Você Merece Ser Salva

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A respiração de Caio acelerou enquanto ele permanecia escondido entre as árvores, tentando entender o que estava acontecendo dentro da cabana. A voz de Irene era abafada, cheia de dor e desespero misturada com os tons graves e ameaçadores de outra voz que ele não reconheceu de imediato.

CAIO LA SELVA ON:
Eu sabia que aquele lugar tinha sido esquecido por todos, pelo menos era o que eu pensava. Mas agora, com Irene tão perto e claramente em perigo, era impossível ignorar o peso dessa situação. Mesmo que eu não confie nela, não poderia deixar uma mulher, especialmente uma grávida, à mercê de um lunático como Damião.

O som de passos vindos de dentro da cabana interrompe os seus pensamentos. Caio se abaixou rapidamente atrás de uma árvore grossa e observou enquanto um homem saía para o lado de fora, com uma arma na cintura e uma expressão irritada. Devia ser Lima, o capanga que Damião havia mandado para verificar os arredores.

CAIO LA SELVA ON:
Eu sabia que teria que agir rápido. Se aquele homem me visse, tudo estaria perdido. Mas, ao mesmo tempo, não poderia simplesmente entrar às cegas. Precisava encontrar uma forma de distraí-los e, de alguma maneira, tirar Irene dali antes que fosse tarde demais.
Ele pegou o celular no bolso, mas a falta de sinal o fez xingar baixinho. Estava por conta própria. Observou enquanto Lima se afastava para inspecionar o terreno e começou a traçar um plano.

IRENE ON:
Dentro dessa Cabana quente e escura, eu estava no meu limite. As dores eram tão intensas que pareciam arrancar pedaços da minha alma. Damião me observava frio, com um sorriso sádico no rosto, como se pudesse se alimentar do meu sofrimento.

- Você está indo tão bem, meu amor. Ele debochou. - Talvez eu mesmo seja o primeiro a segurar nossa menina. Afinal, não acha que ela merece conhecer o homem que está ao seu lado?

Fechei os olhos tentando ignorar as palavras dele. Não podia deixar que minha mente se quebrasse. Precisava de foco.

- Minha filha... Sussurrei, quase como uma oração. - Eu vou te tirar daqui. Eu prometo.

As dores do parto começaram como uma onda lenta e crescente no ventre de Irene, irradiando pelo corpo como se a própria terra pulsasse dentro dela. Cada contração era uma força bruta, primal, que exigia dela uma entrega total ao que parecia ser um ritual tão antigo quanto a vida. Irene apertava a cadeira com força, mas não resistia às dores; ao contrário, buscava acolhê-las, entendendo que cada pontada era um passo mais perto de trazer Aruna ao mundo.
Sua respiração era profunda e controlada, mas a cada nova contração parecia que o controle lhe escapava, como areia entre os dedos. Ainda assim, ela se agarrava à ideia de que o corpo sabia o que fazer. Entre suspiros e gemidos abafados, Irene tentava visualizar a vida, era como se a força ancestral das mulheres que vieram antes dela estivesse ali, sussurrando coragem em seu ouvido.
"Eu sou o canal, não o obstáculo", murmurou para si mesma, num esforço de se alinhar com o que acontecia. Irene arqueava o corpo, inclinava-se para frente e deixava a gravidade e as leis da vida agirem. Era uma luta entre dor e entrega, força e suavidade, mas, acima de tudo, era a natureza sendo respeitada em sua pureza.
Mas, quando o momento chegou e ela sentiu que Aruna estava mais próxima que nunca, sentiu medo. Um medo terrível do que Damião faria com ela. Medo de perder o controle. De colocar sua filha em risco. Então, entrou em consenso com seu corpo e decidiu que iria adiar o parto, o máximo que conseguisse.

Do lado de fora, Caio esperou o momento certo. Quando Lima se afastou para checar uma área mais distante, ele se aproximou da cabana, agachado e em silêncio absoluto. Espiou por uma janela pequena e suja e viu Irene amarrada em uma cadeira, suando e ofegando. Damião estava ao lado dela, distraído enquanto olhava algo no celular.

