SENHORA NECTARIUS

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— Deus é testemunha do quanto esse jovem tentou um enlace contigo, menina. — Jis riu enquanto comia algo preparado para a viagem. Ele segurava uma lata aberta sobre o seu colo. O aroma de comida gostosa exalava dentro da carruagem.

Solis arreganhou os lábios em um sorriso pleno, mostrando os dentes brilhantes. Torci o nariz para eles. Estava feliz que Jis ia conosco, mesmo que seu maior interesse fosse apenas o banquete. Escolhi um presente especial porque Darius tinha mandado muitos regalos para mim ao longo dos anos, até desistir da empreitada de conseguir a minha mão e aceitar outra noiva.

— É a prova de que a persistência tola não leva a lugar algum. — Repliquei, pegando um quitute de dentro da lata.

Ele parecia cansado. Havia muitos anos que Jis estava trabalhando sem parar. Mesmo com Petrus auxiliando, ele não tinha o mesmo vigor de antes ou pelo menos precisava de um tempo apenas para si. Estava até mais magro. Preocupava-me essa situação de Jis e eu gastava algumas horas pensando em como aliviar a sua carga de responsabilidade. Estudava colocar Pulchra no lugar de Pricila para que ele não acumulasse funções. Ele me olhou nos olhos e tombou levemente a cabeça.

— Você está se tornando mordaz, Ana. O que acontece nesse coração intocado de jovem mulher? — Questionou-me, sondando sobre os meus sentimentos. No fundo, cumprindo a sua função de resguardar o meu espírito. Era trabalho também.

— Vocês, meu caro Jis, estão sensíveis demais por esses tempos. — Sorri, evitando pronunciar alguns pensamentos nefandos. — Nem pesadelos tenho tido ultimamente, portanto, estou de ótimo humor.

— Há quanto tempo não pega nos pincéis? — Indagou-me, tocando em um ponto sensível de minha vida.

Suspirei e cruzei os braços. O homem me conhecia desde criança, não adiantava tentar dar voltas nele.

— Há algum tempo, mas isso não significa muito. Com todas as obrigações o tempo parece correr mais rápido. — Tomei mais água.

O vestido vermelho e pesado, com penduricalhos, estava me dando fadiga, contudo era quente e adequado para o tempo frio que deitava sobre a Transilvânia e seu cenário lúgubre naquela estação. Quando eu era menina, o inverno também era bonito. Talvez, nos novos tempos, fosse eu que estivesse mais sombria e por consequência via a paisagem assim, tão triste, porém, não mudava o fato de que estava mesmo frio.

— Você deve reservar um momento para fazer o que mais gosta. — Jis falou com autoridade meio paternal. — Não é bom pensar somente nas obrigações.

Abri a boca para contradizer, e desisti. Principalmente quando encarei Solis concordando com ele, em uma anuência. Ia me contrapor por teimosia, mesmo sabendo que eles estavam certos.

— Farei o possível para seguir o seu conselho. — Respondi, olhando através da janela. Era engraçado como eles falavam da minha personalidade, quando aquela era apenas quem eu realmente era, sem um filtro mágico para me proteger e sem a ignorância do desconhecimento sobre a vida.

— Tu és um milagreiro, senhor Jis. — Solis disse com reverência. — Apenas seus conselhos entram nessa cabeça dura.

Ele riu de uma maneira misteriosa.

Estávamos chegando no castelo Nectarius. A estrada passava por dentro do povoado em linha sinuosa. Havia enfeites por todo lugar, mas pouca gente se via nas ruelas. Seguimos para o portão, que estava aberto. Passamos pelo caminho ladeado por fogueiras que queimavam incessantes. Avistamos a ponte levadiça e o fosso escuro. As paredes da muralha do castelo eram de pedras lisas e polidas, para evitar escaladas. Alguém no chão gritou o nome da nossa comitiva:

Ana Merak - Dever e HonraHistórias para pegar e não largar. Descubra agora