Caio mantinha os olhos fixos em Aruna, enquanto sentia o calor suave da bebê em seus braços. Cada respiração dela parecia um milagre silencioso, e ele não conseguia conter o sorriso que se formava em seus lábios. Pela primeira vez, o hospital, com seu cheiro de antisséptico e paredes impessoais, parecia um ambiente acolhedor.
Irene o observava de perto. Seus olhos ainda estavam marejados, tinham muita emoção ao presenciar o momento vivido entre irmãos. Ela enxugou as lágrimas rapidamente, como se temesse quebrar aquele momento frágil.
- Você leva jeito com ela. - A voz dela soou suave, quase hesitante.
Caio ergueu os olhos e encontrou os dela. Não havia mais resistência ali. Apenas gratidão. E algo mais - talvez uma admiração que começava a surgir.
- Olha, você me elogiando assim? - Ele sorriu de lado. - Nem parece aquela que me proibiu de pegar a Petra no colo quando ela nasceu. - Gargalhou quase no mudo, com medo que a irmã acordasse de seu sono delicado.
- Ahhhh Caio, não proibi só você. Proibi o Daniel também. - Lembrou. - Vocês queriam correr com a minha filha no colo pela casa. E quando brigavam? Quase a partiam no meio.
- E teve aquela vez também que você me deixou de castigo porque fomos brincar de pique esconde e eu acabei perdendo o Daniel em uma das fazendas. - Gargalhou. - Fiquei dois meses sem poder comprar nada na cantina da escola.
- Três. Três meses. Esqueceu que eu te ouvi me chamar de bruxa e aumentei teu castigo? - Lembrou. - Ihhh Caio, se você for lembrar de tudo que já te fiz, não vai conseguir me perdoar tão cedo. - Gargalhou, antes se sentir a tristeza que sobreveio ao rapaz.
- Daniel... - Sorriu, reflexivo. - Eu sinto tanta falta dele...
- Eu também. Voltou a se emocionar. - Sabe que, eu achei a Aruna muito parecida com ele? - Destampou os olhos da pequena.
- Será que ela vai gostar de mim como gostaria facilmente dele? - A encarou, os olhos emocionados. - Será que ela sabe quem eu sou?
Irene balançou a cabeça, sorrindo de leve.
- Não diga isso. Você salvou a vida dela antes mesmo de conhecê-la. Isso já diz muito sobre você. É claro que ela vai gostar de você. E de conviver com os seus filhos também.
O silêncio se instalou, mas dessa vez não era desconfortável. Ambos estavam digerindo as palavras ditas - e as que ainda precisavam ser ditas. Caio a encarava um pouco assustado com cada promessa que fazia. Desejava muito que tudo aquilo fosse verdade. Não morria de amores por Irene mas, queria uma convivência mais respeitosa com ela.
Finalmente, Irene quebrou a pausa.
- Eu queria poder voltar no tempo, Caio. - Ela estendeu a mão, tocando a dele de leve, com cuidado para não acordar Aruna. - Mas sei que não posso. Só posso prometer que, daqui para frente, vou ser diferente. Quero que você me veja como alguém que quer fazer parte da sua vida... de verdade. Eu nunca vou deixar de agradecer o que você fez por mim, sem que eu merecesse.
Caio respirou fundo. As palavras dela eram sinceras. Ele podia sentir. Mas perdoar não apagava o passado. Ainda assim, algo dentro dele sussurrava que talvez valesse a pena tentar. Que viver em paz talvez fosse no fundo, tudo o que ele sempre quis.
- Não sei se consigo esquecer tudo - Admitiu. - Mas acho que posso tentar deixar o passado onde ele pertence. Porque, hoje, eu vi quem você se tornou. E eu gostei disso. Gostei dessa nova Irene. Eu espero de verdade que esse presente da vida te ajude a se redimir pelos teus erros e aprender com eles, cada vez mais Irene. - Desejou.
Caio olhou para o rostinho sereno da bebê e sentiu uma onda de esperança. Pela primeira vez, enxergava um futuro diferente - um em que o amor e o perdão guiariam suas vidas.
