua mão, sentindo o tremor nela.

- Ele provou isso hoje. Ele não é apenas seu irmão, Petra. É um homem de coragem e honra.

Ela ficou em silêncio por um momento antes de levantar os olhos para mim.

- Você pode ver se ele está bem? - Supliquei. - Eu não vou conseguir descansar em paz enquanto não souber como ele está.

- Ele está em outro andar, se recuperando da cirurgia no pé - Antônio interrompeu, ao entrar no quarto. - Já fui me informar sobre ele e já falei sobre como somos gratos.

Uma cirurgia, por minha causa? Me levantei, os ombros eretos, enquanto acabara de tomar uma decisão.

- Eu preciso vê-lo - respondeu, com determinação. - Preciso falar com ele.

- Eiii, perai mulher, perai. - Pediu. - Você acabou de dar a luz. Ainda tá fraca por causa desse tal sequestro e essa loucura toda. Precisa descansar. Olha a menina aí.

- Eu não vou conseguir descansar enquanto não ver o Caio. - Falei sobre minha angústia. - Enquanto não falar com ele. - Me levantei, pegando Aruna nos braços. - Eu não demoro.

CAIO ON:
O quarto de hospital estava silencioso, exceto pelo bip ritmado do monitor cardíaco. Eu encarava o teto branco, sentindo a ardência latejante em meu pé recém-operado. O corpo imobilizado e os analgésicos me deixavam em um estado entorpecido, mas minha mente corria, incapaz de se aquietar.
Eu ainda podia sentir o peso de Irene em meu colo, os gritos abafados de dor e os olhos marejados que imploravam por ajuda enquanto lutava para não desmaiar. Apertou os olhos, tentando apagar a imagem, mas, por algum motivo, sei que jamais conseguiria.
Salvá-la tinha sido um instinto. Mesmo com todas as brigas e farpas trocadas ao longo dos anos, Irene era parte da família. E, naquele momento de desespero, tudo o que importava era garantir que ela e a bebê sobrevivessem.

Ele ainda se lembrava do cheiro metálico do sangue e da expressão de alívio dela ao vê-lo enfrentando os sequestradores, ignorando a dor que rasgava seu próprio corpo. Por um breve momento, Irene segurou sua mão com uma força que Caio nunca imaginou que ela tivesse.

"Não solta... por favor..." - A voz dela ecoava em sua mente.

Ele não soltou. Até que ela estivesse nos braços de Antônio. A defendeu até quando a dor no pé quase o fez desmaiar. Agora, sozinho, ele encarava o vazio do quarto e sentia um peso no peito. Quantas vezes ele havia desejado que ela sumisse de sua vida? Quantas palavras duras tinha lançado sem pensar? E, no entanto, ali estava ele, quebrado, mas vivo, porque não podia suportar a ideia de perdê-la.

Caio passou a mão no rosto, tentando afastar as lágrimas que ameaçavam cair. Talvez fosse o efeito dos remédios, ou talvez fosse o início de algo que ele temia admitir: Arrependimento.

- Por que você foi fazer aquilo? - perguntou em um tom de voz que não se parecia com um sussurro, quebrando o silêncio. - Por que salvou a minha vida sem que eu merecesse?

Ele se assusta ao ver a mulher, apoiada em uma enfermeira, segurava um pequeno embrulho cor de rosa nos braços. Seus olhos encontraram os dele, e por um segundo o tempo parou.

- Irene. A encarou surpreso. - Você veio.

- Vim. - disse timidamente, a voz fraca, mas carregada de gratidão. - Eu queria que você conhecesse a sua irmã. Se aproximou.

Caio sentiu a garganta apertar. Ele olhou para a bebê adormecida e depois voltou para Irene. Talvez aquele fosse o começo de um novo capítulo. Um onde eles finalmente deixariam as mágoas para trás.

Antorene: The AfterHistórias para pegar e não largar. Descubra agora