CIGANOS II

37 12 97
                                        

O que mais aprendi com a minha família ao longo de minha curta vida, foi que existe mais de uma maneira de lidar com situações difíceis. A existência de ciganos cativos era algo que eu tentava ignorar, por um bem maior. Para ter mais paz. Em todo o tempo de morada no Castelo Merak, era a primeira vez que eu precisava lidar com a passagem deles pelas nossas terras. Era óbvio que eles corriam na nossa direção porque era menos arriscado. Talvez tentassem passar pela floresta sem serem vistos, mas Alexandru jamais permitiria que saíssem vivos de lá. E ele era um caçador habilidoso demais.

Pensei imediatamente no que vovô ou papai fariam, mas foi o lema principal que me levou a sair já de noite, arrastando a minha guarda e alguns soldados, no frio cortante, para resolver a situação. Dever e honra. E era nesse ponto que quem mais pesava na minha memória era a minha mãe, pedindo-me para ser justa. Em todo problema que envolve pessoas, as soluções nunca são fáceis. Não são somente os aliados que possuem crianças e idosos consigo. Os inimigos e os desconhecidos são iguais ao nosso povo. Isso significa que tinham sentimentos e racionalidade o suficiente para, pelo menos, nos ouvir. Tudo iria depender da abordagem, eu estava certa. Mesmo assim, para evitar problemas e desgastes, pedi para a minha tropa cercar o grupo, com calma e sem violência. Ou com o mínimo de violência.

Aprendi com a Instituição que as pessoas são imprevisíveis, e todas têm uma história para contar.

Eu ia no meio da formação, como tinha aprendido com vovô. Valenius estava à direita e Tenebris à esquerda. Veteri, o mais experiente de nós, seguia na frente junto com dois dos guardas de sua confiança. Ao lado de Tenebris estava Tellūris. Ao lado de Valenius ia Polaris.

Alcançamos o grupo se movimentando quase nos confins de nossas terras, caminhando no escuro e seguindo uma estrada muito ruim. Quase não faziam barulho e não carregavam fogo. Eram parcialmente protegidos pela floresta. Ficaram desesperados quando os alcançamos. Ergueram punhais e espadas para nós, os homens mais fortes na frente dos mais fracos. Alguns bebês choravam e seu choro ecoou no estéril pelos campos. Não estavam bem agasalhados e nem limpos. Quando lançamos sobre eles as luzes de nossas tochas, vimos rostos cansados. Olhos fundos. Expressões desesperadas. Os animais e carroças ocupavam um bom tanto de estrada.

Apeei do meu cavalo com o coração martelando dentro do peito. Era uma situação difícil porque estavam vulneráveis e eram traiçoeiros. Puxei a espada da bainha e tomei a frente da formação. Meus passos pareciam mais barulhentos no silêncio do impasse. Eles recuaram um pouco, porém seus músculos estavam tensos e faziam caretas ameaçadoras. Uma lufada de vento gelado atingiu meu rosto e meu estômago se revirou de nervosismo.

Parei de andar quando estava a um metro e meio do primeiro homem e puxei o ar como se bebesse um gole silencioso de coragem naquela noite escura e fria.

— Eu sou Ana Merak, senhora dessas terras. — Anunciei em tom firme. — Exijo falar com o seu líder.

Eles continuaram parados, em silêncio. Até que, finalmente, de dentro de uma carroça coberta com um tecido, uma carruagem improvisada, saiu um velho segurando a barriga. Ele se arrastou com dificuldade, porém manteve a cabeça erguida enquanto me encarava. Ele se aproximou mais e minha guarda puxou as espadas.

Nos entreolhamos na tensão ambiente. Um dos bebês continuava chorando. Crianças estavam agarradas nas barras das saias das mães, com seus grandes olhos cheios de medo.

— Sou Gun, o líder do clã. — Disse com voz rouca e firme, mas um tanto trêmula. Ele estava ferido, era a dedução certa pela postura troncha que ele tinha.

— Gun, estamos aqui para ajudar o seu clã a atravessar as minhas terras. — Joguei a espada no chão logo à minha frente. — Eu trouxe comida e remédios prontos.

Ana Merak - Dever e HonraHistórias para pegar e não largar. Descubra agora