Antônio fechou a porta com cuidado, mas Irene, sentada no sofá, já havia percebido a tensão no rosto do marido. Ela ergueu o olhar da xícara de chá que segurava, um frio percorrendo sua espinha. Sorriu para a filha que estava em seu colo e decidiu que a colocaria no carrinho, para que pudesse entender a agonia de seu pai.
- Antônio... O que houve? - perguntou, embora soubesse que nem imaginasse o quanto não estava preparada para a resposta.
Ele suspirou profundamente e caminhou até ela, sentando-se ao seu lado. Segurou as mãos de Irene com firmeza, como se precisasse ancorá-la antes de revelar a verdade.
- Antônio, você está me assustando. - o encarou, com os olhos vazios.
- Dirceu foi encontrado morto hoje de manhã, Irene. Na cela.
A notícia caiu como uma pedra, arrancando o ar de seus pulmões. Irene congelou, o olhar perdido no vazio. Seu coração acelerou, mas a mente não sabia como reagir. Morto? Seu irmão mais novo estava morto.
[• CORUMBÁ (MS), 1983 •]
A vida não era fácil. A pobreza parecia ser uma sombra constante, e os dias se arrastavam com o peso das dificuldades. Mas, naquela tarde de domingo, aos nove anos, Irene não conseguia deixar de olhar para Dirceu com um brilho nos olhos. O irmão que havia acabado de nascer parecia tão frágil, tão dependente de todos, mas ao mesmo tempo, um reflexo da esperança que ela se recusava a deixar morrer.
- Mãe, será que ele vai ser forte? - Irene perguntou, ainda observando o irmão adormecido nos braços da mãe. - A gente pode ficar com ele? Temos dinheiro pra comprar o leite dele?
A mãe olhou para ela com um sorriso cansado, mas cheio de ternura.
- Ele já é forte, minha filha. Mesmo que ainda seja tão pequenininho, ele tem muita força. Nós vamos ficar com ele sim. Não se preocupa, viu?
A menina olhou para o irmão e sentiu como se todo o amor do mundo estivesse concentrado naquele bebê frágil. Ela imaginou que, talvez, ele fosse a chave para algo maior. Talvez, o motivo para suportarem as dificuldades.
- Eu vou ajudar você a cuidar dele, mãe. Vou proteger, ensinar, ajudar a ele crescer forte... - disse Irene, quase como uma promessa.
A mãe a observou, tocando suavemente seus cabelos.
- E ele vai te fazer companhia. Não duvide disso, filha. Ele vai ser seu melhor amigo.
Irene não sabia explicar, mas algo dentro dela sentia que, de alguma forma, Dirceu não era apenas o irmãozinho que ela amava. Ele era mais do que isso: ele era a esperança contra a miséria que os cercava, a razão pela qual eles ainda acreditavam que poderiam, um dia, encontrar a felicidade.
[• NOVA PRIMAVERA (MS), 2024 •]
- Como? - conseguiu perguntar, a voz mal saindo.
- Foi... linchamento. - Antônio escolheu cuidadosamente as palavras, mas não havia maneira de suavizar aquilo. - Outros presos. Parece que estavam esperando o momento certo.
Irene deixou o corpo tombar contra o encosto do sofá. A xícara escorregou de suas mãos e caiu no tapete, mas ela não se importou. Sua mente viajou para outro tempo, outro lugar, muito antes de Dirceu se tornar o homem que destruiu sua família.
[• CORUMBÁ (MS), 1988 •]
- Não solta, Irene! Não solta! - o menino de cinco anos e meio gritava, sem sequer olhar para trás.
- Confia em mim, Dirceu! Você consegue! - respondeu ela, rindo suavemente da insegurança do irmão.
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Antorene: The After
FanfictionE se Irene decidisse fugir da polícia? E se fosse obrigada a deixar Antônio para trás? E se Antônio fosse condenado a pagar por todos os crimes que cometeu, preso dentro de seu próprio império? Sozinho, como sempre temeu estar, até mesmo durante as...
