O PREÇO DA IMPORTÂNCIA

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Foi como acordar de um sonho. De repente eu estava ali, galopando em meu cavalo, cortando os campos, quando a sensação de realidade me atingiu com toda a força. Fiquei confusa, puxei o freio do cavalo e sacudi a cabeça para espantar a tontura.

— Ana? Você está bem? — Valenius se aproximou com seu cavalo. A expressão de seus olhos, acima do bigode e da barba que cobria seu queixo, era de preocupação. Parecia que ele vira um fantasma.

— Eu só estou zonza, Valenius. — Inspirei o ar com força para dentro do meu peito coberto com meia armadura que levava o brasão dos Merak.

— Quer vir na garupa do meu cavalo? — Ofereceu com cautela. Estava preocupado com a minha segurança.

— Não precisa, eu já estou bem. — Sequei o suor que brotou repentinamente da minha testa.

Tive a mesma sensação de quando sonhava os sonhos mais perturbados, onde era perseguida sem motivos. Já haviam se passado quase dez anos desde o primeiro, mesmo assim eu não me acostumava. Acordava esgotada, com olheiras profundas.

Voltei a cavalgar. O ar da manhã pareceu mais fresco e dinâmico em muito tempo. De repente a natureza estava mais brilhante, como quando eu era mais nova. Por que eu passei anos enxergando tudo de forma tão mecânica? Eu agia certo, fazia escolhas certas, porém não estava sentindo da maneira certa e só naquele momento a compreensão chegou. No começo algumas pessoas estranharam a minha suposta apatia, no entanto, depois atribuíram ao meu amadurecimento. Para mim, só parecia normal. Eu não sentia nada diferente além da falta de sobressaltos sentimentais, era confortável. Naquele momento, no dorso do cavalo, era como se tivesse rompido um selo em mim me dando vontade de ofegar.

Entramos na rua nova da vila, mais movimentada do que nunca. As transações comerciais se avolumavam, assim como os interesses pelas nossas mercadorias e outros pormenores. Parei o cavalo na frente da Instituição Fēmina, inaugurada algum tempo antes. A realização de um sonho. Era uma gigantesca casa de madeira e pedra, com trinta dormitórios grandes, refeitório e outros cômodos espaçosos. A fachada tinha o nome em uma grande placa, pintada por mim. Ao lado havia um galpão grande com divisas onde eram executadas diversas atividades.

Uma das crianças que moravam na instituição veio correndo quando me viu no cavalo. Sorrindo com a arcada dentária falha. Ele segurou o cabresto e cumprimentou Valenius, que já estava no chão. Tirei o pé de um estribo e comecei a apear quando a minha vista se tornou turva, escurecida. Tonta, errei o movimento, o cavalo se mexeu e quase caí, mas Valenius me amparou nos braços.

— O que está acontecendo, senhorita Merak? — Ele perguntou enquanto me ajudava a ficar na vertical.

— Eu não entendo. — Apertei os olhos e mirei o céu, enxergando uma miríade furta-cor.

— Desejas retornar? — Questionou-me muito preocupado. Uma preocupação respeitosa.

Valenius também tinha mudado. Às vezes eu o surpreendia me olhando como se soubesse de algo que eu não sabia. Nunca mais tinha demonstrado um sentimento que não fosse lealdade.

— Não, eu estou bem. — Contrariei. Bati as botas no chão, por debaixo da saia simples do vestido de montar. Olhei para o menino e o cumprimentei com um sorriso. Ele sorriu de volta: — Quais são as novidades de hoje, Marco?

Ele era um órfão. Não tinha ninguém e nem para onde ir, por isso o recebemos na instituição que acolhia mulheres e crianças. Pricila, que antes era apenas minha mestra, já tinha esgotado seu tempo para ir embora, mas acabou ficando ali para ajudar a firmar a Instituição Fēmina. Antes as pessoas tinham certo preconceito com o lugar, mas depois passaram a enxergar como uma boa oportunidade para quem já não tinha mais para onde ir. Além de gostarem que seus filhos agora pudessem aprender a leitura e a escrita do latim e do romeno. Era difícil convencer os pais a não levar as crianças para a lavoura, ainda assim, aos poucos, eles cediam. Também porque começamos a fornecer animais e ferramentas que substituíam as crianças. Alguns achavam que o conhecimento era inútil, e talvez fosse mesmo da perspectiva deles, já outros, enxergavam como uma maneira de melhorar os negócios e a vida, o que também era verdade.

Ana Merak - Dever e HonraHistórias para pegar e não largar. Descubra agora