Um Pai

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Antônio despertou com o sol filtrando-se pelas cortinas. Ele se espreguiçou lentamente, sentindo o peso da noite desaparecer de seu corpo. No entanto, ao abrir os olhos, notou algo inusitado: Irene, sua esposa, estava se arrumando com um cuidado especial. Ela vestia um look rosa, e kimono dourado por cima. Estava radiante. Tudo realçava sua beleza em total harmonia.

- Eu posso saber onde você vai tão bonita desse jeito? - Indagou, ainda sonolento, enquanto se apoiava nos cotovelos.

Irene virou-se para ele com um sorriso enigmático.

- Ah, querido, vou à cidade - Colocou um brinco que reluzia à luz da manhã, enquanto continuava encarando sua imagem no espelho. - Mas não se preocupe com os detalhes.

- A coruja piou diante de um absurdo desses. Você está tentando me enlouquecer? - Antônio franziu a testa, intrigado. - A cidade? Mas o que você vai fazer lá? Não pode ser só isso! - insistiu ele, levantando-se da cama e se aproximando dela.

Irene apenas riu levemente e ajustou o cabelo com as mãos.

- Vou cuidar de mim, da minha saúde, das minhas coisas... Da minha vida. - Tocou o rosto do homem, selinhando sua boca, antes de escolher a bolsa que combinaria perfeitamente com seu look matinal.

Antônio não conseguiu disfarçar a curiosidade que crescia dentro dele. Ele sentia que havia algo a mais por trás daquela saída repentina. Com um suspiro resignado, ele decidiu mudar de assunto.

- Você não está esquecendo de levar algo para tampar a Aruna do sol? Ela só tem três meses e não pode ficar exposta à luz solar por muito tempo! - disse ele, preocupado.

Irene olhou para o relógio e fez uma expressão de quem estava prestes a se atrasar.

- Não se preocupe - respondeu ela apressada. - Aruna não vai comigo. Vai ficar com você, te fazendo companhia. - Distanciou-se sumindo no corredor, até entrar no quarto da filha e pegá-la no colo. Despedindo-se. - A mamãe não demora a voltar, viu? Papai vai cuidar de você.

- Papai? Papai vai cuidar? - Seguiu a esposa. - Ô Irene?! A coruja agora piou foi três vezes. - Sentiu o corpo congelar. - O que você quis dizer com o papai vai cuidar? Não inventa moda não. - Arregalou os olhos. - Eu não sei cuidar de uma bebê sozinho. - A voz tremendo de ansiedade.

Irene soltou uma risada divertida e se aproximou dele, entregando a filha em seus braços.

- Não se preocupe! Você consegue sim! É só seguir o instinto paterno maravilhoso que você tem. - Debochou.

- Que instinto? Eu não tenho essas coisas de frozô não senhora. - A encarou, um pouco irritado. - Pega aqui. Pega aqui essa menina Irene.

- Eu confio em você. - O encarou, dando-lhe um rápido beijo, antes de sair pela porta. - Eu não demoro. - Conformou. - Três horinhas e eu já estarei de volta.

- TRÊS HORAS? - Arregalou os olhos, visivelmente acelerado. - Eu não tô sentindo as minhas pernas. - Fez drama. - Ô Ireneee?! - Em vão, seu carro já virava a esquina, apressado.

Ele olhou para a porta fechada e depois para a filha em seus braços. Os olhos quase claros, e boca desenhada como a da mãe. Ela o encarava curiosa, enquanto tocava seu rosto com as mãos rechonchudas. O cabelo, cada vez mais claro ondulava nas pontas. Ele a amava. Tinha total certeza. E é por isso que sentia tanto medo de fracassar.

- Meu Deus! O que eu faço agora? - murmurou mais para si mesmo, do que para a filha, antes de encarar seu sorriso tímido. - Você tem o jeito dela de olhar. - Admirou. - Tem semelhanças comigo mas, lembra muito mais a sua mãe. - Sorriu. - Ainda bem.

Tudo parecia em paz e sossegado, mas, a filha começou a chorar de repente, tirando a sua paz, enquanto o deixava desesperado.

- Eu já entendi, filha, acho que você está com fome. - Seguiu até a cozinha, antes de colocar o bebê conforto sobre o balcão. - Sua mãe deixou um leite aqui. Graças a Deus, deixou as orientações. Vamos lá! Isso não pode ser tão difícil.

