— Vamos, você precisa trocar de roupas. — Solis começou a me puxar de volta para o castelo.
Olhei para o meu pai, que vinha andando da direção da estrebaria, todo encharcado e com lama até a cintura. Por um lado eu senti saudades e queria correr para abraçá-lo, mas por outro, eu não conseguia perdoar pelo caos em nossa família. Vi que ele também me fitava com olhar dolorido, porém decidi virar as costas. Doía em mim porque exatamente naquele momento me lembrei da minha mãe. Cedi ao puxão de minha amiga.
Eu estava tão cansada de todo aquele tempo, com os sentimentos tão completamente desorganizados, que não servia menos do que um tempo para mim.
Alguém me agarrou pelo ombro.
— Espere. — Era a voz de meu avô. Olhei para trás e me deparei com sua feição rígida. — Não vais dar as boas-vindas para o teu pai?
— Não. — Desvencilhei-me do toque dele.
— É o seu pai, Ana. Você deve respeito e amor. — Vovô admoestou.
— Não estou apta a pagar essa dívida por agora. Faltam-me os recursos. — Afirmei, carrancuda, seguindo em frente. Solis estava parada, olhando com medo, por isso fui eu quem a movi.
Valenius, como sempre, se deslocava tal qual uma assombração.
— Ana! — Vovô chamou uma última vez, em tom mais severo.
Apressei o passo sem dar chance ao azar.
— Ana, eu penso que você devia ouvir... — Solis tentou advogar em favor deles.
— Você não sabe da missa a metade, Solis. Não me diga o que fazer. — Adverti. Eu não deixaria outras pessoas interferirem. Quando me sentisse pronta, eu o confrontaria.
— É um erro ser assim. — Solis tentou uma última vez.
Não abri a boca. Minha careta foi capaz de expressar todo o meu azedume.
— E você? Por que fugiu de mim? — Falei enquanto entrávamos no meu quarto.
— Bem, em resumo, a senhora sua professora proibiu todos os jovens de terem contato com você, para não atrapalhar na sua instrução. Nós fizemos o que podíamos sobre isso. — Solis confessou.
— Não creio! — Aquelas palavras entraram no meu coração, me paralisando.
— Pois creia. — Solis buscou panos para enxugarmos o corpo.
— E vocês apenas me abandonaram sem se opor? — Questionei perplexa, me sentindo um pouco traída.
— Não foi assim que aconteceu. Ela falou com os nossos pais e, quando eles conversaram com o seu pai, bem, ele disse que então ela deveria entender sobre o que estava pedindo. — Solis dizia as palavras com cautela. Era óbvio que ela não queria fazer um estrago maior do que aquele que já acontecia, mas não teve como amainar a situação.
— Por que ele fez isso comigo? — A dor já me transbordava pelos olhos, em forma de lágrimas.
— Ele só quis o melhor futuro, eu tenho certeza. — Solis tentou afagar o meu braço, mas eu me afastei.
Com um enorme nó na garganta, senti-me sem ar.
— Eu estive tão abandonada todo esse tempo! Eu... — Coloquei a mão sobre meu tórax abafado.
Era complicado encontrar as palavras.
— Ionel também não lidou bem com isso. — Solis contou.
VOCÊ ESTÁ LENDO
Ana Merak - Dever e Honra
FantasyAna Merak descende de uma família que se encontrou com a magia em condições adversas. A mãe de Ana era humana, mas foi recrutada para lutar pelo equilíbrio do mundo. Em meio ao caos da vida, a prestigiada Lira Merak deu à luz suas filhas, e teve uma...
