Fazendo Esquecer

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Irene estava na sala, sentada na poltrona junto à janela. A luz fraca do ambiente projetava sombras suaves em seu rosto pálido enquanto a chuva fazia barulho no vidro. Ela olhava para fora, mas sua mente estava distante, ainda estava presa na confusão de sentimentos que a notícia da morte de seu único irmão, Dirceu, havia provocado.

Antônio entrou no cômodo silenciosamente, enquanto carregava um copo de suco de laranja, o preferido da esposa. Observou Irene por um momento antes de se aproximar e colocar a copo suado e gelado na mesa ao lado dela. Ele se sentou no braço da poltrona, inclinando-se para tocar de leve seu ombro. Quase assustando-a.

- Eu poderia trazer um whisky, mas você está amamentando. - puxou assunto, a fazendo rir de leve. - Como você está? - perguntou, a voz baixa e atenta. - Se sente melhor depois de tudo?

Ela continuou encarando a janela, demorando alguns minutos antes de responder.

- Estou... vazia, acho. Não sinto dor, nem alívio. Parece que tudo dentro de mim foi silenciado. Sabe? - o encarou finalmente. - Uma sensação absurdamente estranha. Acho que é uma sensação de solidão.

Antônio apertou suavemente o ombro dela, encorajando-a.

- Você não precisa enfrentar isso sozinha não. Estou aqui com você, sempre.

Ela voltou a encara-lo, os olhos cansados, mas firmes, a mulher era forte, até quando não desejava ser.

- Como você soube? - perguntou, antes de tomar um pouco do suco preparado por ele.

Ele suspirou, passando a mão pelos cabelos antes de responder.

- Eu estava com o Silvério na delegacia hoje cedo, aqueles encontros de sempre com o delegado, onde a gente discute os termos da minha prisão domiciliar. - explicou, enquanto ela assentia. - Quando estávamos saindo, observamos uma correria incomum. O delegado Ayres me chamou, falou sobre o que tinha acontecido no presídio e disse que, diante de tudo o que você passou, eu deveria te contar. - beijou sua testa, algumas vezes. - Ele achou que seria melhor ouvir de alguém que pudesse te confortar.

Irene desviou o olhar, processando as palavras dele.

- Foi... foi na prisão, não foi? - perguntou, embora soubesse a resposta.

Antônio confirmou.

- Sim. Parece que houve uma briga, dentro da sala, que ele dividia com mais quatro detentos. Ele foi atacado por outros presos com alguns porretes de ferro e... - decidiu poupar os detalhes. - Não resistiu.

Ela respirou fundo, tentando manter o controle, ao entender que a morte do irmão tinha sido tão lenta e dolorosa quanto ela desejou que fosse. Talvez ele tenha morrido imaginando que ela era a mandante da tal surra que o mataria. Ele realmente deve ter sentido o medo arrepiar sua espinha. Mas, por vários motivos, não conseguia ter pena.

- Eu sou a única parente viva que ele tem. - lembrou. - Mas, eu não quero cuidar de nada, Antônio. Nem do velório, nem do enterro. - encarou o homem, enquanto seus olhos voltavam a se encher. - Ele morreu para mim no dia em que tocou na minha filha e fez com ela tantas atrocidades. Eu não quero nem ver ele.

Antônio se aproximou mais, segurando a mão dela com firmeza, enquanto a puxava para seus braços. Acolhedor.

- Você não precisa. Eu me ofereci para pagar tudo, não queria que você precisasse passar por isso. Mas, parece que um amigo dele se ofereceu para pagar as despesas. - alegou. - Não vai ter velório, só a cremação. Tudo já foi resolvido por esse tal homem que disse ter apresso por ele.

Antorene: The AfterHistórias para pegar e não largar. Descubra agora