A chuva continuava caindo sem piedade, encharcando Irene e Antônio enquanto eles se encaravam na varanda.
— O meu problema? — repetiu, cruzando os braços. — Que problema? Depois de trinta anos você se arrependeu de ter se casado e construído uma família com a garota do bar? Que que é? É diferente agora que a cidade inteira se lembra que eu já trabalhei no bar da Cândida? É minha culpa que você esteja mal falado?
— Eu não disse que é culpa sua — rebateu, esfregando o rosto molhado. — Eu disse que estou tentando resolver algo que ficou mal resolvido lá atrás.
Ela riu sem humor, balançando a cabeça.
— E comprar aquele maldito bar resolve isso?
— Talvez — respondeu, desafiador.
Irene bufou, irritada.
— Antônio, eu cansei desses seus joguinhos! Se você quer tanto se justificar, por que não me disse isso antes?
Ele se aproximou lentamente, sua presença dominando o espaço entre eles.
— Porque você não me deixou falar.
Ela abriu a boca para retrucar, mas ele se inclinou para mais perto, os olhos escuros fixos nos dela.
— Porque toda vez que eu tento me explicar, você já está pronta para me condenar.
— Talvez porque você já tenha me dado motivos suficientes para isso! — a voz tremendo com a mistura de raiva e emoção.
— E você nunca errou? — provocou, arqueando uma sobrancelha.
Ela sentiu o estômago revirar.
— Eu nunca te traí antes de você me trair primeiro — disparou, sem hesitar. — Mas você me deixou sozinha. Me abandonou tantas vezes que eu já nem sabia mais quem eu era!
Antônio apertou a mandíbula, os olhos faiscando.
O silêncio entre eles foi cortante. Antônio fechou os olhos por um segundo, tentando conter a dor que as palavras dela lhe causaram.
— Eu nunca me importei com o fato de você ter trabalhado no bar da Cândida. — Lembrou. — Quem sempre quis esconder isso foi você.
— Você me deu todo o dinheiro que eu precisava para dar uma repaginada. Queria que eu mudasse. Obviamente você não ia querer que a primeira dama da cidade andasse de botas longas e vestidos curtos e justos. Não seria um bom cartão postal para os seus negócios. Não é?
Antônio soltou um suspiro longo, a chuva escorrendo pelo seu rosto misturada com o suor quente da tensão.
A tempestade continuava castigando Nova Primavera, e Antônio e Irene permaneciam na varanda, encharcados e presos em um jogo de palavras afiadas e emoções à flor da pele.
— Eu sou o seu problema, Antônio? — Irene cruzou os braços, a respiração pesada pelo impacto daquelas palavras.
— Sempre foi — ele respondeu sem hesitar, dando um passo à frente.
Ela bufou, irritada.
— Então por que ainda insiste? Por que não me deixa ir?
— Porque você nunca foi um problema que eu quisesse resolver, Irene. Você é o problema que eu nunca quis perder.
Ela piscou algumas vezes, sentindo o coração martelar contra o peito.
— Não adianta falar essas coisas bonitas agora, Antônio. Nada muda o que aconteceu. Nada muda o fato de que eu vi você naquele bar com ela!
VOCÊ ESTÁ LENDO
Antorene: The After
Fiksi PenggemarE se Irene decidisse fugir da polícia? E se fosse obrigada a deixar Antônio para trás? E se Antônio fosse condenado a pagar por todos os crimes que cometeu, preso dentro de seu próprio império? Sozinho, como sempre temeu estar, até mesmo durante as...
