O ambiente carregava os ecos de um passado que nunca deixou de existir entre eles. Irene abriu a porta de seu antigo quarto no bar da Cândida e hesitou por um instante antes de entrar. O cheiro da madeira envelhecida, misturado ao perfume sútil de algo distante, despertou nela lembranças que há muito tentava esquecer.
Antônio a seguiu em silêncio, seus olhos fixos nela, carregados de um amor que resistia ao tempo e às tempestades. Ele observou a maneira como seus dedos deslizaram pela borda da cômoda, como se buscassem vestígios de uma vida que parecia outra, mas ainda assim era deles.
— Engraçado estar aqui de novo — Irene murmurou, soltando um riso baixo e melancólico. — Parece que foi ontem... e ao mesmo tempo, uma eternidade.
— O que você está sentindo meu amor?
— Uma sensação estranha. — desabafou ao sentir o corpo do homem a envolver por trás. — Eu não sei nem o que dizer.
Antônio sorriu de lado, enquanto ambos observavam a cama.
— Sabe o que eu nunca esqueci? — Ele ergueu a sobrancelha. — A maneira como você arremessou aquele chiclete na lixeira na primeira vez que estivemos juntos.
Irene soltou uma risada espontânea e revirou os olhos.
— Meu Deus... Você ainda se lembra disso?
— Como esquecer? Você parecia tão confiante... Sabia que acertaria em cheio a lixeira, como se fizesse isso todos os dias e ao mesmo tempo, eu sabia que estava nervosa.
O sorriso dela se desfez aos poucos, dando lugar a um olhar mais profundo.
— Nervosa mesmo eu fiquei quando entreguei aquele teste de gravidez positivo para você. — o encarou de canto. — Dizer que estava grávida foi a coisa mais difícil da minha vida.
— Aquela foi uma das melhores notícias que eu já recebi. — declarou.
— Mesmo depois de descobrir sobre a paternidade do Daniel? — arregalou os olhos.
— Mesmo assim... O que eu sinto por aquele menino. A forma como acompanhei tua gravidez e a vida ao lado do meu filho... — seus olhos se encheram. — Ele é o meu filho. Sempre foi. Sempre vai ser.
— E ele não poderia ter tido um pai melhor que você. — o encarou de frente.
A sombra de uma emoção intensa cruzou o rosto de Antônio. Ele se aproximou devagar, até que a distância entre eles fosse quase inexistente.
— Eu nunca imaginei que voltaria a este quarto com você — ele confessou, sua voz grave, carregada de sinceridade. — Mas é bom voltar e perceber que, apesar de todos esses atropelos da vida, ainda estamos juntos. Depois de tantos anos.
Irene desviou o olhar, como se quisesse se proteger da intensidade daquela afirmação.
— Antônio...
Ele ergueu o queixo dela com delicadeza, forçando-a a encará-lo.
— Eu fiz a escolha certa quando escolhi você para ser minha esposa. — declarou.
Ela respirou fundo, permitindo-se sentir o peso daquelas palavras. Não havia mais fuga. Não havia mais passado para temer. Havia apenas os dois ali, no mesmo lugar onde tudo começou, prontos para esse reencontro. E naquela cama, que tantas histórias guardava, Antônio e Irene enfim se encontrariam outra vez.
— Por que me trouxe aqui? — cheirou seu pescoço, a fazendo revirar os olhos. — Quer relembrar os velhos tempos?
Irene olhou para Antônio com intensidade, seus olhos escuros brilhando à luz amarelada do pequeno abajur no canto do quarto. O tempo poderia ter passado, mas ali, naquele instante, nada mais importava além do que sentiam um pelo outro.
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Antorene: The After
FanfictionE se Irene decidisse fugir da polícia? E se fosse obrigada a deixar Antônio para trás? E se Antônio fosse condenado a pagar por todos os crimes que cometeu, preso dentro de seu próprio império? Sozinho, como sempre temeu estar, até mesmo durante as...
