Impotência

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Era madrugada. A casa estava envolta em um silêncio tranquilo, interrompido apenas pelo som suave do vento batendo contra as janelas.
Um pouco inquieta, Irene vestiu o robe de seda, ainda com os pensamentos dispersos da noite apaixonada que compartilhou com Antônio, ele realmente havia conseguido acalmá-la de toda a angústia que sentia quanto a morte horrorosa de seu único irmão. Seu coração estava mais tranquilo quanto a isso. Mas, por algum motivo, a mulher havia acordado à pouco, a boca seca e pensamentos a mil. Levantou-se da cama devagar, buscou um copo d'água ao lado e quando preparava-se para deitar de novo, sentiu-se leve, quase em paz, quando ouviu a voz sonolenta de Antônio atrás dela.

Hum, acordada ainda meu amor? - beijou seu rosto, enquanto se encaixava em seu quadril. - Pensando na nossa noite? - Sussurrou. - Tá querendo fazer amor de novo? Hum?! - mordeu sua orelha, animado.

Ela riu baixinho, voltando-se para ele.

Suas propostas são sempre irrecusáveis amor. - O beijou, começando a ficar quente. - Eu sempre quero. Tô sempre pronta pra te amar até amanhecer. - mordeu de leve um dos ombros do homem enquanto ele começava a se mover por baixo dos lençóis.

O casal deu outros beijos e Irene sentiu angústia.

- Perai amor. - se afastou de repente. - Espera um pouquinho.

- Que foi, Irene, aconteceu alguma coisa?

- Não, tá tudo bem. Eu só queria dar uma olhadinha na Aruna antes. Você sabe, coisa de mãe. Quero ver se ela está dormindo bem. Você vem comigo? - Selinhou sua boca, antes de levantar.

Antônio sorriu, estendendo a mão preguiçosa para puxá-la de volta à cama.

Vou. É claro que eu vou. Vai indo que eu vou no banheiro e já te sigo.

Irene assentiu e saiu do quarto, os passos leves como uma brisa. Sempre gostou de observar o corredor como se fosse uma completa novidade para ela. A decoração era linda. Mas, o quarto de Aruna ficava um pouco mais longe do que ela gostaria. Pensava inclusive em fazer algumas mudanças.

Quando chegou à porta do quarto de caçula, o coração de mãe deu um leve aperto, Irene tonteou, sentiu que não estava tudo certo quanto sempre viu que estava. - um impulso inexplicável de conferir se estava tudo bem. Assim que abriu a porta, apressada, foi recebida por uma visão angustiante e cheia de desespero: o berço vazio e um cenário totalmente estranho. O pequeno travesseiro da filha estava no chão e a cobertinha quase solta do berço. Um cenário de guerra.

O pânico subiu em sua garganta, cortando o ar. Seus olhos percorreram o quarto, tentando encontrar alguma explicação. Andou por todo o quarto e viu que a babá eletrônica havia sido desligada, as câmeras estavam tampadas e, a pequena chupeta cor rosa fraca, estava caída perto da janela, totalmente aberta.

Aruna? ― chamou em um sussurro desesperado, como se sua filha pudesse responder. - Meu Deus, cadê a minha filha?

As pernas fraquejaram e ela sentiu a pressão baixar, mas a adrenalina a empurrou de volta ao quarto onde Antônio ainda não tinha voltado do banheiro. Ela bateu na porta com força, a voz embargada.

Antônio! Antônio! Pelo amor de Deus, vem aqui!

Ele abriu a porta apressado, e encarou o pavor estampado no rosto dela. Sentiu o corpo tremer, mas jamais imaginava a notícia que estava por vir.

O que foi, Irene? o que aconteceu? - amparou a mulher que mal conseguia se mexer em seus braços.

A Aruna sumiu, Antônio. - alertou. - Ela não está no berço.

Como assim, sumiu?

Eu fui olhar! O berço está vazio! O cobertor dela está quase caindo no chão, a chupeta na janela. Antônio, alguém levou nossa filha. - gritou, desesperada em fazer com que o homem entendesse a gravidade do que estava acontecendo.

O choque de suas palavras atravessou Antônio como uma corrente elétrica. Ele sabia que precisava acalmar a esposa e fazia um esforço enorme pra isso. Mas, não pôde negar o quanto seu coração começava a apertar.

Irene, calma. Calma. Vamos até lá, pode ser... sei lá, pode ser outra coisa.

Outra coisa? Que outra coisa? Ela é só um bebê, Antônio! Minha filha... nossa filha... ela não está lá, onde eu deixei ela dormindo, quietinha, quentinha e de barriga cheia.

Vamos, vamos olhar juntos.

Os dois correram até o quarto de Aruna. Irene apontava os detalhes, falando rápido e quase sem respirar.

A janela está aberta... mas eu tinha fechado! A chupeta estava com ela, e ela não solta durante a noite, de jeito nenhum. Dorme bonitinha até acordar para mamar. E mesmo que soltasse, como essa chupeta foi parar na janela? - mal conseguia respirar, o desespero era tamanho. - Antônio, alguém entrou aqui e levou nossa filha!

Ele ainda tentava manter a calma, mas a ideia de perder Aruna fez seu coração disparar de pavor. Olhou ao redor, observando pegadas leves no chão de madeira, como de alguém descalço. Irene tinha razão. Alguém teria pego a sua filha e a levado sabe lá Deus pra onde. Ele precisava fazer algo. Então, tentou se acalmar.

Irene, fique aqui. Não toque em nada. Vou verificar a casa toda. - o colchão ainda tá quentinho. Isso não pode ter acontecido há muito tempo. - Liga para a polícia, agora. A gente vai descobrir o que aconteceu.

Irene pegou o celular com as mãos trêmulas, as lágrimas rolando pelo rosto enquanto discava o telefone da delegacia. Número este que ninguém nunca espera chamar. Nem pedir socorro.

Alô, delegado? É a Irene. Irene la Selva. Minha casa foi invadida e a minha filha de cinco meses desapareceu. Por favor, me ajuda. - voltava a chorar sempre que ouvia o que dizia. Era como se sua ficha de repente caísse e ela entendesse de fato o que estava acontecendo.

Enquanto isso, Antônio descia as escadas, cada passo carregando o peso de um pesadelo que ele esperava nunca viver. O silêncio da casa era assustador, o eco de seus próprios movimentos parecia zombar de sua impotência.

Varreu a casa escura com os olhos, acendeu todas as luzes e tentou buscar qualquer pista ou sinal que pudesse revelar o que havia acontecido com a sua menininha. Tudo estava quieto. Aparentemente tranquilo. Correu para fora e observou as marcas do carro. E então, a depressão sobreveio sobre ele. Uma sensação de solidão inimaginável.

No quarto, Irene sussurrava para si mesma, como se tentando acreditar nas próprias palavras. Um mantra. Um desejo.

Ela vai voltar... alguém vai trazê-la de volta... ela vai voltar... Antônio! - encarou o marido que a olhava derrotado. - Foi ele. Só pode ter sido ele, Antônio. O Damião voltou e pegou a minha filha. - gritou, enquanto voltava a chorar. - Eu sabia que aquele desgraçado não ia deixar a gente em paz. Ele pegou a nossa filha e eu quero ela de volta.

- Ela vai voltar. Aquele desgraçado vai devolver a minha filha, nem que pra isso eu tenha que matar ele com as minhas próprias mãos. - abraçou a esposa, enquanto já ouvia a polícia chegar. - com as minhas próprias mãos, Irene. Eu juro.

Antorene: The AfterOnde histórias criam vida. Descubra agora