Doentio

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Irene engoliu em seco, sentindo o corpo estremecer enquanto a figura à sua frente se movia mais para a luz. Seus olhos, ainda arregalados pelo choque, encararam o rosto que ela havia enterrado nas memórias mais sombrias de sua vida. O homem a quem ela havia lutado anos para esquecer estava ali, diante de seus olhos.

- Oi filhinha... Não vai abraçar esse seu velho pai?

Leonardo Aldrava, seu pai, virou-se lentamente, e Irene sentiu o chão desabar sob seus pés. Ele segurava Aruna no colo, como se a bebê fosse um prêmio conquistado. Os olhos arregalados da criança, brilhando com lágrimas, fizeram o coração de Irene se despedaçar.

- Leonardo?!

O pai que ela nunca mais quis ver. O homem que transformou sua infância em um pesadelo. Ele estava ali, parado, com o mesmo olhar frio e calculista de décadas atrás. Mas agora, havia algo ainda mais ameaçador em sua presença, algo que fez Irene dar um passo instintivo para trás.

Surpresa, minha querida? ― Leonardo falou com um sorriso torto, enquanto dava mais um passo em sua direção.

Não pode ser... ― Irene balbuciou, a voz trêmula. ― Você está morto.

Leonardo riu, um som áspero que fez os pelos de Irene se arrepiarem.

Morto? Essa é a história que você escolheu acreditar para se livrar de mim, não é? ― Ele inclinou a cabeça, observando-a como um predador observa sua presa. ― Mandou que aquele capanga de Antônio desse cabo de mim, não foi? Acha que eu não sei que você queria me matar? Mas... O dinheiro... Ele convence qualquer pessoa a recuar.

- O que você está fazendo aqui? O que quer de mim? Por que voltou depois de tanto tempo pra infernizar a minha vida? Por que?

- Eu nunca estive longe, minha menina. Estive aqui, assistindo a sua vida, diante dos meus olhos. Eu nunca estive tão vivo. - comemorou.

Irene sentiu as pernas fraquejarem, mas se obrigou a manter a postura. Não podia demonstrar fraqueza. Não agora.

Porque pegou a minha filha? ― ela perguntou, tentando soar firme. ― O que você quer com ela?

Leonardo estalou a língua, como se a pergunta o irritasse.

Sempre tão impetuosa... ― Ele levantou uma mão, e chamou a mulher, alguém que Irene desconhecia. Entregou-lhe a menina e se retiraram do recinto.

Solta a minha filha, seu desgraçado. ― Irene gritou, dando um passo à frente.

Leonardo ergueu a mão livre, um sinal claro para que ela parasse.

Não tão rápido, Irene. ― Ele sorriu novamente, mas seus olhos estavam gelados. ― Essa pequena preciosidade é minha garantia de que você vai me ouvir.

Eu não vou deixar você machucar a minha filha.

Leonardo balançou a cabeça lentamente, como se estivesse apreciando o momento.

Ah, Irene... Você ainda não entendeu, não é? Não quero machucar Aruna. Quero salvar você.

Salvar? ― Irene cuspiu a palavra, o ódio crescendo dentro dela. ― Salvar do quê? Você é o único monstro aqui!

Leonardo ignorou o insulto e continuou, a voz baixa e séria.

- Eu só estou aqui, para tirar todas as pessoas que atravessaram meu caminho.

- Damião. - perguntou, a voz baixa, mas carregada de tensão. - Foi você que matou o Damião...

Leonardo arqueou uma sobrancelha, surpreso pela pergunta, mas logo um sorriso frio apareceu em seus lábios.

Antorene: The AfterOnde histórias criam vida. Descubra agora