CAIO LA SELVA ON:
Eu não sabia se era coragem ou estupidez, mas, precisava fazer algo. Irene não era minha melhor amiga, nunca foi. Mas, salva-la agora, era o único plano que eu tinha. O que precisava fazer. Eu não podia virar as costas e ir para casa sabendo que ela morreria. Que a minha irmã, nasceria em perigo. Eu devia isso a Daniel e Petra. Eu devia isso a mim. A minha honra.
Ela ainda agonizava. Agora, deitada sobre um colchão velho com mãos e pernas amarradas. Segurava firmemente a própria barriga enquanto suava e chorava. Tentava com todas as forças adiar o próprio parto. Mas, sentia a fúria da natureza. Lutava pela vida da menina, sem se importar com a sua. E aquilo me impactou. Aquele momento em que ela agia por instinto me fez ver que ela era mais mãe que a minha foi. Que tudo o que ela já fez, de bom ou ruim, foi pelos filhos que teve. E que nada, absolutamente nada, era capaz de fazer com que ela abrisse mão deles. Naquele momento, eu desejei ser filho dela. Desejei ter uma mãe que não me abandonaria. Deixei de lado seus defeitos e tudo o que tinha contra ela. E eu ainda tinha. Para admirar sua força materna. Sua coragem de lutar pelos que amava. E ali entendi, que se fosse o filho dela, ela jamais fugiria, me deixando para trás como Ágatha me deixou.

- Irene, eu nunca pensei que fosse dizer isso, mas... - cochichei, quase sem acreditar nas palavras que escapavam dos meus lábios. - Você merece ser salva. Decidi.

Ela enfim me encarou por um instante. Me viu entre as árvores. Disse meu nome enquanto seus olhos marejados refletiam o brilho pálido da lua e imploraram por socorro. Pedi que fizesse silêncio e a fiz entender que não desistiria de tirá-la dali. Seu rosto, marcado pelo medo e pela exaustão, parecia ao mesmo tempo surpreso e incrédulo. Antes que pudesse responder, me afastei rapidamente, ciente de que não havia tempo para hesitações.
Olhei ao redor, buscando algo que pudesse usar para distrair Damião. Meus dedos encontraram uma pedra grande e irregular no chão. Seu peso firme na palma da mão trouxe uma sensação de urgência, e sem pensar duas vezes, atirei-a com toda a força contra um tronco próximo. O impacto ecoou pela floresta silenciosa, quebrando a tranquilidade da noite com um estalo forte e seco.

- Lima! - a voz de Damião cortou o ar, cheia de alerta e desconfiança. Ele se levantou de imediato, os olhos vasculhando as sombras ao seu redor. - O que foi isso?

Meu coração batia como um tambor dentro do peito, mas mantive minha posição escondida atrás do arbusto. Eu sabia que cada segundo era precioso. Enquanto ele se afastava, movido pela curiosidade ou pelo instinto, entrei na cabana e tentei desamarrar Irene rapidamente.

- Caio, porque você... Reagiu, ainda incrédula.
- Não desperdice isso. Vamos agora. - Minha voz era firme, mas baixa, como um comando entre aliados em batalha.

Irene hesitou por um instante, talvez processando o sacrifício implícito na minha ação.
- Anda, você precisa sair agora. Segurou sua cabeça entre as mãos.
- Eu não consigo. Sussurrou. Não consigo me mexer. Desabafou. Ela está nascendo. Alertou. doendo muito Caio. Muito. Fechou os olhos de forma serrada.
- Eu te ajudo. Decidiu rapidamente. Eu vou... Vou te pegar no colo, ok? A esperou concordar com a cabeça. Segura no meu ombro e não solta. Pediu. Nós vamos conseguir. Vamos sair daqui. Prometeu. Confia em mim.
- Eu confio. Tentou sorrir. Ainda bem que você me encontrou. Obrigada. Agradeceu.
- Caio La Selva. Gritou, o fazendo gelar. - Como é bom te ver de novo. Apontou a arma em sua direção. Onde você pensa que vai?
- Droga. Sussurrou.
- Não me deixa morrer. Pediu. Por favor Caio. Eu te imploro. A sua irmã...
- Eu não vou deixar. Prometeu mais isso vez.
- Solte a Irene, ou você vai morrer, junto com ela fedelho. Gritou. Agora.

Antorene: The AfterHistórias para pegar e não largar. Descubra agora