Prólogo

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Eu estava em minha tenra idade quando o primeiro grande trauma da vida aconteceu. Lembro-me, como uma maldição, do momento quando o monstro terrível devorou a cabeça de minha irmã. Meu grande mal: ter uma excelente memória. Recordar dos mínimos, míseros e mais ridículos detalhes, com estonteante precisão. Todavia, apesar de me ver às voltas com essa memória, surpreendente pelas tristezas vívidas que me traz, admito que era ela também a minha salvação. Eu não compreendia a completude da informação quando, depois do ocorrido, pela primeira vez a minha mãe, Lira, mostrou-me a sua verdadeira forma. Gigantescas asas de fogo, poderes além da imaginação de uma pessoa comum, que fariam qualquer membro da Igreja borrar a batina e ir logo atrás de alguma arma, cruz ou ambos. Talvez de água benta, mas eles tendiam a ser mais truculentos.

Bruja, minha mãe era isso, uma Bruja. Uma poderosa Bruja de fogo com domínios Elementais. Treinada n'O Pomar diretamente por sua antecessora. Minha mãe, uma portadora de sabedorias ancestrais.

Naquele dia, quando Lwana morreu, foi selado meu futuro. Eu amava minha irmã da minha maneira, no meu jeito infantil. Éramos companheiras inseparáveis, sempre brincando perto de mamãe, vovô Barakj ou papai.

Meu pai carrega o nome de Borjan Alioth. Era, na minha opinião, o mais grandioso e corajoso dos homens. Ele não tinha nada de especial além de um coração amoroso e muita lealdade, mas foram justamente esses predicados que fizeram dele um ser humano ímpar. Quando a minha mãe disse adeus para cumprir sua missão, meu pai se resignou. Ele chorou por uma noite inteira, recordo-me bem. Viveu o luto de Lwana como era de se esperar, com muita tristeza, assim como vovô, e, ao mesmo tempo, disse adeus para a esposa ferida que já não carregava a esperança. Meu avô era mais sisudo do que meu pai ou minha mãe. Um homem vivido, assassino, robusto e imponente. Trazia em seus olhos alguns traços melancólicos que sempre entregavam o quão sentimental ele era e o quão triste estava por, durante o curso de sua vida, perder tantas pessoas que amava. Quando a minha mãe partiu, proteger a mim e a meu pai se tornou a missão da vida do meu avô.

Meu pai viveu o luto enquanto cuidava de mim com todo o esmero. Eu sentia falta de mamãe, de seu abraço quente, os braços firmes de guerreira; da voz; dos olhos bicolores em suas íris complexas e dos cabelos brancos como leite. Sentia falta de seu timbre embalando meu sono e de quando ela dizia que me amava. Mamãe sempre dizia que me amava. Sempre. Mesmo quando eu não entendia esse conceito abstrato que é o amor.

Eu poderia ter me revoltado muito porque a minha irmã morreu na minha frente e mamãe partiu no mundo. Poderia descontar a minha tristeza latente em rebeldia. Havia muitas escolhas. Optei por viver da melhor forma que pudesse. Eu ainda tinha um pai e um avô, ambos amorosos. Tinha um lar, comida quente na mesa e uma cama macia para dormir. Regalias. Eu ainda era muito privilegiada e sortuda, apesar de tudo. Claro que, se pudesse, eu trocaria tudo pela presença da minha mãe, mas não é assim que a vida funciona. Então sim, quando tive escolha, eu escolhi não ser uma pessoa mesquinha.

Eu, Ana Merak, tinha um dever: dar o melhor de mim sempre, até morrer. Não apenas por mim, mas pela honra do meu nome. Para honrar a minha família. Todos da casa Merak tinham sacrificado algo até então, até mesmo eu. Nosso nome foi para a lama uma vez, quando meu avô traiu Lord Vlad. Porém, enquanto eu estivesse viva, o nome Merak não seria arrastado pelo chão outra vez, em honra da redenção que o bondoso Vlad concedeu ao meu avô, por piedade pela minha mãe, que era criança. Ele sempre protegia as crianças, era um instinto mais forte do que ele. Primitivo.

Rezei todas as noites para que a minha mãe voltasse para o nosso lar, viva, inteira e saudável. Para qual deus? Para o que me ouvisse. Houve muito na minha vida que foi diferente do que se esperava de uma mulher nobre. Em resumo, é como me lembro de tudo. As pessoas que não se interessarem pela vida de uma humana, tão singela quanto o pai, podem parar no início. A quem se propuser me conhecer melhor, dou as boas-vindas.

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Ana Merak - Dever e HonraHistórias para pegar e não largar. Descubra agora