O TEMPO

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Na Árvore já era possível ver que o nosso tempo estava chegando. Não havia mais dúvidas disso. Eu não queria apressar Ana e nem interferir em suas decisões, mas eu estava certo. Todos nós estávamos certos. Veterilupus me parabenizou por suportar em silêncio, apesar de ser o mínimo que eu poderia fazer.

Quando eu a conheci e tudo começou, não pensei que era mais do que um trabalho. Eu queria ouro para ganhar o mundo e deixar meus pais em paz. Queria cumprir mais missões como aquela da qual eu tinha vindo. Ela era mais velha do que eu e às vezes parecia mais nova, imatura, sem o peso da vivência.

Observei-a dormindo. A face avermelhada pelo choque térmico. O rosto pequeno engolido pela colcha. Pouco antes ela estava morrendo congelada. Literalmente morrendo. Descuidamo-nos de Ana por meia hora e ela entrou no quarto de pedra que estava mais gelado do que o ambiente lá fora. Depois de uma viagem exaustiva e da má alimentação, ela não suportaria tanto como em condições normais. O inverno chegou mais rigoroso dessa vez. Senti muito pena porque ela estava sozinha naquele enorme castelo. A família toda se foi para compromissos importantes e inadiáveis. Porém, eu rezava para que o pai dela não retornasse em meio à nevasca que se aproximava.

Ouvi uma respiração agitada na frente da porta. Os fungados de alguém farejando. Na certa era Tellūris ou Polaris. Levantei da poltrona, caminhei pelo quarto evitando os olhos judiciosos do retrato do senhor Alioth e abri a porta. Era Tellūris. Saí do cômodo.

— Que felicidade que estejam aqui! Quase morremos de susto quando não encontramos vocês no quarto dela. — Reclamou com razão.

Polaris saiu do dormitório de Ana em sua forma de loba branca, com as orelhas em pé. Logo voltou a ser humana. Parecia estar com raiva.

— Não quero nem saber. — Disse irritada e estendendo uma mão espalmada.

— Sejam gentis. A família toda de Ana está longe daqui. Ela sofreu pela mãe, o avô e agora pelo pai. Não é fácil. — Defendi-a, já sentindo um certo ultraje atingir meu coração. Como podia ser tão cruel com a pobre Ana? Era irritante o seu estado que inspirava cuidados, todavia era o nosso trabalho.

— Os humanos são muito frágeis. — Polaris resmungou o comentário vindo direto daquele coração gelado que ela conservava o peito.

— Nós também sentimos os acontecimentos com certa gravidade. — Repliquei em proteção.

— É diferente. — Retrucou.

Achei hipócrita.

— Não, não é. — Ergui uma sobrancelha e endureci o olhar. Um alerta para ela parar de se comportar daquela maneira.

— Como ela está agora? — Tellūris tentou espiar, mas bloqueei a vista.

— Dormindo.

— Não sejas tão protetor, Valenius. — Tellūris reclamou. — Esse também é o nosso papel. Nosso clã prometeu, se lembra?

— Não posso evitar. — Suspirei, tentando deixar a tensão se esvair do meu corpo. O meu clã não era nosso inimigo. — Sim, nós prometemos e as últimas notícias não animam.

— Nem um pouco. Há muitos anos que estão lutando. É uma das batalhas mais épicas das quais já tivemos ciência. Talvez Barakj e Lira não voltem dessa empreitada contra eles. Como faremos para proteger Ana dela mesma e da dor da perda? — Tellūris lançou no ar uma verdade na qual eu sempre pensava, mas preferia ignorar para ter alguma paz. Era melhor acreditar nas habilidades dos Merak.

Ana Merak - Dever e HonraHistórias para pegar e não largar. Descubra agora