A escuridão da madrugada invadia as frestas das cortinas, mas Irene e Antônio não haviam dormido nem por um segundo. A casa, normalmente um refúgio, agora parecia um labirinto sufocante. Eles vasculhavam cada canto, como se o simples ato de procurar pudesse aliviar a dor do vazio deixado pela ausência de Aruna, sua bebê de apenas cinco meses, sequestrada na noite anterior.
― Antônio, você olhou atrás da estante? ― Irene perguntou, agachada no chão enquanto esvaziava uma gaveta cheia de papéis.
― Atrás da estante? ― Antônio respondeu, arqueando uma sobrancelha. ― Irene, como uma pista pode parar atrás de uma estante?
― Eu não sei! ― ela retrucou, frustrada. ― Talvez quem a levou tenha deixado algo para trás.
Ele suspirou, mas obedeceu, puxando a estante com esforço. Uma nuvem de poeira subiu, fazendo-o tossir.
― Eu devia ter previsto isso, ― murmurou, esfregando os olhos enquanto tentava enxergar o que havia atrás. ― Nada além de... espere, o que é isso?
Ele pegou um pequeno botão dourado, segurando-o como se fosse a chave de todo o mistério.
― Um botão? ― Irene cruzou os braços. ― Isso é tudo que você encontrou?
― Ei, talvez seja importante! ― Antônio respondeu, ofendido. ― Pode ser do casaco de quem entrou aqui.
― Antônio, ninguém usa um casaco desses desde o século passado. Isso deve ter caído do casaco velho que eu doei. ― Irene revirou os olhos e voltou para o que estava fazendo.
Enquanto isso, Antônio tentou examinar a mesa de centro, mas acabou derrubando um vaso, espalhando cacos de vidro pelo chão.
― Ótimo, agora temos um campo minado no meio da sala, ― Irene resmungou, tentando não pisar nos pedaços enquanto recolhia outros objetos.
― Desculpa, tá? ― Antônio disse, apressado, pegando uma vassoura. ― Você acha que eu queria quebrar o vaso?
― Não, mas você também não está ajudando muito.
Apesar das trocas ácidas, ambos continuaram. Encontraram uma fita de cabelo de Aruna na sala, um copo com marcas de dedo na cozinha e um pedaço de papel amassado no quintal com rabiscos ilegíveis.
― Nada disso ajuda! ― Irene gritou, jogando o papel no chão. ― Eu estou enlouquecendo, Antônio.
― Nós vamos achar alguma coisa, Irene, a gente só precisa continuar procurando. ― Ele colocou as mãos nos ombros dela, mas ela se afastou, ainda consumida pela frustração.
Quando a noite caiu, o cansaço parecia que finalmente venceria. Antônio adormeceu no sofá, exausto, enquanto Irene ficava sentada no chão do quarto de Aruna, segurando um de seus brinquedos favoritos. Mas algo dentro dela se recusava a parar.
"O CORPO DE DAMIÃO FOI ENCONTRADO POSSO AO RIO..."
Ela olhou para Antônio, agora respirando pesadamente, e tomou uma decisão.
Silenciosamente, pegou sua bolsa, as chaves do carro e saiu pela porta da frente. O ar gelado da noite a envolveu, mas ela não hesitou. Dirigiu até o rio onde o corpo de Damião foi encontrado. Tinha a total certeza de que esse era o último lugar conectado ao desaparecimento de sua filha.
Chegando lá, Irene estacionou o carro e saiu com uma lanterna em mãos. O lugar era sombrio, cercado por árvores que balançavam ao vento. O som do rio correndo era quase hipnotizante, mas ela manteve o foco. Ser mãe exigia coragem. Por um momento, acreditava ser melhor ter avisado a Antônio. Mas, já tinha ido longe demais para voltar atrás. Agora, não sairia daquele lugar sem algo que a trouxesse esperança.
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Antorene: The After
FanfictionE se Irene decidisse fugir da polícia? E se fosse obrigada a deixar Antônio para trás? E se Antônio fosse condenado a pagar por todos os crimes que cometeu, preso dentro de seu próprio império? Sozinho, como sempre temeu estar, até mesmo durante as...
