[• NOVA PRIMAVERA (MS), 1993 •]
O novo quarto era amplo, com móveis rústicos e iluminação suave. A lua entrava pela janela aberta, projetando sombras delicadas sobre os lençóis brancos da enorme cama. Irene, ainda vestida com seu traje de noiva, estava sentada na beira do colchão, observando Antônio em silêncio.
Ele estava de pé, junto à janela, segurando um copo de uísque. Seus olhos estavam perdidos na escuridão da noite, mas, na verdade, enxergavam apenas o passado. Enxergavam Ágatha.
Irene cruzou os braços sobre o ventre já levemente arredondado e inspirou fundo. A raiva e a humilhação queimavam dentro dela.
— Você vai ficar aí a noite toda? — sua voz cortou o silêncio, enquanto tirava os sapatos. — Pode ao menos me ajudar a abrir o vestido?
Antônio não respondeu. Apenas tomou mais um gole da bebida, largou o copo de escanteio e abriu o zíper, bufando, antes de se afastar.
— Me diz, Antônio... — Ela caminhou até ele. — Por que você se casou comigo?
Ele franziu o cenho, finalmente a encarando.
— Você sabe por quê.
— Sei? — Ela riu, mas não havia humor em seu tom. — Achei que era porque eu estava grávida, mas parece que tem outro motivo.
Ele suspirou, desviando o olhar.
— Irene, não começa.
— Não começa? — Ela fechou as mãos ao lado do corpo, tentando conter a raiva. — Hoje foi o dia do nosso casamento. Você mal olhou na minha cara! Disse o sim, como se estivesse sendo obrigado. E agora, nesta noite, você me ignora como se eu fosse invisível.
Ele não respondeu.
— Você está pensando nela, não está? — Irene acusou, sua voz saindo mais embargada do que gostaria.
O silêncio dele foi a confirmação que ela não queria.
Ela soltou uma risada amarga, passando a mão pelo rosto.
— Meu Deus... Eu fui uma idiota em achar que você poderia, ao menos, tentar me ver como sua esposa.
Antônio apertou o copo entre os dedos, o maxilar travado.
— Eu não quero falar sobre isso.
— Ah, mas eu quero! — Irene deu um passo à frente, encarando-o com os olhos faiscando. — Você quer saber o que eu acho? Acho que você casou comigo porque precisava de uma substituta.
Ele a olhou, surpreso com a fúria dela.
— Não repeti isso, nunca mais. — gritou.
— Você acha que eu sou o quê, Antônio? Um remendo para sua vida perfeita que acabou junto com seu primeiro casamento?
— Para com isso, Irene. Eu não te prometi nada além disso.
— Não, eu não vou parar! Eu quero ouvir da sua boca! — Ela o empurrou no peito. — Você me vê como sua mulher ou como a sombra de Ágatha?
Antônio segurou os pulsos dela, firme.
— Não fala besteira.
— Besteira?! — Ela tentou se soltar, mas ele não permitiu. — Então me prova! Me olha como um homem olha para sua esposa!
Ele manteve o olhar fixo no dela, mas seu rosto permaneceu impassível.
Irene sentiu o peito arder.
— Você não consegue, né?
Ele soltou os pulsos dela devagar, desviando o olhar.
A raiva dela se transformou em algo pior. Dor.
Ela deu um passo para trás, os olhos brilhando de mágoa.
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Antorene: The After
FanficE se Irene decidisse fugir da polícia? E se fosse obrigada a deixar Antônio para trás? E se Antônio fosse condenado a pagar por todos os crimes que cometeu, preso dentro de seu próprio império? Sozinho, como sempre temeu estar, até mesmo durante as...