"Antônio, ordenhei um pouco de leite antes de sair. Os potes estão no freezer. A quantidade é suficiente até eu voltar. Não esqueça de esquentar um pouco e experimentar antes de dar a ela. Por favor, se atente a temperatura para não queimar a boquinha dela. Te amo, Irene".

- Olha filha. Olha como sua mãe é generosa. - Foi irônico, ao deixar o bilhete do lado. - Deixou até uma cartinha pra gente.

Ficaria mais tranquilo se Neide estivesse por ali. Mas, justamente nessa semana, a governanta de Irene havia tirado alguns dias para visitar a mãe e os irmãos em uma cidade vizinha. A babá de Aruna, por sua vez, teve alguns exames para realizar e combinou uma troca de turnos com Irene. Não tinha saída, eles estavam sozinhos.
O cheiro familiar do leite aquecido trouxe uma sensação de conforto ao ambiente enquanto ele tentava equilibrar as mamadeiras e evitar derrubar tudo no chão.

- Ajuda filha. Ajuda teu pai.

Aruna parecia estar encantada com cada movimento do pai, seus olhos brilhavam enquanto ela observava tudo atentamente. Depois de algumas tentativas frustradas (e algumas gotas de leite derramadas), Antônio finalmente conseguiu alimentar a filha, seguindo as orientações de Irene.

- Irene tinha razão, eu sou bom nisso. - Se exaltou, ao conseguir o grande feito de dar o leite na pequena mamadeira para a filha, que abraçou sua mão enquanto saboreava o líquido. - Aí, eu tiro de letra isso aí.

Ela sorriu enquanto tomava seu leite, fazendo-o sentir-se como o pai mais realizado do mundo. Mas logo após terminar a mamadeira, Aruna começou a fazer barulhos inquietos e isso deixou Antônio nervoso novamente.

- Que que foi? Que que foi agora? - Suou, levantando-a para arrotar. Isso era fácil, já era sua função desde que a filha havia nascido.

Mas, ela achou que ele podia fazer mais.

- Que cheiro é esse? - A encarou incrédulo. - Não é possível que você tenha feito isso com teu pai filha.

O homem seguiu até o quarto, buscando uma fralda nova para a filha no suporte cor de rosa que estava na parede. Já tinha visto Irene fazer isso algumas vezes, deveria conseguir também.

- Licença. - Pediu ao tocar no corpo quente da filha. - Licença aqui.

Enquanto lutava com a fralda nova - algo que parecia mais complicado do que deveria - ouviu as risadinhas da bebê, que agora já dificultava as trocas por se mexer demais.
O pensamento em Irene sobreveio sobre ele. Não sabia que era tão difícil cuidar de seu fruto. Quando ela fazia, tudo parecia mais fácil. Ela fazia parecer. Tirava de letra tudo isso. Desde Daniel, sua primeira experiência como mãe.

- Pronto, Filha. - Encarou orgulhoso. - Tá limpinha de novo. Você foi maravilhosa.

Ele decidiu então pegá-la novamente nos braços e fazer uma caminhada pela varanda da casa. A criança gostava disso. Ficava intacta com o verde das plantas e os detalhes do lado externo de sua casa. A brisa fresca da manhã trouxe alguma tranquilidade ao coração ansioso de Antônio enquanto caminhavam juntos sob o céu azul claro. Não pôde evitar iniciar um diálogo com a filha depois de todo o sufoco que passaram juntos. Enquanto caminhava, ele começou a falar sobre suas esperanças para o futuro.

- Você e seus irmãos são donos de tudo isso aqui. - Sussurrou. - Um dia você vai ajudar Petra a tocar as nossas fazendas, enquanto conquista tudo o que deseja. - Sonhou. - Sinto de longe o tamanho da sua força e te admiro por isso. Prometo recompensar todo o bem que você nos trouxe. - Beijou a testa da caçula. - Eu prometo.

Aruna parecia ouvir atentamente as palavras do pai enquanto observava as nuvens passarem pelo céu. De repente, ela soltou um pequeno grito alegre - talvez concordando ou apenas expressando sua felicidade naquela caminhada pela varanda. Antônio sentiu-se como se estivesse começando a entender como era de fato ser um pai naquelas poucas horas sem Irene ao seu lado. Já tinha sido três vezes antes, mas nunca mergulhou tão profundamente nas tarefas de um. Tinha muitos compromissos. Seu tempo valia ouro e por isso, acabou sempre ficando a mercê do que acontecia aos filhos. Cuidar da menina, era desafiador, mas também extremamente gratificante!

Antorene: The AfterOnde histórias criam vida. Descubra agora