UMA SACADA

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Todo o meu corpo estava dolorido. Eu sentia o latejar de cada milímetro, orgânico ou não, da composição do meu ser. As minhas nádegas encontravam-se dormentes por eu ficar tanto tempo sentada. Diante de tamanho despautério da vida, aquela exaustão pela viagem absurdamente cansativa, eu só almejava por uma cama de verdade para dormir. Sentia-me imunda visto que não sabia mais o que era um bom banho. Valenius também estava visivelmente exaurido. Foi nesse contexto de desânimo, em um silêncio quase mórbido, carregado pelas marcas do sofrimento, que finalmente avistamos os limites das terras do meu avô. Entendi então como os cavalos se sentiam, que voltavam correndo para casa ao avistá-la. Eu queria descer da carruagem e correr pelos campos até o castelo. Senti até que estava ganhando um pouco mais de energia.

Chegando na vila, Valenius farejou o ar e fez uma expressão estranha. Algo que ficava entre a surpresa e o receio.

— O que há de diferente? — Questionei. Falávamos com conforto desde a última conversa.

— Nada demais, apenas sinto um cheiro de... Fogo. — Ele ergueu uma sobrancelha.

— Ora. — Olhei para os campos e não havia queimada à vista. Na verdade, estava até frio e um pouco ùmido. — Você precisa de longas horas de descanso, Valenius.

— Concordo plenamente, senhorita Ana. — Ele disse sem emoção.

Estávamos voltando ao nosso normal. O corriqueiro, cotidiano, me agradava mais do que nunca. Mal me aguentava de vontade de ver o meu pai e dar nele um abraço apertado. Como estaria depois de tanto tempo sozinho?

A carruagem mal parou na frente do castelo e eu já saltei de dentro correndo. Quase caí ao escorregar nas pedras molhadas. Entrei, passando pela porta com toda a velocidade enquanto gritava pelo meu pai.

Ele apareceu no salão, com o sorriso largo no rosto e de braços abertos para me receber. Lancei-me em seu colo e o abracei com força. Ele me apertou em seu abraço enquanto me girava no ar. Era tão bom vê-lo. A sensação de estar em casa não podia ser explicada. Parecia que meus ossos se desmontaram no chão tamanho era o alívio que eu sentia.

Pedi a benção enquanto ele me avaliava para ver se eu estava inteira. Sim, eu estava, apesar de tudo. Era o que parecia.

— Tenho uma certeza quase absoluta de que você cresceu. — Ele me abraçou outra vez, me gangorrando para os lados enquanto eu ria. O meu riso ecoava pelo salão.

— E você está radiante. Isso tudo por me receber? — Passei a mão em seu rosto com aspecto saudável.

Estava barbeado, com a pele viçosa, os olhos brilhando e os cabelos bem cortados e penteados. Já nem me lembrava mais da última vez que o vi em tamanho estado de júbilo. Era como se fosse muito jovem outra vez.

— Você, minha filha, é a alegria da minha casa e do meu coração. — Declarou. Então olhou para a porta. — Ah! Vejam só um velho imundo e maltrapilho entrando na minha morada. Alguém dê um banho neste homem porque sua catinga infestou tudo.

Foi com essas palavras acolhedoras que o meu pai recebeu vovô Barakj.

— Cale essa boca, Borjan! Não suporto ouvir a sua voz, principalmente estando exausto como estou. — Eles se abraçaram e deram tapas nas costas um do outro.

Depois disso seguiu-se uma bagunça nova para mim. Fomos todos acomodados nos quartos junto com as nossas bagagens. Cumprimentamos as pessoas que ficaram ali enquanto estávamos viajando. A alegria da chegada era maior do que a existência de todos nós. Tomei um banho com a ajuda de Solis, que, curiosa, perguntava detalhes sobre a viagem. Falei pouco, principalmente ao sentir meu corpo relaxando na tina. E mantive o foco em narrar o que era mais curioso, fantástico. Até cantei uma canção folclórica de tanto êxtase.

Ana Merak - Dever e HonraHistórias para pegar e não largar. Descubra agora