Domiciliar

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Antônio entrou no escritório de Silvério, a expressão preocupada. O advogado, sentado à mesa, mal percebeu a chegada do amigo. O peso da notícia estava prestes a desabar sobre ele como uma tempestade.

- Antônio, precisamos conversar - Começou Silvério, com um tom sério que imediatamente chamou a atenção do amigo.

- O que foi? - Antônio ergueu o olhar, a preocupação já se instalando em seu coração.

- A sua prisão domiciliar... - Silvério hesitou por um momento, antes de continuar. - O juiz decidiu aumentar sua pena em mais seis meses.

Antônio sentiu como se o chão tivesse desmoronado sob seus pés. Ele se levantou abruptamente, a indignação pulsando em suas veias.

- A coruja piou diante de um absurdo desses. - Protestou com total volume na voz. - Esse juizinho de quinta categoria só pode estar louco. Eu fiz tudo Silvério. Tudo que aquele desgraçado me mandou. Como foi que isso aconteceu?

Silvério respirou fundo, tentando encontrar as palavras certas.

- Eu sei, Antônio. Mas o juiz alegou que você esteve fora de casa por mais de duas horas... desacompanhado do advogado. Ele disse que você descumpriu as condições da sua liberdade.

- Quando? Quando foi isso? - Se levantou novamente. - Eu não saio daquela casa, eu não sei mais nem como é a cor da rua. Tô aí doido pra ir para o escritório, trabalhar, exercer minha profissão. E nada. Não posso.

- Há 3 meses. - Lembrou. - No dia que sua filha nasceu.

- Não Senhor, esse juiz só pode estar de brincadeira com a minha cara. - Reagiu incrédulo - Eu fui salvar Irene! - Antônio exclamou, os olhos cheios de determinação e desespero. - Ela estava em perigo! Damião a sequestrou e eu não podia ficar parado!

- Eu entendo... - Silvério respondeu, colocando uma mão no ombro de Antônio. - Mas o juiz não vê dessa forma. Para ele, você colocou tudo em risco ao agir por conta própria.

Antônio começou a andar de um lado para o outro, agitado. A injustiça daquela situação parecia sufocá-lo.

- Então vou ficar preso por mais seis meses por ter tentado salvar minha esposa e minha filha? Isso é absurdo! Eu não posso aceitar isso! Esse juiz não tem família? Filhos?

Silvério sabia que as palavras dele eram verdadeiras, mas também sabia que o sistema era implacável.

- Precisamos pensar em uma estratégia legal. Talvez possamos apelar dessa decisão - sugeriu Silvério.

- Mas você já devia ter apelado Silvério. - Voltou a gritar. - Há muito tempo.

Antônio parou e olhou nos olhos do amigo, sentindo-se perdido e desesperado.

- Não sei se aguento mais isso. Cada dia é uma tortura...

Silvério apertou o ombro de Antônio com força, transmitindo apoio.

- Doutor Antônio, eu farei o que puder, como tenho feito já há muito tempo. Peço que se acalme por favor.

- Pede que se acalme... Repetiu em tom de deboche. - Mas é claro, não é você que tá preso... - Saiu batendo a porta com desdenho. - Falar é fácil. - Gritou em direção a saída.

Em casa, Irene estava sentada na varanda, a luz suave da tarde iluminava o ambiente, enquanto balançava a filha nos braços, depois de mais de uma hora amamentando. Alisava os cabelos suados da bebê, que pegou no sono com o alento da mãe.
Avistou a ranger de Antônio surgir ao longe, conhecia bem aquele carro. Seu coração encheu-se de alegria ao ver que ele retornava para casa.

Antorene: The AfterOnde histórias criam vida. Descubra agora