Desde que nos mudamos para o Castelo Merak, meu pai e eu nunca saímos para a vila. Eu já tinha seis anos de idade e mal via as cozinheiras. Não de perto, claro. Recordo-me de que, quando era menor, meu pai me levava no colo até a cozinha, mas depois fiquei restrita ao interior do castelo, que eu já conhecia como a palma de minha mão. Cada pedra, quadro, porta, vela, cristal e todo tipo de detalhe. Como qualquer criança, eu era curiosa, porém não tinha permissão para sair. O exterior, como jardins e pomar, eu visitava três vezes por ano, religiosamente. Na capela íamos sempre, mas descobri que ela tinha uma entrada interna, como todo o resto, e era ela que eu usava.
Papai mantinha olhos de águia sobre mim, sempre cuidando para que eu nunca estivesse longe de sua atenção, mesmo quando eu brincava pelos quartos ou quando apenas olhava pelas janelas.
Meu avô era contra todo aquele cuidado. De vez em quando eu ouvia os dois discutindo sobre o comportamento do meu pai.
— Ela não pode ficar trancafiada neste castelo para todo o sempre, Borjan! — Meu avô reclamava, indignado.
— Ano que vem eu deixo ela andar para fora do castelo, Barakj. — Papai respondia com um tom cansado que ele só usava com o meu avô.
Todo ano ele dizia isso. No começo eu não compreendia, mas conforme a idade passava, a noção chegava. Até as lições de dança, canto, piano, letras e história, mesmo essas eu não podia ter com outras pessoas. Era meu pai quem ensinava.
Quando eu já contava meus seis anos de idade, ouvi ambos conversando na sala azul. Um diálogo com aquele mesmo teor de sempre.
— Até quando ela ficará cativa do seu temor, Borjan? — Meu avô protestou pela milionésima vez.
— Até quando eu pensar que está segura, Barakj. — A réplica de meu pai veio seca.
— Ela estará segura, Borjan. Estamos aqui por ela! — O velho retrucou com firmeza.
— Estávamos lá pela Lwana também. — A voz de meu pai tremeu ao dizer o nome de minha falecida irmã.
Meu coração acelerou, os olhos marejaram. Senti no peito aquele aperto que chamavam de saudade. A melancolia arrojada que nunca me dava paz. Às vezes eu chorava escondida quando as imagens de minha mãe ou minha irmã ficavam tão nítidas que eu conseguia sentir até mesmo os cheiros que elas tinham. Em todo aquele tempo, era a primeira vez que eu ouvia meu pai dizer o nome de Lwana. Ele nunca falava dela. Eu evitava também porque imaginei que se eu ficasse triste, ele também ficaria.
— Meu filho... — A voz de meu avô se tornou suave e cálida, cheia do conforto que ele usava comigo quando eu me machucava de alguma maneira. — Eu sei que ainda dói, mas é preciso viver.
— Barakj, você não entende... — Parecia que as palavras seguintes tinham morrido na glote de meu pai. Ele se engasgou com elas porque tossiu em vez de terminar o que dizia.
As lágrimas quentes escorriam pelo meu rosto miúdo e pálido. Enxuguei-as com minhas mãos curtas e as limpei em meus cabelos.
— Eu tive filhos, Borjan. Eles estão mortos agora. Eu tive uma neta e ela está no mundo. Dói em mim como dói em você. — As palavras de meu avô saíam mansas. — Sabe o que mais pesa? Ver vocês mofando pelos cantos deste castelo enquanto a vida passa. Veja como você está! Pálido, magro, sem viço algum. Se a minha neta retornasse agora, pensaria que te mantenho no calabouço, sem água ou comida.
— Barakj... — Meu pai estava chorando.
— Não, Borjan... Vocês vão viver. Eu ainda tenho autoridade aqui. Não exijo que você se integre com os outros de vez, nem mesmo que pare de vigiar Ana. Apenas passeie por aí e conheça as pessoas. Deixe Ana saber como é o mundo. — Foi o ultimato de meu avô, dito com autoridade e respeito.
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Ana Merak - Dever e Honra
FantasyAna Merak descende de uma família que se encontrou com a magia em condições adversas. A mãe de Ana era humana, mas foi recrutada para lutar pelo equilíbrio do mundo. Em meio ao caos da vida, a prestigiada Lira Merak deu à luz suas filhas, e teve uma...
