— Pai, aonde Valenius está? — Questionei com a voz arrastada por um remédio que tinham me dado. A minha língua parecia grossa.
— Ele está descansando, filha. Dormindo. — Meu pai mentiu. Como se eu não pudesse ler em seus gestos que aquela era uma inverdade traiçoeira.
Eu sabia que era mentira porque havia uma semelhança gigantesca entre Valenius e vovô Barakj: ambos eram leais como cães. Nenhum deles abandonava o posto por muito tempo, a menos que tivessem um motivo de força maior. Mas eu também tinha um pressentimento de que havia um acontecimento ruim em curso. Não adiantava insistir na tentativa de descobrir por confronto, meu pai não ia falar. Entretanto, eu não caía em seu engodo.
— Eu quero ver o meu filho. — Pedi com urgência na voz. A primeira grande desgraça que me passou pela cabeça foi, naturalmente, a morte de meu primogênito.
— Você está muito fraca para pegar ele no colo. — Meu pai respondeu em tom de advertência.
— Não importa, quero vê-lo. Apenas olhar para ele. — Insisti já ficando agitada. A minha respiração ofegante, a cada segundo mais entrecortada. O medo já era maior do que a minha dor.
Se meu pai trouxesse Arge, significava que ele estava bem. Caso o contrário... Senti um arrepio de mau agouro. Não tinha como controlar aquele instinto.
— Por favor, pai. Não me negue isso. — Comecei a chorar com desespero genuíno.
— Está bem, filha. Vou buscá-lo. Mas você não pode pegar ele no colo. — Ele avisou.
Anuí. Eu concordaria com quaisquer termos para ver meu filho, ainda que fosse doloroso negar o colo para ele. Negar o seio materno.
Meu pai se levantou da cadeira, me cobriu melhor e arreganhou as portas do quarto.
— Entrem e fiquem de olho nela. — Ele pediu para Aleana, Ina, Estera e Tellūris.
Era guarda demais no quarto. Naquele momento tive certeza de que Valenius não estava por perto. A postura de todos estava diferente. Alerta e muito defensiva.
— Precisa de algo, senhora? — Tellūris ofereceu enquanto percorria o cômodo com discrição.
— Não, obrigada. — Falei desviando o olhar de seus rostos cheios de comiseração. — Agradeço pela ajuda.
— Não hesite em dizer. — Estera reforçou um pouco mais tímida do que as demais pessoas, mas não menos bravia.
Eu estava aborrecida, sobretudo pela dor em todo o meu corpo. Não cessava nunca, me queimando e ardendo. Eu não falava da criança morta, mas eu pensava nela. Pensava naquele filho o tempo todo. Eu sabia que era um homem, por intuição. Não insisti em ver Arge antes porque sabia que ele estava bem, e não queria que a imagem aterrorizante de minha aparência doente ficasse marcada em suas memórias infantis, mas a insegurança me fez voltar atrás. Às vezes só podemos escolher entre sacrifícios. Mais cedo, quando Solis veio me ver, agradeci por ela ser ama de leite do meu filho. Ela disse que velhas amizades são assim e que eu faria o mesmo se a situação estivesse invertida. Sim, eu faria sem pestanejar. Eu não quis falar dos meus problemas, então menti que queria dormir e ela se foi. Falar sobre tudo o que me destruía era viver a dor duas vezes.
Meu pai apareceu na porta, pisando macio, com um embrulho de mantas fofas no braço. Engoli seco tentando ser racional para não assustar Arge, mas não consegui controlar a emoção. O choro correu porque a saudade se fez presente com a sua força avassaladora. A saudade de ser integralmente uma mãe, cumprindo com todas as minhas funções. Ele chegou o pequeno embrulho bem perto de mim, mostrando meu filho, que dormia tranquilo. As bochechas coradas em seu rosto de expressão serena. Eu tinha certeza de que o leite de Solis o estava nutrindo mais do que o meu porque Arge exalava saúde. Senti uma vontade enorme de pegá-lo no colo. Cheguei a erguer os braços em um gesto involuntário. Era doloroso apenas olhar sem poder cuidar.
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Ana Merak - Dever e Honra
FantasíaAna Merak descende de uma família que se encontrou com a magia em condições adversas. A mãe de Ana era humana, mas foi recrutada para lutar pelo equilíbrio do mundo. Em meio ao caos da vida, a prestigiada Lira Merak deu à luz suas filhas, e teve uma...