Irene o observava, e naquele momento soube que aquele era o início de algo novo. Um capítulo de aprendizados, crescimento e, talvez, felicidade. Uma promessa silenciosa de que, juntos, poderiam ser uma família.
A mais velha apertou a mão dele, e as lágrimas voltaram a escorrer pelo rosto dela, silenciosas.
- Obrigada. Isso significa mais do que você imagina. - Tocou os cabelos da filha, enquanto ela ainda se aconchegava nos braços do irmão.
Caio voltou o olhar para Aruna, que agora mexia os bracinhos como se tentasse se espreguiçar em seu colo.
- E quanto a ela? - perguntou. - Você acha que vai conseguir enfrentar seus medos e inseguranças? Não sei de muita coisa mas imagino que o que eu presenciei naquela cabana ainda tire a sua paz.
- É Caio. Se sentou para encara-lo. - Eu não posso negar que ainda tenho medo. Damião está preso mas, não sinto que estejamos livres dele.
Irene sorriu, enxugando as lágrimas com as costas da mão.
- Mas... Tem algumas coisas que eu preciso fazer ao invés de ficar pensando no que pode acontecer. E uma delas, é cuidar dessa garotinha aqui. Ela precisa que eu esteja bem.
Ele sorriu, e naquele momento algo mudou entre os dois. Não era mais uma luta silenciosa de mágoas e ressentimentos. Era um pacto de reconstrução. Um acordo não dito, mas sentido - a promessa de que, juntos, poderiam criar algo novo.
Enquanto embalava Aruna, Caio sentiu que aquela também era sua segunda chance. Não apenas com Irene, mas consigo mesmo. Talvez as cicatrizes do passado não precisassem ser um lembrete constante de dor - poderiam, ao contrário, ser a prova de que tinham sobrevivido a tudo isso.
- Vai gatinha. Vai com a sua mãe. Acho que esse seu irmão já viveu emoções demais por hoje.
Com cuidado, ele devolveu Aruna aos braços de Irene e observou o modo como ela olhava para a filha - com ternura e proteção. E foi nesse instante que percebeu: Apesar de tudo, Irene sempre teve amor dentro de si. Só não sabia como demonstrar.
Ela ergueu os olhos para ele, a voz quase um sussurro.
- É verdade. Eu também preciso ir. Preciso voltar para o quarto antes que o papai revire o hospital atrás de mim.
Ela ajeitou a filha nos braços. Ainda usava camisola e hobby. Tinha acessos nas mãos e etiquetas que sinalizavam que já havia tirado uma boa quantidade de sangue para fazer alguns exames. Andava devagar, mas parecia muito bem para quem havia passado por um parto normal dentro de um carro, no meio da estrada. Era admirável.
- Caio, eu nunca achei que teríamos essa conversa. - O encarou da porta. E não sabia que ela me daria tão bem.
Caio ficou em silêncio por um momento. Uma parte dele queria manter os ressentimentos como escudo, mas a outra sabia que o que viveram nos últimos dias mudava tudo. Eles tinham enfrentado a dor e o medo juntos. Tinham sobrevivido juntos.
- Eu te perdoo, Irene. - As palavras saíram mais fáceis do que ele esperava. - Não porque foi fácil esquecer, mas porque eu quero seguir em frente.
As lágrimas voltaram aos olhos dela, e sua voz falhou ao tentar falar.
- Obrigada, Caio. - Ela respirou fundo. - Se você ... Se você precisar de algo, eu estou no quarto de cima.
Ele sorriu, sentindo o peso do passado começar a se dissolver.
- Quarto 321. - Alertou. Respirando fundo ao puxar a porta, fechando a massaneta atrás de si.
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Antorene: The After
FanfictionE se Irene decidisse fugir da polícia? E se fosse obrigada a deixar Antônio para trás? E se Antônio fosse condenado a pagar por todos os crimes que cometeu, preso dentro de seu próprio império? Sozinho, como sempre temeu estar, até mesmo durante as...
